Artigos - Emoção e comportamento

EMOÇÃO E COMPORTAMENTO
 
“Só por hoje.” Quem nunca ouviu essa frase? Quem já a reproduziu? Eu sempre a ouvi, despretensiosamente, em conversas cotidianas. “Só por hoje, não irei pensar no trabalho. Me darei este dia de folga.” “Só por hoje não me venha com histórias tristes, quero finais felizes.” “Só por hoje”, também cantava a saudosa banda Legião Urbana:

... “Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas poucas vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora” ...
 
Porém, de casual, esta frase “Só por hoje” adquiriu um significado especial, quando iniciei um projeto junto a dependentes químicos (DQs).
 
Atendo DQs em recuperação no consultório, em terapia individual. Nesse novo projeto que integro, teremos grupos de mútua ajuda, além dos encontros individuais. Devido a esse novo formato de atendimento, tomei duas medidas em âmbito pessoal, para melhorar meu desempenho profissional: reencaminhei-me à sala de aulas e tornei-me visitante em grupos de ajuda mútua. Existem alguns grupos nesse formato, mas falarei aqui dos Alcóolicos Anônimos (AA).
 
A.A. é uma Irmandade de homens e mulheres que se reúnem para alcançar e manter a sobriedade através da abstinência total de bebidas alcóolicas. É de caráter voluntário e estruturada na tríade: Recuperação, Unidade e Serviço. Essa tríade é conduzida nos princípios da Irmandade: Doze Passos (Recuperação), Doze tradições (Unidade) e Doze conceitos (Serviço).
 
O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber. A proposta sugerida (no grupo não há imposição) é: “Evite o 1º Gole. Vá com calma. Volte sempre.” Já o propósito de cada membro é manter-se sóbrio e ajudar outros alcóolicos a alcançarem a sobriedade: “Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de AA esteja sempre ali. E por isso eu sou responsável.”
 
Imbuído deste pensamento de solidariedade, a cada início e término de reunião, é reservado um minuto de reflexão sobre aqueles que ainda sofrem com a doença alcoolismo. Isso mesmo, doença! O alcoolismo é reconhecido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) como uma doença. Uma doença sem cura e progressiva. Para dar conta do seu adoecimento, muitos frequentam psicoterapia, médicos, igrejas, entre outros. Mas A.A. não é insubstituível. É um “remédio” de uso continuado. Só por hoje.
 
Na Irmandade, além dos Princípios, há uma literatura oficial. Dentre os livros indicados, destaco o livro “Reflexões Diárias”. Ele apresenta o “plano das 24 horas” e um conjunto de reflexões organizadas pelo calendário anual. A partir dessa premissa, “Só por hoje”, nas 24 horas do dia, cada membro se permite organizar dentro e fora de si seus pensamentos, crenças e comportamentos diários.
 
Em A.A. existe a consciência de que apenas cada membro pode fazer algo por ele mesmo, mas não pode sozinho. Com o programa de recuperação desta Irmandade, pessoas outrora desorientadas, agora sóbrias, se apresentam como alcoólicos recuperados. E se surpreendem em serem melhores como pessoas exatamente por terem vivenciado uma relação nada saudável com o álcool.
 
Nas reuniões abertas ao público interessado no Programa de Recuperação, cada membro dispõe do seu espaço para compartilhar sua experiência de vida, seus embates e suas vitórias diárias e para refazer o seu pacto de “Só por hoje, Graças a Deus.”  Isso mesmo, não apenas apreendi um novo significado à expressão “Só por hoje” como também surpreendi-me com a construção para uns, reconstrução para outros, da crença em um Poder Superior a quem são agradecidos pelas conquistas diárias.
 
O Ser Supremo é reservado à concepção individual. Contudo, independentemente do Deus de cada um, de onde brota a fé, o que emerge no Grupo é o sentimento de esperança. Sentimento esse revigorado diariamente no interior da Irmandade, nas reuniões, através de cada membro. Mergulhado nesse sentimento de esperança, houve um membro que acrescentou ao “Só por hoje” a expressão “para sempre”. Ele fez sua apresentação em um genuíno sentimento de agradecimento pela sua sobriedade, há alguns meses. Disse outro membro, igualmente agradecida pela oportunidade de refazer a vida:  “Sou portadora de uma doença e por mais este dia em que pude me manter sóbria, obrigada!”.
 
E eu, Miriam Alice, por ter participado de algumas reuniões, também compartilho do sentimento de gratidão inerente à Irmandade, aos que gentilmente me acolheram, me permitiram participar do relato de suas vivências e me proporcionaram galgar um degrau a mais em meu desafio de me aprimorar como pessoa e como profissional, “só por hoje... para sempre, obrigada. Graças a Deus!”
 
Para finalizar, partilho a Oração da Serenidade, um mantra em grupos de mútua ajuda: “Deus, concedei-me, a Serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar; Coragem para modificar as coisas que posso, e Sabedoria para saber a diferença entre elas.”

                                                      
                                   Psicóloga Clínica e Palestrante
 

Vivência nº 148 – Março/Abril 2014