DP - Enfrentando nossos temores

Quando cheguei em A.A. encontrei à minha volta bons exemplos que me ensinaram os princípios os quais devemos pôr em pratica para modificar nossas vidas. O homem que seria meu padrinho estava dizendo um dia, durante o café, que havia estudado as Doze Tradições e que aprendeu a colocá-las em prática no seu dia-a-dia. Interessei-me e comecei a prestar atenção no que ele tinha a dizer, embora pensasse que, na verdade, as Doze Tradições não teriam nenhuma aplicação pratica na vida pessoal e que certamente eram para pessoas que contavam com mais anos de sobriedade. Eu disse para mim mesmo que talvez algum dia chegaria “ao nível” das Tradições depois de “conhecer a fundo” os Doze Passos.

Esse homem me disse que colocava o bem-estar comum de sua família acima de suas necessidades e desejos pessoais, e o bem-estar da empresa, do seu chefe e de sua equipe acima de seus desejos egoístas de obter êxito pessoal. Explicou o conceito da auto-suficiência de uma forma como eu nunca havia escutado antes, ao descrever o princípio espiritual de que nós, alcoólicos em recuperação, tínhamos que custear nossos próprios gastos na Irmandade.

Quanto mais ele falava, mais eu me interessava. Comecei a falar com esse homem sobre tais princípios na medida em que começamos a estudar os Passos. Uma das coisas que ele me disse a respeito da Décima Segunda Tradição foi que, algum dia, uma das coisas mais difíceis que eu deveria fazer seria quando tivesse de mostrar esses princípios e carinhosamente colocá-los acima das personalidades de todo o grupo, mostrando que seus pensamentos estavam equivocados. Disse-me que algum dia eu seria a voz da minoria e teria de vencer o medo que me atormentasse porque ninguém faria isso por mim.

Com efeito, esse dia chegou durante uma das reuniões dos sábados à noite, das quais eu gostava tanto. Estava cheia de veteranos e companheiros de A.A., cuja sobriedade eu respeitava muito.

Durante as leituras e os outros procedimentos usados para iniciar uma reunião, a sacola é passada. Então, o coordenador anunciou que passaria uma segunda sacola, destinada a recolher fundos para a festa de natal das crianças do Centro da Rua dos Robles. Como eu estava sentado na primeira fila, ele me passou uma das sacolas e deu a outra para alguém da mesma fila. Então presumia-se que passaríamos a sacola por toda a sala, até chegar a ultima fila. No instante em que peguei a sacola, senti uma ansiedade profunda e olhei para as Doze Tradições colocadas na parede. Pareceu-me que a Sexta Tradição era a que mais brilhava entre as outras. Tratava-se de uma causa nobre: as crianças no natal. Também se tratava de nossos filhos, porque o Centro era um clube onde se celebram as reuniões de A.A. Tentei, por isso, pensar que não era um empreendimento de fora, mas o coração dizia que sim. O clube era um estabelecimento semelhante, mas as crianças não eram membros de A.A. Passei a sacola à pessoa que estava a meu lado e disse: “Não posso participar disso”.

A ansiedade aumentou quando senti que tinha de fazer algo a respeito. Mas o que eu poderia fazer? Sou uma pessoa que gosta de agradar aos outros. Se dissesse mais alguma coisa, temia que as pessoas achassem que eu estava passando dos limites e me colocasse de lado. A situação não preocupou a mais ninguém, já que vi muitos colocando dinheiro na sacola, satisfeitos.

Enquanto eu quebrava a cabeça para tentar resolver este dilema, a reunião começou e continuou como de costume. Porém, Deus havia concebido um plano para mim nesta noite e fui chamado a falar. Ao levantar, minhas mãos começaram a suar porque eu sabia o que tinha de fazer. Teria que me colocar em pé de frente ao salão repleto de pessoas que haviam permanecido sóbrias por muito tempo, a quem eu respeitava muito, e seria eu quem teria de dizer a eles que aquilo não era correto. Fiz uma oração rápida a caminho da tribuna. Quando cheguei lá, respirei fundo e falei. Não me lembro com exatidão o que disse, mas eles receberam bem... até chegar o intervalo. Vários membros então me cercaram tentando “me ensinar” dizendo que eu estava equivocado, e começaram a compartilhar comigo o que eles concebiam como o que era certo em todo esse assunto.

Apesar de toda sabedoria que esses veteranos, bem intencionados, generosamente me ofereciam, não mudei meu voto e nem a minha maneira de pensar. O que realmente aconteceu foi que abri as portas para um diálogo sobre esse problema e a consciência do grupo decidiu que não passaria outra sacola para causas externas.

Vários princípios espirituais fizeram-se presentes nessa situação, mas devo a Deus todo o resultado. Ele preparou-me ajudando a me familiarizar com a Sexta Tradição e com a forma que esses princípios funcionam para o nosso bem e o de toda a Irmandade. Se não fosse pelos Doze Passos, não teria tido a fé para enfrentar meus temores e ser uma voz minoritária.

Ainda não estava inteirado dos Doze Conceitos como princípios espirituais, mas comecei a aprender a importância da voz da minoria para o bem de A.A. antes de saber que este era um principio espiritual. Todos os nossos Legados se sustentam mutuamente. Nunca é cedo para começar a aprender e praticar todos esses princípios “em todas as nossas atividades”.

(Grapevine, março de 2000)
VIVENCIA N° 80  NOV/DEZ / 2002