DP - Enterre seu defunto

ENTERRE SEU DEFUNTO 
Meu nome é Luciano, sou portador da terrível, incurável, progressiva e fatal doença chamada alcoolismo. Costumo definir minha trajetória com a bebida em quatro palavras: ATRAÍDO, DISTRAÍDO, TRAÍDO E DESTRUÍDO pelo álcool.
“Enterre seu defunto”, talvez essa frase solta possa soar estranha, porém, vou contar o porquê desta referencia: Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos trouxe uma bagagem muito pesada do meu passado de alcoolismo, a começar pelo maior estrago que cometi estando embriagado, simplesmente, provoquei um derrame cerebral na minha pobre mãe, responsável por educar meus quatro filhos, que apenas queria conter-me em casa não permitindo que voltasse bêbado para rua porque já era madrugada. Deixei-a literalmente desnudada, rasguei seu roupão de dormir para conseguir pegar a chave da casa pendurada em seu pescoço e sair livremente para continuar meu rosário de dor e sofrimento através da bebida.
Ela sobreviveu, mas deixou seqüelas permanentes como paralisia do lado direito do corpo, comprometendo também sua fala. Depois, sofreu um segundo AVC, vindo falecer alguns anos depois, dia 15 de agosto de 1977, após o terceiro derrame. Graças a Deus, ela ainda teve tempo de perdoar-me em vida e também de ver esse filho tão complicado e doente, fazendo parte desta Irmandade salvadora, onde já contava com um ano e cinco meses, milagrosamente sóbrios.
No inicio de minha caminhada em Alcoólicos Anônimos, quando tive oportunidade de compartilhar ou até mesmo quando algum companheiro citava sua mãe ou filhos, causava em mim um verdadeiro sentimento de dor e culpa, visto que, com a impossibilidade da minha mãe, os filhos ficaram entregues a própria sorte, por isso, bastava uma simples referência que me transformava num rio de lágrimas. Na realidade não passava de um sentimento pernicioso chamado autopiedade. 
Até que um companheiro, que considero meu padrinho, disse-me: “companheiro, parece que você ainda não se convenceu de que o passado só se resolve com aceitação, não podemos mudá-lo, portanto, enterre seu defunto, anote o que ele representava para você, o local onde está enterrado e vida que segue. Caso contrário, vai carregá-lo eternamente e a tendência é que fique cada vez mais pesado e sempre que olhá-lo sentirá culpa e voltará a sofrer. Então, companheiro, liberte-se, enterre seu defunto, porém, jamais se esqueça dele.
Daí em diante, como me foi sugerido, “enterrei meu defunto” e compreendi que para sofrer as dores do passado, basta desenterrá-lo e a exumação me fará muito mal. Portanto, quando recordo desse acontecimento sei que não posso inocentar-me, mas procuro aceitar o que não posso modificar para não mais sentir dor pelo meu passado desastroso, que teve no álcool um aliado poderoso para cometer essa e tantas outras atrocidades.
Compreendi as palavras sábias do meu padrinho e procuro seguir suas orientações, lembrando que: “o que não tem solução, solucionado está. Anotei todos os detalhes, como o local onde está enterrado, o que de fato aconteceu, enfim, tenho devidamente arquivado na memória todos os dados e quando preciso lembro-me de todos os detalhes, entendendo que o passado eu devo ter aceitação e o presente. tenho que mudar para melhor, sempre.
Aprendi também, que a maneira ideal de aceitar meu passado é usá-lo em benefício de outros que, como eu, vítimas desse mal chamado alcoolismo, possam encontrar nessas experiências de vida, motivação para superar as dificuldades do passado acreditando num futuro melhor a cada dia.
Que o Poder Superior, Deus do meu entendimento, nos oriente hoje e sempre.


Luciano M.///RJ