DP - Esquecer da minha vaidade para fortalecer o alicerce dos princípios

Anonimato. O alicerce espiritual das nossas Tradições
 O Quarto Passo de A.A. mostra o quanto é prejudicial ao ser humano quando ele excede as funções específicas dos seus instintos naturais. Mal controlados, esses instintos nos levam a anseios pelo sexo, por bens materiais e por posições importantes na sociedade, nos causando grandes problemas ou quase todos os problemas que existem. Nenhum ser humano está livre destas dificuldades, por melhor que ele seja. 

Durante muito tempo lutamos contra a ideia de que outras pessoas pudessem nos mostrar que tínhamos um problema. Achávamos sermos o centro das atenções e os donos da verdade e o “EU” era o que sempre prevalecia. Muitas vezes chegamos a dizer: “Eu sei o que estou fazendo, não sou mais criança, quem paga as minhas contas sou eu e não preciso que ninguém se meta em minha vida ou diga o que eu devo fazer ou não”.

Achávamo-nos o personagem principal em tudo que queríamos fazer, e as opiniões dos outros não adiantavam nada, mas com o passar do tempo sentimos que não podíamos mais lutar sozinhos. Chegamos ao fundo do poço e veio a admissão. Admitimos ser impotentes perante o álcool e muitas coisas mais. Conhecemos A.A. e em nossas vidas entram os seus princípios e com eles vêm algumas perguntas: porque os princípios estão acima? Porque não podemos aceitar que alguém pague nossas despesas? Porque não podemos filiar-nos a uma entidade semelhante a nossa? E mais, por que não podemos aparecer de frente e diante de uma câmera de televisão?

A resposta a estas perguntas e algumas outras vem do fato de que tudo isso já foi tentado antes, e o que ganhamos foi uma grande e maravilhosa experiência: “As nossas Tradições”. Portanto, ambições pessoais não têm lugar diante desses princípios. E a humildade e o sacrifício são as coisas que prevalecem em prol do bem comum.

A experiência nos mostra que um membro de A.A. é parte integrante de um grupo, e o grupo é uma pequena parte de um todo. O membro como servidor do grupo está sempre exposto à Consciência Grupal, nos serviços prestados por ele. E assim, trabalhando todos unidos e com um único propósito, a mensagem chega com mais qualidade até aqueles que precisam de A.A., pois esse é o único objetivo de nossa Irmandade e será sempre.

Assim sendo, se esquecermos de nossas vaidades pessoais, se pensarmos no nosso semelhante com amor e no desejo de ver nossa Irmandade crescer cada vez mais, fortaleceremos o alicerce dos nossos princípios e nossa própria sobriedade.

Os Passos, as Tradições e os Conceitos de A.A. são os princípios aos quais temos que nos submeter para alcançar a recuperação e assim poder levá-la a outros. “Princípios Acima das Personalidades” significa que, embora não exista um governo central, o conteúdo espiritual dos princípios prevalece ante as nossas investidas.

Através da prática desses princípios, alcançamos um determinado grau de recuperação espiritual fazendo-nos obedecer a limites de nossa atuação como membro de A.A. em busca da divulgação sobre a nossa Irmandade e não a autopromoção e ambição pessoal. Passamos a ver também o tamanho da responsabilidade que cada um de nós tem com Alcoólicos Anônimos, compartilhando nossa Unidade, que é o nosso bem mais precioso. 

Em algum lugar da nossa literatura está escrito que, ou vivenciamos os Doze Passos como membros e as Doze Tradições e os Doze Conceitos como Grupo, ou experimentaremos a dissolução e a morte.

Para ilustração deste nosso trabalho, vamos fazer algumas conotações a respeito.

Alguns compositores e escritores costumam definir o título de seus artigos e após digitá-lo colocam o seu nome, para garantir o direito autoral, a propriedade intelectual, e ser reconhecido de acordo com o seu nível de vaidade. Aqui está a primeira conotação da Décima Segunda Tradição de A.A., que nos recomenda colocar os princípios acima das personalidades. Está mais do que provado que esta recomendação funciona e faz bem para o nosso crescimento espiritual.

No dia-a-dia dos nossos Grupos temos encontrado também inúmeros exemplos referentes a este assunto. Temos a história de um companheiro que no início da sua programação resolveu arrumar o Grupo que ele participava. Varreu, limpou cinzeiros, fez o café e deixou tudo em ordem. Após esse trabalho, ficou na porta do grupo, esperando os companheiros chegar e elogiar tal atitude. Foi uma grande frustração, pois não ouviu da parte de nenhum companheiro referência ao serviço que ele havia prestado. Isso não significa dizer que a Irmandade e os companheiros não reconhecem ou não valorizam o serviço. Neste momento a questão é de impessoalidade; quem fez o melhor no serviço não foi o companheiro, foi o Grupo, que confiou tal serviço a ele por saber que o resultado seria aquele.

Outro exemplo que guardamos na memória é de um médico que durante uma viagem foi a um determinado Grupo de A.A. e presenciou a chegada de um novo companheiro – na metade da reunião – onde fora vivamente saudado por alguns membros do Grupo. Notou que o coordenador sinalizou para o orador que se encontrava na cabeceira de mesa, que encerrasse logo sua participação, para que o recém-chegado pudesse ser chamado. Em sua oratória recheada de termos técnicos, o participante não teve dúvidas em informar aos presentes que a bebida alcoólica é prejudicial à saúde, provoca sequelas graves, discorrendo com detalhes as suas consequências. Quando terminou seu discurso despediu-se de todos, pois ainda tinha compromisso em outro Grupo de A.A. e não poderia permanecer por mais tempo. Foi aplaudido em sua saída, mas sobre o alcoólico que ele disse ser, ninguém ficou sabendo de nada. O Grupo tinha acabado de ouvir uma palestra profissional e não o depoimento de um membro de A.A. Logo se ficou sabendo que se tratava de um médico, ingressado recentemente naquele Grupo.

Quando alguns membros não conseguem conter a tentação de se mostrarem melhores, mais inteligentes e mais importantes, quem perde é a Irmandade, pois trata-se de algo perigoso que sempre cria problemas para quem quer aparecer e para os demais que vivenciam as situações protagonizadas. É sempre um risco para a programação do alcoólico, pois as emoções dessa natureza podem deixar o membro a um passo do álcool. Essa preocupação todos nós, membros de A.A. conscientes, teremos que ter sempre. Pois em casos de recaídas nos perguntamos: como ficam a imagem e o conceito de A.A. junto ao público em geral?

Baseado nesse contexto, Alcoólicos Anônimos aprovou e procura seguir a sua “Décima Segunda Tradição”, cujo prefácio nos mostra que o Anonimato é o Alicerce Espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os Princípios Acima das Personalidades.

Para que seja possível compreender, aceitar e vivenciar os preceitos de nossas Tradições é necessário que tenhamos anteriormente nos dedicado aos Doze Passos.

Assim como cada passo do Programa de Recuperação nos prepara para o próximo passo, o conjunto dos Doze Passos nos prepara para a aceitação das Doze Tradições.

Para poder entender melhor as Tradições, é necessário limpar primeiro a casa, reconhecer nossos erros, admitir nossos defeitos de caráter e buscar em um Poder Superior a correção daqueles defeitos que sozinhos não poderemos corrigir. Sem desinflar o Ego, e ter caminhado por bastante tempo na estrada da humildade, pouco assimilaremos desses princípios espirituais. 

A compreensão do preceito, de que é preciso colocar em primeiro lugar os Princípios de A.A. acima de qualquer coisa, nos encaminha rumo ao nosso objetivo, fazer a vontade de nosso Poder Superior e não a nossa.

Assim, como os Doze Passos sugeridos para a nossa recuperação nos instrui a viver, as Doze Tradições nos leva não só a conviver, mas também a colocarmos os Princípios acima de nossas personalidades. Se não esquecermos nossos anseios pessoais em favor do bem estar comum, estamos fadados ao desaparecimento.

O ego sempre leva a situações dolorosas, a nós e principalmente aos outros. Cabe lembrarmos que o perigoso apego à nossa personalidade tem nos levado a determinadas situações, e não os princípios espirituais que regem a nossa Irmandade. 

Não podemos colocar o carro a frente dos bois, assim como não podemos colocar a personalidade a frente dos princípios.

Infelizmente, presenciamos ao longo dos dias alguns grupos fechando as suas portas, porque alguns servidores se eternizaram no serviço sem permitir o rodízio, colocando suas personalidades acima dos princípios, que nos indicam e nos incentivam ao apadrinhamento nos trabalhos como forma de desprendimento e amor aos companheiros novos.

Enquanto os princípios nos sugerem mantermos a mente aberta para a recuperação e para novos assuntos da Irmandade, alguns Grupos desobedecem às Recomendações da Conferência, estimulados pela personalidade de algum membro.

Enquanto os princípios nos estimulam à gratidão pela nossa vida e pela vida da nossa Irmandade, alguns companheiros não estimulam a participação e as contribuições em A.A., motivados pela personalidade.

Insuflados pela personalidade, ainda existem companheiros que não estimulam o trabalho do CTO, enquanto os princípios nos sugerem levar adiante a mensagem de A.A., pois não temos fronteiras. 

Enquanto à luz dos princípios mostram que a ambição dos meus anseios pessoais deve silenciar toda vez que ameace prejudicar o grupo, vemos companheiros se ausentarem das reuniões de serviço porque uma das suas sugestões não foi aceita, atitude motivada pelo ego e pela personalidade.

Os princípios nos sugerem exercitarmos a humildade, pois sem esta a recuperação está comprometida. Mesmo assim, vemos como fruto da presença da personalidade a busca constante de status por parte de alguns companheiros.

Vemos sintoma claro de se colocar a personalidade acima dos princípios por parte de algum servidor que passou o encargo, não mais apoiar o novo comitê de serviços porque, ou está fazendo mais do que ele fez ou não está fazendo o que ele quer. Lideramos pelo exemplo e não por mandatos.

Se minha personalidade me motiva a pensar que aquele serviço continua por minha causa, os princípios lembram-me que já havia alguém esperando por mim quando cheguei, e que com amor e humildade terei que dar continuidade.

Por quanto tempo ainda e quantas vezes teremos que lutar entre a personalidade e o princípio? É importante refletirmos melhor sobre esta questão em nossos grupos o quanto antes. Precisamos de discernimento no compartilhar, conhecimento de nós mesmos e dos princípios de A.A. para vivermos melhor com os outros.

Nossa responsabilidade primordial é transmitir a mensagem a tantos alcoólicos quanto possível, sem promoção pessoal, sem buscar vantagens, sem deixar que o ego se infle, pelo trabalho desenvolvido em nome de A.A., tendo como maior ingrediente a preservação da nossa Irmandade através da humildade, expressa pelo anonimato.

Não foram nossos feitos e nem nossas qualidades, não foi por nossa busca insana pelo poder, prestígio e fama, que fomos para A.A., mas pelos escândalos da sarjeta, das irresponsabilidades ou das loucuras que cometemos. Por isso, lembremos sempre da necessidade de não exaltarmos nossas personalidades. Nossos anseios pessoais devem ser abolidos em favor do bem comum, sem o qual não existiríamos.

Aprender a respeitar os princípios de A.A. e seguir aquilo que nos é sugerido torna-se expressão viva da humildade, do viver em grata contemplação com o Poder Superior que é a razão de tudo, assim como fazer nosso trabalho com amor, dedicação e muita gratidão. 

O caminho a percorrer na procura do nosso objetivo, encontra-se em todo o conjunto de princípios oferecido por nossa Irmandade, mais precisamente implícito em cada uma das Doze Tradições, que começa com a Primeira Tradição dizendo: “Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar”, e a Décima Segunda, conclui dizendo: “Lembrando sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”. 

É somente com essa sequência de sacrifícios que podemos viabilizar tanto a vida em Grupo, que é a forma com que melhor nos recuperamos e trabalhamos, quanto a existência e perpetuação da própria Irmandade.

Mais vinte e quatro horas de sobriedade e serenidade para todos nós.