DP - Eu sou companheiro

Precisamos estar sempre vigilantes.
O Grupo Menfis, de Vinhedo, no interior de São Paulo, do qual faço parte, foi convidado outro dia para coordenar uma reunião de unidade no Grupo Nova Europa, em Campinas. No convite, eles nos atribuíram um tema, que foi "Companheirismo". Primeiro fiquei surpreso, pois na minha ignorância, era a primeira vez que ouvia falar numa reunião de Unidade com tema. Agradavelmente surpreso, por sinal. Achei uma ótima idéia. Depois, indo para casa, o assunto não me saiu da mente. Companheirismo, o que é?
"Bem vindo, companheiro". Estranhei ouvir isso, logo após ingressar em A.A. Logo eu, que já não tinha mais nenhuma porta aberta. Meu coração parece que se esqueceu. Não me senti mais tão só. Aquela noite demorei para dormir. Pensando, sentindo. Não tinha entendido muita coisa, mas estava com uma forte sensação de haver chegado em algum lugar. De ter achado a minha turma. Após tantos anos navegando sem nenhum rumo, por um mar geralmente tempestuoso, já perto da loucura, pareceu-me ter chegado ao meu porto. Lembro-me que senti esperança.
 Agora, já se passaram alguns anos. E estou inteiramente envolvido e protegido pelo companheirismo de tanta gente na Irmandade. Nunca mais senti aquele frio na alma que só vocês conhecem. Por isso, nem fica difícil de entender a frase de Albert Scott. Após ouvir Bill falar sobre A.A., ele não se conteve e exclamou: "Mas isso é o Cristianismo do primeiro século".
Ao longo do tempo, vocês me deram inúmeros exemplos do que é ser companheiro.
Lições: "João, vou fazer um cheque para pagar o aluguel da sala. A arrecadação do mês não vai dar". João, com um sorriso, mas firme: "Não faça cheque, Zé, põe dinheiro na sacola. E não conte pra ninguém". Anonimato, nosso bem mais precioso.
Apoio: deitado numa maca, indo para a sala de cirurgia sofrer uma operação delicada, fui dando gargalhadas. Ninguém me entendeu. Meu padrinho, na porta do elevador, havia me contado uma história engraçadíssima.
A demonstração mais intensa dessa força ocorreu comigo há dois anos. Meu filho de 24 anos, caçula do primeiro casamento, sofreu um acidente muito grave e foi internado, em coma. Logo fomos informados de que ele estava praticamente desenganado. Só foi possível suportar o choque porque em pouco tempo os companheiros começaram a chegar. E comigo ficaram. O tempo todo.
Revezavam-se, um ia embora, outro chegava, não me deixaram só. No entardecer do quarto dia, a enfermeira me chamou e eu li a noticia nos olhos dela. Olhei e lá estava o menino. Alto, bonito, bigode recente, bom de bola, bom de conversa, meu amigo. Imóvel, morto. As horas seguintes, os dias, intermináveis, o velório, o enterro, eles estiveram juntos. Bem perto de mim. Os companheiros. Na minha imensa dor, só falei pela voz deles, só enxerguei pelos olhos deles, só caminhei pelos passos deles. Que grande ensinamento eles me passaram.
Inúmeros exemplos, no dia-a-dia do grupo, prestando serviços nos escritórios. E vejo que só hoje, pela primeira vez, é que me faço a pergunta. E eu, como estou sendo? Eu sou companheiro?
 O meu bem-estar pessoal é mais importante que o bem-estar do grupo? Tento aprender a ser apenas mais um?
Ou ainda tenho a tentação de ter mais prestígio que os outros? Que tipo de exemplo estou dando? Limpo meu cinzeiro? Se precisar, faço o café ou varro a sala? Sei das necessidades do grupo e contribuo de acordo? Nos meus depoimentos, esqueço-me dos novos? Quando coordeno, falo mais que todos?
Faço o Quarto Passo dos outros ou o meu? Estou realmente com a mão estendida? Afasto-me dos bêbados? Sou companheiro?
Vejo que essa reflexão é muito importante para mim. Tenho estado vigilante comigo mesmo. Preciso verificar sempre, nos meus inventários, quem estou sendo. Se estou seguindo tantos bons exemplos que tive. Se realmente estou sendo companheiro. Não só em A.A. Também em casa, com minha mulher, meus filhos, com todas as pessoas com quem convivo.
Para meu bem-estar, para ter sobriedade, é preciso que eu as ame. Todas. E também porque, vocês sabem, alguém já me disse, é através das pessoas que converso com Deus. Estar bem com elas é estar bem com Deus.

(Vivência N° 28 – mar/abr 1994)