Artigos - Faz mal não...É fácil corrigir

Faz mal não...É fácil corrigir

Alguns meses atrás chegavam à nossas mãos inúmeras cartas de companheiros trazendo um estranho pedido: desejavam saber qual a exata diferença entre gratidão e fanatismo. À cada carta recebida aumentava a nossa estranheza, porque imaginávamos os companheiros já suficientemente esclarecidos sobre o verdadeiro sentido que, de ordinário, se costuma dar à nossa gratidão para com A.A.. E ainda mais intrigados ficávamos por sabermos que fanatismo não é palavra comum e muito menos sentimento cultivado ou mesmo sugerido no seio da irmandade. Ao contrário, em tudo e por todos os meios, o comum é estar sempre lembrado de que a serenidade, a moderação, a humildade e o anonimato constituem ingredientes indispensáveis a quem se propõe fazer o programa de A.A. O ressentimento, a exaltação, a ira, a auto-compaixão e outros sentimentos tidos e havidos como inferiores são sempre lembrados como péssimas companhias na caminhada para a reformulação pós-cachaçada.     

 
  Somente depois de algum tempo e indagação é que ficamos sabendo que esses companheiros, ao escreverem, se encontravam em angustiante estado de dúvida sobre se seriam gratos ao A.A. ou fanáticos pelo A..A. conforme assim haviam lido e entendido de uma entrevista publicada numa conhecida revista de circulação nacional.. Confessamos que, por não ser nem a  prática nem a pregação de fanatismos dentro de A.A., nunca havíamos atentado para uma possível relação entre o significado de gratidão e fanatismo. Aprendemos, senão em profundidade mas o suficiente para o trivial, que as palavras têm ou podem adquirir um significado relativo quando aparecem no contexto de uma idéia expressada pela forma escrita ou falada.     Assim, por exemplo, a palavra ESPANCAR, que no seu sentido comum significa agredir com pancadas, bater em alguém - e entendida pelo povão como dar porrada em alguém - no meio de juízes, advogados e estudantes de Direito toma o sentido  de afastar, dissipar, TIRAR TODA E QUALQUER DÚVIDA QUE SE TENHA SOBRE UM FATO OU UMA QUESTÃO  DE DIREITO.     
   
   Sabemos, também, que poetas e romancistas, por serem do ofício, costumam jogar com as palavras para colocá-las, com elevada elegância e precisa propriedade, na construção de versos, de frases e mesmo de longos períodos; e o fazem de tal forma que encantam os seus leitores, deles recebendo o reconhecimento de autores consagrados. São intelectuais capazes de sentir, interpretar e transmitir, com sensibilidade e grande profundidade, qualquer sentimento humano. Agora, confundir gratidão com fanatismo é, além de uma impropriedade, incorrer na possibilidade de, gratuitamente, dar porrada em alguém que nada fez por merecer.     
 
   Mas, voltemos aos companheiros que nos escreveram. Se, por acaso, você que nos escreveu tenha ultrapassado os limites de uma profunda e compreensível gratidão pelo A.A. e, por esta forma, caído no extremo do fanatismo - o que é improvável - não se moleste. Aceite com serena sobriedade o fato de que, no caso em concreto, é melhor, mas muito melhor mesmo, ser fanático por quem lhe restituiu a sanidade -  em muitos casos a própria vida - do que continuar fanático pelas garrafas da vida. Os nossos motivos são muito nossos e tão profunda e dolorosamente nossos que, por vezes, não ficam ao alcance da compreensão do comum das pessoas, até mesmo de algumas poucas pessoas não tão comuns assim.
  
 FANÁTICO? FAZ MAL NÃO... É FÁCIL CORRIGIR. CORREÇÃO MAIS DIFÍCIL E MAIS PENOSA VOCÊ JÁ FEZ E CONTINUARÁ FAZENDO, ESTAMOS CERTOS, A CADA VINTE-E-QUATRO- HORAS... 

 Revista Vivência nº 11 - Jul/Ago/Set 1989