DP - Fenix "Morri e nasci das próprias cinzas"

DP - Fenix "Morri e nasci das próprias cinzas"

Completei este mês um ano de sobriedade, mas digo com freqüência em meus depoimentos que meu tempo de sobriedade no sentido amplo da palavra, que abrange não só o físico, mas o emocional e o espiritual são de nove meses contados depois que, numa noite de domingo, após uma longa e dolorosa internação em uma comunidade terapêutica entrei pela porta do meu grupoRancho Grande de A.A.

Cheguei derrotada. Fisicamente abalada. Moralmente frustrada. Emocionalmente instável. Espiritualmente vacilante. Ainda não perdera a família, bens materiais, mas perdera a vontade de lutar, de viver. Encontrei o grupo aberto e receptivo; a primeira tradição emanava por tudo e por todos. Que acolhimento! Nunca ninguém, pelo menos nos últimos anos, se mostrara tão feliz por eu estar ali... e diziam que eu era a pessoa mais importante daquela noite. Logo eu, um fracasso humano... uma derrota... sozinha!
 
Minha família deixou a recuperação por minha conta (menos meu irmão e minha cunhada, que bons amigos eles estão sendo). Com medo, muito medo, carregava um fardo enorme, vivia aterrorizada; tudo me assustava e me fazia frente.
 
Não sei, mas algo me dizia que ali era minha última chance tive meu despertar espiritual - e resolvi agarrar essa chance, como nunca havia feito na minha vida. Voltei outras vezes. Difícil? Muito... Enfrentei preconceitos? Demais... Não desisti! Perguntava-me onde estão as companheiras? Pois sei que a mulher, hoje em dia, está em pé de igualdade com o homem, no quesito bebida.
 
 No "meu grupo" eu não teria e ainda, infelizmente, não tenho companheiras, sou a única mulher. Outro grande obstáculo. Resolvi aceitar o desafio. Encontrei cara feia, machismo, receio, sim, algumas vezes. Mas, o acolhimento foi maior, "o sentir-me bem e amada foi maior". Resolvi ficar. Fui me envolvendo cada vez mais com os companheiros, com o grupo, com o A.A. e, a cada depoimento, a cada reunião, algo me fazia crescer, aprender e partilhar.
  
 Como gosto muito de ler apaixonei-me por nossa Literatura e começou meu crescimento espiritual dentro do grupo. Fui escolhida pela consciência coletiva para coordenar reuniões e agora fui escolhida para secretariar meu grupo no biênio 2008/2009. Fazer parte do terceiro legado veio reforçar meu amor por A.A. e por todos, mas todos mesmo, meus companheiros. Tenho a eles como irmãos. São todos meus companheiros. Tenho a eles como irmãos.
 
 São todos meus padrinhos, já que não tenho uma madrinha e, se hoje estou sóbria, reconquistando meu lugar na sociedade devo ao Poder Superior, ao A.A. e aos meus companheiros. Sem eles eu não seria nada, não teria conseguido nada. Ainda me olham com desconfiança, sei que minha família não seria nada, não teria conseguido nada. Ainda me olham com desconfiança, sei que minha família não "acredita" na nova mulher que nasceu das cinzas, mas hoje, graças à programação, sei trabalhar tudo isso com mais serenidade. Aos poucos fui recobrando a coragem e a vontade de viver.

 Hoje, consigo sentir alívio, tranqüilidade, paz de espírito, alegria. Consigo sorrir. Sou feliz. Vejo nos rostos, gestos e depoimentos sinceros dos meus companheiros, que estou sendo importante para a recuperação deles e isso me leva às lágrimas; fico realmente comovida e agradecida. Como Fênix, da mitologia grega, com seu dramático renascimento das próprias cinzas, hoje eu também renasci. Sou uma nova mulher. Que o Poder Superior nos conceda sempre 24 horas de serenidade e sobriedade.
 
(Vivência Nº110 - Nov./Dez./2007)