DP - FESTAS: chegar e sair no momento certo

Alcoólicos Anônimos me devolveu a condição de ter uma vida normal, hoje posso fazer tudo o que as pessoas "normais" fazem com apenas uma restrição: Não tomar o primeiro gole de qualquer bebida alcoólica.

Manter a sobriedade é a minha responsabilidade maior que, com a freqüência em reuniões de AA, se torna menos árdua. Conviver com os companheiros me ajuda a solucionar meus problemas com a bebida; nosso relacionamento é espontâneo porque falamos a mesma linguagem e temos objetivos comuns.

Porém, nossa vida não se restringe apenas em AA, convivemos em sociedade, com familiares, colegas de trabalho, amigos pessoais, vizinhos e muitas outras pessoas que interferem em nosso dia-a-dia. Afinal de contas somos seres humanos como qualquer outro e por isso, somos sociáveis, o que nos coloca às vezes, em situação de maior vigilância com relação à nossa doença. E importante frisar que a doença do alcoolismo é nossa, não dos outros. Os cuidados que devemos ter, beneficiam diretamente a nós mesmos, aos outros por conseqüência.

A.A. nos possibilita uma vida sem o uso de bebidas alcoólicas e, o importante, feliz. Como é difícil tolerar alguém que vive de "porre seco", se lamuriando por não beber, fixo em seu passado alcoólico. Este ainda não descobriu que a felicidade existe e que depende somente de sua forma de viver. A felicidade se constitui de momentos felizes, quanto mais momentos tivermos, mais felizes nos tornamos.

Participar da sociedade é uma necessidade de qualquer ser humano. Esta participação implica em freqüentarmos festas, solenidades e reuniões dos tipos mais diversos. O programa de A.A. nos capacita a isto, quanto mais firmes estivermos, quanto mais aplicarmos os conhecimentos contidos nos Doze Passos e nas Doze Tradições em todas as nossas atividades, melhor nos sentiremos, melhor nos conduziremos em sociedade.

O povo em geral considera comemoração como sinônimo de liberação para o uso de comidas e bebidas alcoólicas. Assim, dificilmente participaremos de alguma solenidade em que não tenha a presença do álcool. Para tal, necessitamos estar firmes em nossos propósitos e conscientes do que estamos fazendo e por que estamos participando do evento.

Existem alguns cuidados que podem ser considerados genericamente para todos. O primeiro é que, se não estivermos nos sentindo à vontade e com desejo de participar de uma confraternização, não devemos ir. Por mais que possamos parecer inadequados, nossa sobriedade está acima de qualquer sacrifício. Em todas as reuniões é comum que um número de participantes não compareça.

Outra técnica que podemos usar como segurança, é de não sermos os primeiros a chegar. Dizem que "os mais importantes sempre chegam atrasados", o que, como A.A., não concordo, mas neste caso nos beneficia. No início os anfitriões estão preocupados em atender e deixar à vontade os convidados, oferecendo os primeiros drinques e petiscos, afinal vamos comemorar alguma coisa. Chegando após esta etapa não seremos tão "bem atendidos", pois a festa já está em andamento.

Com o decorrer do tempo as coisas acontecem, o objetivo da reunião é atingido e todos se sentem felizes e contentes, inclusive nós, é claro. Aos poucos passamos a perceber que alguns dos participantes começam a demonstrar alteração em seu comportamento, como nós fazíamos, em função do efeito do álcool. Chegou então o momento de nos retirarmos, já cumprimos o nosso papel, já participamos da comemoração, já fomos notados pelos participantes, já nos divertimos. Deste momento em diante não temos mais nada a aproveitar e corremos o risco de nos incomodar, de ficarmos irritados ou com ressentimentos. Para que isto? Não precisamos e não devemos nos testar, já sabemos como somos. Não vamos "cutucar a fera com vara curta", não é mesmo?

Provavelmente seremos dos poucos que participaram do encontro sabendo dos reais motivos pelo qual ele foi planejado.

Saberemos de tudo que aconteceu de importante, cumprimos com nossa obrigação social e continuamos sóbrios e felizes, conosco e com todos, que fazem parte de nossa vida. E neste momento que devemos planejar nossas próximas vinte e quatro horas.

VIVÊNCIA N.° 28 mar/abr 94.