Artigos - Fundamentos do Programa de Recuperação de AA

TRATAMENTO INFORMAL

"OS DOZE PASSOS"

Iniciarei esta apresentação com uma importante afirmativa feita por George Vaillant no seu livro: A História Natural do Alcoolismo. Ele diz que é preciso aceitar o paradoxo e admitir que podemos colocar o alcoolismo no modelo médico, mas que a sua etiologia e tratamento são largamente sociais. E acrescenta que talvez não haja na Medicina moderna nenhum outro caso em que a sociologia contribua tanto para o entendimento daquilo que é chamado de alcoolismo.

Por outro lado, Klaus Makela afirma que "mudanças comportamentais radicais e duradouras geralmente também envolvem uma mudança existencial e a reestruturação do "self". E deste ponto de vista, Alcoólicos Anônimos é uma interessante saída do alcoolismo.

TRABALHO DE VAILLANT

 George Vaillant estudou 660 casos de alcoolismo e acompanhou esses pacientes por 40 anos, de 1940 a 1980. Ou seja, realizou um importante e significativo estudo longitudinal, talvez o mais completo e mais longo dos que até hoje foram feitos. A importância desse enfoque é posta em destaque pelo fato de que o corte transversal exibe o quadro de um momento, mas não mostra como se chegou a ele nem o que aconteceu a partir dele. Num estudo longitudinal é que se delineia o contorno da história natural de uma doença.

CORRELAÇÃO

O foco principal do referido trabalho está voltando para um minucioso estudo de correlação entre os modelos médico e social do alcoolismo. Num estudo de correlação procura-se avaliar em que medida, em determinados grupos de fenômenos ou em diferentes enfoques, de um mesmo fenômeno, ocorrem pontos comuns ou ligações entre suas características, estatisticamente significativas. A partir desse estudo, concluiu Vaillant que os médicos e os sociólogos estudavam o mesmo fenômeno, o alcoolismo. Falavam do mesmo fenômeno a partir de enfoques inteiramente distintos e isso é tão importante que, observando os critérios usados para o diagnóstico do alcoolismo, vemos que são adotados parâmetros tanto de caráter médico quanto social.

Olhando a partir de uma perspectiva mais adequada, volto a apresentar as palavras de George Vaillant que definem o foco, que a meu ver é o mais adequado diante da experiência que acumulei ao longo de muitos anos de prática médica e dos 34 anos de convivência estreita e continua com os membros da comunidade de Alcoólicos Anônimos.

Repetindo, temos que aceitar o paradoxo e admitir que podemos colocar o alcoolismo no modelo médico, mas a etiologia e o tratamento são largamente sociais. Nós, do mundo científico, racionalistas e cartesianos, não gostamos do paradoxo. A palavra paradoxo traz a conotação de imprecisão, de coisa de compreensão difícil, de complexidade, de coisa contraditória, mas uma coisa só é verdadeira quando contém o paradoxo.

DESCONHECIMENTO

Apesar de o alcoolismo ser uma desordem de grande poder destrutivo que, segundo o mesmo autor, afeta de 3 a 10% dos americanos do norte, ser responsável por 25% das internações em hospitais gerais e de ter papel importante nas quatro maiores causas de morte entre homens de 20 a 40 anos de idade: suicídio, homicídio, acidentes e cirrose hepática, além de comprometer seriamente os familiares e amigos dos alcoólicos, a falta de conhecimento acerca do que é o alcoolismo é assombrosa.

FATOS

O que consideramos até o momento nos mostra que o melhor caminho a seguir no conhecimento do fenômeno Alcoólico Anônimos é o da observação pura e simples de fatos reais e de fácil constatação.

BREVE HISTÓRICO

Assim, temos que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos surgiu em 10 de junho de 1935 nos Estados Unidos da América, ou seja, há 71 anos. Ao longo de todo esse intervalo de tempo, cresceu de forma contínua e consciente. Ou seja, o crescimento não teve um contorno senoidal, ora para cima ora para baixo, e isso é muito importante para apreciar a consistência e o vigor desta forma de associação humana. É importante ainda acrescentar que poucos são os fenômenos sociais ou mesmo instituições que mostraram tal consistência e longevidade. Por outro lado, difundiu-se para cerca de 150 países do mundo e aqui vale ressaltar que ultrapassou fronteiras não só físicas, mas, sobretudo sociais: lingüísticos, culturais, religiosos, étnicos, etc. Isto é, alcançou seres humanos de todas as raças, de todas as religiões e de muitas e diferentes culturas.

Num primeiro momento, irradiou-se por todos os Estados Unidos. Num segundo, alcançou o norte da Europa e se difundiu por países anglo-saxônicos e de cultura predominantemente protestante. Depois, chegou ao centro e ao sul do continente europeu, ou seja, a países de cultura predominantemente católica. A seguir, alcançou a América Latina, a África e os países do leste europeu. Numa terceira onda, chegou aos países do leste asiático, podendo-se afirmar que Alcoólicos Anônimos está se consolidando como o que, em sociologia, se conhece como um fenômeno mundial, e este é um fato notável.

No Brasil, o primeiro grupo surgiu em 5 de setembro de 1947 e, a partir dos anos 60, tem crescido num ritmo impressionante, de tal forma que hoje existem cerca de 6.000 grupos com aproximadamente 180.000 membros em recuperação.

Fazendo uma imagem simples, podemos dizer que em 1935 eram apenas dois os membros de Alcoólicos Anônimos e que hoje são dois milhões de membros espalhados por quase todos os países do mundo.

COMO É ALCOÓLICOS ANÔNIMOS?

Ao contrário dos movimentos sociais de longa duração, que vão lentamente passando de um início freqüentemente carismático e vão se tornando burocráticos e profissionais ao longo do tempo, isso não aconteceu com a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

O A.A. não está sujeito à lei de ferro de uma oligarquia, não existindo em A.A. uma estrutura de poder e nem um código disciplinar. A Irmandade não possui bens, não ser o que é estritamente necessário para o seu funcionamento, ou seja, apenas alguns bens móveis e nenhum imóvel.

O A.A. funciona sobre uma estrutura celular segmentada, que é uma forma de organização muito eficiente adotada nas sociedades modernas, de modo que todos os grupos são autônomos e economicamente independentes. Eles crescem, morrem, proliferam, diminuem se dividem e se fundem espontaneamente, por si mesmos.

Os grupos são sustentados através de contribuições voluntárias e pela venda de literatura própria. Por outro lado, a estrutura celular não é amorfa, sendo que as células se juntam para formar uma complexa rede com a clara característica de ser uma rede social.

A estrutura celular, em grupos, facilita a tarefa de alcançar diferentes segmentos populacionais de uma sociedade e oferece uma grande variedade de grupos para o recém-chegado escolher, de modo a encontrar um que se adapte à sua personalidade, ideologia e condição social. Por outro lado, esta estrutura permite que formas mal adaptada desaparecem sem colocar a Irmandade, como um todo, em risco.

As decisões são tomadas mais por consenso do que por votação, o que tende a prevenir a divisão em frações. De outra forma, a unidade é reforçada pelo sistema de rotação daqueles que estão em serviço, no desempenho de algum encargo. Não há cargos e tão somente encargos, ou seja, apenas responsabilidades na execução de alguma determinada tarefa, mas sem poder.

Dentro da sua estrutura não-hierárquica e não-burocrática, as lideranças não se apóiam na posição que um membro tenha na estrutura formal da sociedade. O prestígio pessoal depende da sabedoria e ad experiência de vida de cada um, além do trabalho realizado com outros alcoólicos.

ORGANIZAÇÃO POLICÉFALA

O fato de não aceitar ajuda econômica externa, torna os grupos autônomos e, a partir dessa condição, eles se constituem no local primário de tomada de decisões. Por não ter que assumir posição em assuntos externos ao movimento e em questões ligadas ao cuidado com os alcoólicos, fica diminuída a necessidade de tomada de decisões. Outra característica muito importante é que o A.A. tem uma organização policéfala, não existindo uma estrutura central de tomada de decisões. Vale destacar que a estrutura policéfala evita as disfunções causadas pelo envelhecimento das lideranças, pela ossificação das estruturas e as causadas por alguma conduta inadequada.

AUTO-GESTÃO

Uma conferência é realizada anualmente nos países em que A.A. está presente e nela todos os grupos de um determinado país são representados constituindo-se essas conferências naquilo que podemos entender como sendo um aperfeiçoado e eficiente sistema de auto-gestão. No decurso das conferências, são identificadas soluções para os problemas encontrados ao longo de um ano e traçados os rumos para mais um período de igual duração, além de outras providências sendo que, desse grande encontro, resultam apenas sugestões para todos os grupos.

DESTAQUE PARA O PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO

Em princípio, Alcoólicos Anônimos não oferecem tratamento e é um movimento de ajuda mútua, não existindo uma relação profissional/paciente, não obstante existir fora de A.A. um modelo de tratamento realizado por profissionais e inspirado ou orientado para o programa de recuperação de A.A.

Um lugar de destaque fica para o Programa de Recuperação, constituído pelos Doze Passos de A.A.

Os Doze Passos são, literalmente, um programa. Não se trata de um código de conduta, mas sim de tarefas e problemas a serem resolvidos. Os três primeiros são passos de decisão e neles os alcoólicos admitem o alcoolismo e colocam a recuperação nas mãos de um Poder Superior. Os de número 4 e 9 são voltados para uma mudança da relação com a própria vida e com os outros são chamados de passos de ação e os de 10 a 12 são de continuação e manutenção.

LIVRO AZUL

A primeira literatura impressa de A.A. foi o chamado Livro Azul que apresentou os Doze Passos e é um resumo do que os primeiros membros de A.A. fizeram. Os Doze Passos são colocados como um programa sugerido de recuperação. A maioria das suas páginas é dedicada a histórias individuais de recuperação, de tal forma que o aprendizado em A.A. se torna baseado no exemplo.

O A.A. se apóia numa mistura de tradições escritas e orais de modo que possui textos básicos altamente reverenciados que se constituem num modelo para os grupos e para os seus membros, sendo que a tradição oral está associada à ênfase que se faz na experiência individual dos membros. As tradições, escritas e orais são o fruto da experiência individual e, coletivamente, dos grupos.

GRUPOS MAIS E MENOS RÍGIDOS

O A.A. não formula regras de conduta, mas, pela transmissão oral, são passados modos de comportamento e maneiras de falar que vão sendo aprendidas ao longo do tempo pelo exemplo e pela experiência diária. Resumindo, aprendem-se virtudes e sabedoria a partir da experiência, embora não existam regras de boa conduta, do que resulta uma profunda mudança comportamental ao longo do tempo. Dessa forma, há muito de cultural, e assim sendo, são criadas condições para a existência do espaço necessário para o surgimento de alguma variação no sistema de crenças que permite o aparecimento de variantes extremamente doutrinárias e de outras formas mais frouxas, abertas e liberais. Por outro lado, os recém-chegados são usualmente orientados para que visitem diferentes grupos a fim de encontrarem um que se adapte melhor ao seu modo de ser. Dentro desta mesma linha e tendo a recuperação individual como objetivo principal, o membro de A.A. continua com a possibilidade de, a qualquer momento e sempre que necessário, procurar um outro grupo que contribua melhor para a sua recuperação.

Como decorrência, fica estabelecido um processo de auto-seleção contínua e flexível que amplia a condição do A.A. como movimento de ajuda mútua e serve como uma maneira informal e autodirigida de "comparação de tratamento" que está além do alcance de qualquer programa de tratamento profissional.

Em traços muito gerais, desenhamos uma visão macro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos e agora vamos à dimensão micro do fenômeno.

Para dar ênfase às dimensões da Irmandade, adotamos uma abordagem bi-polar.

Movemo-nos da dimensão histórica, geográfica e social para o que ocorre no interior dos grupos de Alcoólicos Anônimos. Do cosmo para o átomo.
Vamos entrar na matriz, no útero, vamos para o que gera, para o local onde as coisas acontecem tendo em vista que o grupo de A.A. é a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação da Irmandade.

O PRÊMIO LASKER

Em 1951, o Prêmio Lasker foi atribuído aos Alcoólicos Anônimos. No respectivo diploma, lê-se o seguinte:

"A Associação Americana de Saúde Pública outorga o Prêmio Lasker para Grupos referentes a 1951 para Alcoólicos Anônimos, em sinal de reconhecimento pela maneira singular e grandemente vitoriosa com que vem atacando esse problema sanitário e social, velho como o tempo – o alcoolismo. Ao salientar-se o caráter de enfermidade do alcoolismo, o estigma social que acompanha tal condição está sendo eliminado. Os historiadores talvez reconheçam um dia que Alcoólicos Anônimos foi uma grande obra de desbravamento que produziu um novo instrumento de ação social: uma nova terapêutica baseada na irmandade resultante do sofrimento comum; terapêutica que encerra em si um vasto potencial para as miríades de outros males da humanidade."

(Fonte: Alcoólicos Anônimos)

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Ex-Presidente da JUNAAB

Vivência nº105
Janeiro/Fevereiro/2007