DP - Grande Verdade

GRANDE VERDADE

Jamais conseguirei transmitir a quem não bebe o que é a sensação de acordar às 4 horas da madrugada, olhar-se no espelho e ver suas feições alteradas pedindo a Deus para não beber.
 
De repente, a lembrança da garrafa escondida no banheiro. Eu mesmo as escondia em todos os locais de casa: atrás de caixas de material de limpeza, nos lugares mais absurdos... Trêmulo, encontrava uma e - em um átimo de segundo - enchia o copo e bebia com sofreguidão.
 
Com quatro filhos, a morte em um acidente não me amedrontava. Mas não agüentava mais a sorte sofrida, desesperadora, ocasionada pelo álcool... Só outro alcoólico pode entender o desespero de quem é capaz de ir até o carro, tirar um pouco de gasolina do tanque para beber porque não achou nada melhor em casa. Comecei a beber como todo garoto de 14, 15 anos: um chopinho "inofensivo" e gostoso no final da tarde. Depois, aumentei a dose - um só não bastava.

De vez em quando com um trago mais forte. Aos sábados era ótimo ficar embriagado para me sentir mais agradável, mais solto, capaz de chegar a qualquer ambiente. Aquilo foi se tornando uma necessidade: para freqüentar um ambiente eu precisava de bebida; em casa, quando chegava alguém que eu não conhecia bem, bebia para me tornar espirituoso, para impressioná-lo bem.
 
Vez ou outra um porrezinho mais pesado, mas isso não me preocupava - era tudo muito prazeroso. Lembro-me de que no início em criticava obsessivamente os amigos que pediam um aperitivo na hora do almoço. Dez anos mais tarde, já de manhã estava tomando aperitivos para "estimular" o apetite. Era ótimo.
 
Em pouco tempo já eram três ou quatro doses antes do almoço. Depois, uma cerveja ou vinho com a refeição e, por que não, um licorzinho (digestivo) depois do café. A primeira cerveja do dia era a continuação das bebidas da noite anterior. Nessa fase eu não admitia que ninguém, absolutamente ninguém, se atrevesse a fazer alguma referência ao meu hábito de beber.
 
Era a negação.
 
Quando se sente que está perdendo o controle, surge a negação. Como tantos alcoólicos, minha resistência à bebida era muito grande. Poucas pessoas assistiram a um porre meu. Um grande amigo foi um dos poucos que me diziam "pare de beber". Mas ele também bebia muito, e eu não lhe dava o direito de me aconselhar. Nem a família de um alcoólatra, nem qualquer outra pessoa que não seja portadora da doença do alcoolismo, pode entender as situações que mencionei.
 
A ajuda só pode ser de quem sente na própria pele os maus tratos do alcoolismo. Durante minha ativa costumava sentar-se num dos bancos da praça às 8 horas da manhã, já alcoolizado, e observar o resto do mundo indo para o trabalho. Torturava-me a pergunta: por que eles não precisam beber e eu preciso?
 
Hoje sei que não há resposta conclusiva nem da medicina, nem da psiquiatria, nem da psicanálise a essa pergunta. Não sei por que sou alcoólico, mas assumo que sou. Este é o Primeiro Passo de A.A. Ele encerra uma grande sabedoria. Enquanto eu tiver isso como minha grande verdade, estarei salvo.
 
E essa "grande verdade" sempre me acompanha nas reuniões de recuperação em A.A.                         
 
 (Vivência - Jan/Fev 2004)