DP - Gratidão

Um depoimento pessoal, em que a autora agradece a cada um dos Doze Passos.


Obrigada por este primeiro Passo, que me ajuda a perceber minha impotência, não só diante do álcool, como também diante de sentimentos e emoções não só meus, mas também de outras pessoas, aprendendo com isso que não posso forçar ninguém a satisfazer minhas necessidades; a ser o que quero que seja; a fazer o que quero que faça; a reagir como eu quero que reaja ou a sentir o que eu acho que deva sentir.

Ao aceitar isso, desenvolvo um nível melhor de tolerância em relação à vida. Uma percepção de meus limites e a quebra de meu orgulho.

Ao me render diante do Primeiro Passo, eu começo a aceitar também minhas limitações humanas.

E começo a perceber que não estou mais só nessa caminhada; que posso ser ajudada. É o início da esperança, dos primeiros indícios de fé. Obrigada, então, por este Segundo Passo, que me ensina a confiar em mim e em outras pessoas. E me mostra que, quando confio, surge a vontade de partilhar e, quando compartilho, sinto que faço parte, que posso ser útil. Obrigada, também, por ter me ensinado a ouvir e a perceber que a insanidade consiste em se tomar as mesmas atitudes, cultivando as mesmas maneiras de sentir e reagir, tendo ainda a pretensão de obter resultados diferentes.

Surge então o Terceiro Passo que me alivia de pesos desnecessários. Desenvolvo a fé, agora uma fé atuante e volto-me para um Poder Superior.

Com a mente mais aberta, torno-me mais receptiva, quando valores podem começar a ser questionados e papéis podem ser reavaliados.

Vejo, também, que só posso questionar e reavaliar quando volto para dentro de mim mesma, num processo de autoconhecimento.

E no Quarto Passo, tenho a oportunidade de me ver como pessoa, com todos os defeitos e qualidades inerentes ao ser humano; de perceber, claro, minhas fraquezas; de olhar com coragem minhas necessidades afetivas, emocionais e sexuais, para que ao encará-las, possa lidar com elas; de trabalhar com honestidade meus preconceitos em relação à minha doença e perceber a importância disso, porque eles são geradores de culpas, ressentimentos, vergonha, autopiedade, que terão que ser eliminados, se eu quiser permanecer sóbria e serena. Tomo consciência de que minha recuperação é minha responsabilidade.

Tendo percebido a importância de agir, parto para o Quinto Passo, porque sei também que mudanças e crescimento ocorrem quando uma pessoa se expõe com a intenção de se conhecer melhor. Compartilho com outro ser humano defeitos e qualidades, sentimentos e emoções. Neste meu instante de humildade, começo a conhecer uma sensação de alívio. Obrigada, então, por ter me ensinado a compartilhar. Sabendo-me ainda com defeitos, pois sou humana, apóio-me nos Sexto e Sétimo Passos e peço ajuda a um Poder Superior.

Principio a reformular meus valores e minha visão de vida. Meu crescimento interior se intensifica, porque sei que não devo usar meus defeitos para impedir a minha caminhada em direção ao que me propus: que não preciso de autopiedade e justificativas; que sou capaz de ir em frente; de tomar decisões; de acertar e errar; que tenho direitos inalienáveis ao ser humano de ser feliz, de ser respeitada, de ser amada e ser perdoada e é por isso que eu parto em direção ao Oitavo e Nono Passos.

Obrigada então, pelos Oitavo e Nono Passos, que me permitiram resgatar meu passado; por ter aprendido a me mostrar por inteira e sem medo das pessoas, por saber que um dos principais aspectos da desonestidade nos relacionamentos é esconder defeitos; por ter aprendido o verdadeiro significado da palavra perdão.

Obrigada, também, por ter aprendido a valorizar o meu dia e saber que o que verdadeiramente importa é o hoje e que a verdadeira insatisfação nasce da falta de aproveitamento do que tenho hoje.

Obrigada, portanto, pelo Décimo Passo, que me ensina a viver a vida com entusiasmo, e que o passado só volta quando não estou fazendo o melhor uso do meu tempo, hoje. Obrigada, então, por sentir cada dia como dádiva suprema da minha existência. E tem mais, obrigada por este Décimo Primeiro Passo, que me proporciona as condições de transcender, indo ao encontro do que é mais belo, entrando em contato com a divindade que reside em mim e nas pessoas.

Obrigada por este Décimo Segundo Passo, que deu um significado maior à minha vida, lembrando que, se mais nada eu pudesse fazer, ainda assim eu teria como missão levar a esses companheiros que ainda sofrem e que sequer sabem que é possível viver e bem, a beleza profunda dos Doze Passos.

Finalmente, graças a estes Passos, surge uma nova pessoa, com defeitos e qualidades, mais amadurecida, confiante e aberta, que procura lidar com suas dificuldades, aceitando assim sua humanidade. Obrigada. 


Vivência N° 37 – SET/OUT 1995

"Ao me render diante do Primeiro Passo, eu começo a aceitar também minhas limitações humanas"