Artigos - História do A.A. - De novo na encruzilhada. – BILL W.

Os AAs de todas as partes estão adquirindo uma compreensão mais aguda da nossa história e do significado de suas viradas decisivas. Além do mais, creio que estamos formando uma ideia acertada de nossa história; algo sem dúvida, de suma importância. A história do mundo revela que muitas sociedades e nações caíram vitimas do medo e da soberba ou de suas intenções agressivas. Por isso, perderam o sentido de seu propósito e de seu justo destino e assim se desintegraram e desapareceram. Nem o poder, nem a glória e nem a riqueza podem, em absoluto, garantir a sobrevivência. Nos primeiros vinte e cinco anos da história da A.A. há poucos indivíduos para que acreditemos que nos espera uma sorte parecida. Em nossas vidas pessoais e, por conseguinte, em nossa Irmandade, constantemente nos esforçamos em colocar de lado essas vangloriosas reivindicações de prestígio, poder e posses materiais que haviam arruinados a tantos de nós em nossos dias de bebedores. Por ter tão vivamente ante nossos olhos, estas temíveis experiências, não é de se estranhar que os Doze Passos de A.A. nos  lembrem a absoluta necessidade de desinflar o ego; que nossas Doze Tradições nos advertem com tanta insistência dos perigos do acúmulo de riqueza, da vã busca da fama e da tentação premente de nos envolvermos em controvérsias ou de nos lançarmos ao ataque. Não foram as nossas virtudes que nos deram esta sabedoria; a melhor compreensão que agora temos, têm as raízes em nossos antigos erros. No momento mais oportuno e com a graça de Deus, a cada um de nós foi concedida a possibilidade de adquirir uma compreensão cada vez mais ampla do significado e do propósito da própria vida. Já que isto tem sido a essência de nossa experiência individual e também a essência de nossa experiência como Irmandade. Temos sofr4ido suficiente para chegar á saber algo do amor de Deus e do próximo. Assim nos foi ensinado a acolher aqueles princípios e forma de atuar mediante os quais podemos sobreviver e nos desenvolver. Este é o clima espiritual no qual hoje nós AAs temos o privilégio de viver. Inclusive o fato de termos nos comportado, ás vezes de maneira volúvel desde que obtivemos a sobriedade não alterou o clima prevalecente de humildade e amor. Cremos que esta é a condição espiritual que mereceu tão sábia e providencial orientação. Dizemos isto sem nenhuma presunção; é uma patente realidade de nossa experiência. Não temos mais que refletir sobre a extensa série de decisões aparentemente acertadas que temos podido tomar nos últimos vinte e cinco anos; decisões referentes aos nossos princípios e aos métodos apropriados de comunicá-los. Nenhuma destas  significativas decisões nos deu o menor indício de ser equivocado. Até a presente data, parece que em cada  uma das novas encruzilhadas, temos optado pelo caminho certo. Não é possível que isto se deva somente ao nosso critério. Nossa Irmandade se defrontou com uma prova convincente daquele velho e sábio ditado que diz: “Nas situações extremas do homem, Deus encontra a sua oportunidade”. Já que esta tem sido a nossa experiência, podemos enfrentar com segurança e fé nossa próxima decisão. É inegável que o A.A. se encontra agora em uma nova encruzilhada. Tem a ver com a futura administração dos serviços mundiais de A.A. em seu todo. Portanto, teremos que olhar novamente parta o futuro. Nesta encruzilhada, vejo-me obrigado a tomar uma decisão crucial que é: Estou convencido de que devo retirar-me completamente da administração ativa e dos assuntos de serviço mundiais de A.A. e de que aparte que tenho desempenhado na direção destes assuntos deve ser transferida  totalmente para os custódios da Junta de Serviços Gerais de A.A.  Esta não é uma ideia nova; é simplesmente a última cena de uma obra que se vem desenvolvendo durante mais de dez anos. O Dr. Bob e eu já tínhamos em mente em 1948 quando escrevemos um artigo para o GRAPEVINE com o título, “Por que não podemos também nos unir ao A.A.?” Tínhamos ainda mais presente  quando se convocou, a título de prova, nossa Primeira Conferência de Serviços Gerais em 1951. E quando, em 1955 em Saint Louis, transferiu-se para nossa Conferência a autoridade e a responsabilidade de manter nossos serviços mundiais. Já estava claramente prevista, a minha retirada da direção ativa dos serviços. Não obstante, ainda ficou um vestígio de minha antiga situação, o qual mercê  uma explicação. Depois da transferência efetuada Saint Louis, havia algumas tarefas que ainda requeriam a minha plena atenção. Mas estas tarefas agora estão praticamente terminadas. Durante os últimos seis anos, em conjunto com os nossos custódios, me ocupei da direção destes assuntos. Sem dúvida, minha contínua participação nestas atividades contribuiu para criar na mente de muitos AAs, a impressão de que continuo sendo o líder e o símbolo da liderança mundial de A.A. Este é o último vestígio do meu  papel na direção de nossos serviços. Há excelentes motivos e, inclusive, contundentes para esta decisão. A razão fundamental apoia-se  na necessidade atual de aplicar estritamente a Segunda Tradição de A.A. a cada aspecto de nossas atividades de serviços mundiais. Isto quer dizer que devo deixar de atuar pela consciência de Grupo de A.A. na direção de novos serviços. Essa direção deve ser assumida completamente por nossos custódios conforme sejam orientados pelos delegados da Conferência. Devemos também considerar a saudável Tradição de A.A. de manter a direção rotativa. Hoje em dia, este princípio é aplicado em todas as partes ao pé da letra – exceto ao que concerne a mim. Para eliminar esta discordância devo retirar-me e ficar na retaguarda onde se encontram agora quase  todos os pioneiros. Mas isto não é tudo. Pode ser que a minha continuidade nos serviços da Sede de A.A. esteja ocultando alguns defeitos não detectados em nossa estrutura. Se os houver, devemos dar-lhes a oportunidade de manifestar-se.  Além do mais, nossos excelentes custódios e o muito competente pessoal da nossa  Sede devem ter a oportunidade de fazer seus trabalhos sem minha colaboração. Sabemos, que ao longo do tempo, uma direção com duas cabeças é muito arriscada. Minha retirada do serviço ativo remediaria esse defeito. Também a razões psicológicas da mais profunda significação. A.A. é uma família da qual os mais velhos temos sido os pais espirituais. O pai que abandona sua família antes que seus filhos tenham chegado á idade de responsabilizar-se defraudou sua confiança. Mas o pai que fica mais tempo do que convém, também pode causar-lhes grandes prejuízos. Se insíste em manter sua autoridade paterna e a custódia protetora de seus filhos, muito tempo depois de que tenham alcançado a maioridade, os está privando do inapreciável privilégio de enfrentar por si mesmo a vida. O que era muito apropriado em sua infância e adolescência não é em absoluto em sua maioridade. Assim, o pai sábio sempre modifica seu papel de acordo com as circunstâncias. Naturalmente, se lhe pedem uma ajuda nas emergências que podem surgir, sempre o faz. Mas se percebe que tem que deixar que seus filhos cometam e retifiquem os seus próprios erros, vivam suas próprias vidas e cresçam. A Segunda Tradição do programa de A.A. reconhece claramente esta  verdade universal: “Só existe uma autoridade fundamental: um Deus amoroso tal como se manifeste na consciência de nosso Grupo.” Naturalmente, não estou sugerindo uma retirada total; proponho somente mudar minha relação com o A.A. Por exemplo, espero estar disponível para assistir ás reuniões dos custódios e da Conferência. Se aparecerem alguns defeitos notáveis em nossa estrutura atual de serviços, será um grande prazer para mim ajudar a remediá-los, se me for solicitado. Em poucas palavras, espero “estar á disposição” e não voltar a ser o que dispõe - esta é precisamente a postura que o A.A. espera que todos os seus pioneiros tomem. Meu retiro para a retaguarda das atividades necessariamente acarretará outras mudanças. Salvo a possibilidade de algumas viagens ao exterior e a  minha assistência para as conferências internacionais que forem celebradas, creio que os meus dias de viajar e efetuar palestras chegaram ao fim. Do ponto de vista prático, já não acho possível aceitar ás centenas de convites que recebo agora. Além do mais, está muito claro que continuar marcando presença aumentará a minha importância em A.A. no momento em que ela deveria diminuir consideravelmente. Pode-se dizer o mesmo a respeito da minha abundante correspondência que chegou a alcançar proporções e agora não consigo responder adequadamente. Não obstante, ainda fica plenamente aberto o único e principal canal de comunicação – o de escrever artigos para a Grapevine. Sem dúvida, gostaria de continuar a fazê-lo. Por exemplo, nestes dias, estou dedicando-me a compor uma série de ensaios intitulada “Praticando estes princípios em todas as nossas atividades”. Talvez, em data futura, estes artigos possam se ampliar e converter-se em um livro, que seria uma tentativa de abordar o problema global de viver, tal como nós os AAs o vemos. Se acontecer de eu conseguir escrever esta obra, poderá ser de um valor permanente. Há outro fator que influi na minha decisão. Como todos os demais membros de A.A., tenho a clara responsabilidade de ser um cidadão do mundo ao meu redor; e de levar a este mundo a minha experiência de viver e trabalhar em nossa Irmandade. Portanto, já estou explorando certas esferas de atividades externas das quais podemos tirar contribuições proveitosas e, talvez, significantes. Pela primeira vez, sinto-me livre para seguir o construtivo exemplo adotado por incontáveis companheiros meus. Mas meu principal motivo para tomar este novo rumo, é a profunda e segura convicção de que isto,, a longo prazo, resultará ser de maior proveito para Alcoólicos Anônimos.  Resta somente dizer, que me aproximo desta nova encruzilhada com um nó na garganta e o coração cheio de gratidão por todos estes extraordinários privilégios e dádivas que por tanto tempo me foram concedidos. 

– BILL W. – Novembro de 1961.