Artigos - Histórico e programa de recuperação de A.A

HISTÓRICO E PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO DE A.A.


Num primeiro momento, vou enfocar dois fatos históricos de especial importância para a Irmandade de A.A..

O primeiro está ligado à espiritualidade.


Carl Gustaf Jung, que foi quem mais procurou casar psicologia com espiritualidade, teve um importante papel na fundação do A.A. e também para o fato de termos um programa espiritual.
No início dos anos 30 do século passado, um americano chamado Rowland, banqueiro e ex-senador, viajou para Zurique, na Suíça, para tratar do seu problema de alcoolismo com o famoso psiquiatra Jung. Rowland recaiu algumas vezes e, após um ano de terapia, não apresentou nenhum progresso. Jung comunicou ao paciente que ele estava gastando dinheiro à toa e que não poderia ajudá-lo. Rowland perguntou se havia alguma esperança, se não havia nada que ele pudesse sugerir. A resposta foi que a única coisa que poderia fazer seria procurar uma conversão, uma profunda mudança interior. Disse que ouvira relatos de pessoas que, após uma conversão religiosa, tinham parado de beber e que isso fazia sentido para ele.
Rowland passou a freqüentar um movimento religioso, muito conhecido naquela época, os Grupos Oxford. Conseguiu a desejada conversão e parou de beber. Já sóbrio, procurou um velho companheiro de bebida, chamado Ebby, que o convidou para beber e a resposta foi: eu não bebo mais. Ebby ficou estupefato e perguntou: o que você quer dizer com isso? Você é um alcoólico sem esperança como eu. Rowland relatou o que lhe havia acontecido e Ebby, seguindo o mesmo caminho, conseguiu parar de beber por um longo período de tempo.
Estando sóbrio, Ebby foi visitar um velho amigo, Bill W. e recebeu dele o mesmo convite para beber e a resposta foi: não bebo mais. Aí foi a vez de Bill ficar espantado. Ebby relatou o que havia acontecido e Bill pensou que trilhar este caminho seria uma boa idéia. Procurou tratamento e, no decurso dele, experimentou um despertar espiritual. Cerca de seis meses mais tarde iniciou a primeira reunião de A.A. em Akron, Ohio.

O segundo fato histórico está ligado à solidariedade humana, à compreensão, à troca interpessoal de riquezas interiores que ocorre no compartilhar de experiências, tão ao estilo de A.A. e, ao mesmo tempo, fundamento para a formação de uma comunidade.
Em novembro de 1934, Bill alcançou a sobriedade e, durante seis meses, falhou ao tentar ajudar outros alcoólicos. Nenhum deles desejou aquilo que Bill pensou que tinha para dar. Mas, no dia das mães de 1935, estando em Akron, Ohio, sentiu-se desesperado e teve medo de voltar a beber. Procurou então um alcoólico que pudesse entender o que sentia e foi ter com o Dr. Bob pelo que Bob, como alcoólico, podia dar a ele. Bill não procurou para dar, mas para receber e foi aí, ao receber, que conseguiu, finalmente, dar. Estava aberta a poderosa via de mão dupla.
O Dr. Bob se sensibilizou com o fato de Bill não só admitir que necessitava dele, mas também por ter agradecido pela ajuda que havia recebido, o que possibilitou se manter sóbrio. Aquele muito obrigado de Bill tocou e acalmou os sentimentos do Dr. Bob. Alguma coisa havia mudado no seu íntimo, agora ele era diferente.
Por ser um alcoólico, o Dr. Bob podia não apenas ouvir, mas também compreender e compartilhar. Experimentaram a via de mão dupla vivida em A.A., no dia a dia dos seus membros. Essa via de mão dupla é um dos elementos mais importantes na formação de uma verdadeira comunidade.
Esses foram os dois fatos históricos que considero de relevante importância para o desenvolvimento da espiritualidade e para o nascimento da comunidade de Alcoólicos Anônimos.

Num segundo momento, volto-me para o Programa de Recuperação.
Vinte anos depois de ter-se recuperado, Bill W. escreveu para Jung e relatou o papel que, involuntariamente, ele havia desempenhado na criação do A.A..
Jung, em carta datada de 30 de janeiro, de 1961, dirigida a Bill W., enfatizou a importância da experiência religiosa e das barreiras protetoras formadas pela comunidade humana e ressaltou ainda que a palavra álcool significava espírito e que era usada tanto para designar a mais alta experiência religiosa quanto o mais depravador dos venenos e colocava, finalmente, que a receita é "spiritus" contra "spiritum", ou seja, a espiritualidade contra as bebidas chamadas espirituosas e que talvez o alcoolismo fosse uma condição espiritual. Seria a espiritualidade contra a droga álcool, "Spirit against spirits". Esse pensamento conduz à visão que tenho do Programa de Recuperação de A.A..
Vejo-o como um programa de conversão espiritual, de modificação profunda do ser, um programa psicológico em que se destaca a força de mensagens curtas e breves, de aforismos e provérbios. Para progredir no Programa, o alcoólico é apoiado pela existência de um sistema de apadrinhamento, uma das formas de proteção da comunidade humana. O padrinho é uma espécie de psicoterapeuta não profissional e não pago. É também um fato considerado normal, além de ser bem aceito, que o afilhado possa superar o seu padrinho e até procurar um outro num determinado momento da sua trajetória de recuperação e nisso, o apadrinhamento é superior à terapia tradicional. Finalmente, vejo o Programa de Recuperação como um programa importante para o estabelecimento de uma verdadeira comunidade.
Quase todos os Passos do Programa de Recuperação são voltados para o autoconhecimento, para o conhecimento de si mesmo. Nos Diálogos de Platão, Sócrates diz: "Eu preciso primeiro conhecer-me, conforme a inscrição de Delfos - Conhece-te a ti mesmo".
Praticar o Programa de Recuperação é estar na busca de si mesmo pela vida inteira e o homem só começa a ter valor quando procura conhecer a si mesmo. A jornada em A.A. é a caminhada rumo ao interior, que começa já no Primeiro Passo.
Na busca da sua individualidade, da sua singularidade espiritual, o membro de A.A. encontra a resposta à grande indagação: Quem sou eu?
Enquanto fazendo o Programa de Recuperação, os alcoólicos são seres humanos voltados para a descoberta do seu mundo interior, onde vão encontrar a espiritualidade e a solução dos seus problemas íntimos e também o seu valor e a sua dignidade.

Concluindo, há cerca de 2.500 anos, havia uma integração perfeita entre ciência e religião na filosofia daquele tempo. Em 1633, Galileu, ante a Inquisição, teve que repudiar a Teoria Copernicana. A partir daí, passou a vigorar um contrato, não escrito, em que a religião seguia o seu caminho e a ciência se restringia aos fenômenos naturais. Muitas coisas boas aconteceram nos dois lados, mas o problema era que esse contrato era fragmentador. Dividia o homem e, no entanto, ele precisa ser integral, ter integridade, e hoje esse contrato não funciona mais. Atualmente, os homens procuram soluções que falem ao espírito, que os ajudem na busca da vida interior. 30 anos depois da sua morte, Jung se tornou mais atraente por oferecer um casamento perfeito entre psicologia e espiritualidade, entre religião e ciência.
Para finalizar, recorro às palavras de Scott Peck, autor do Livro Further Along The Road Less Travelled. Scott Peck é psiquiatra, com formação na Universidade de Harvard e Diretor do Milford Hospital, Mental Health Clinic, em Connecticut. Traduzi o trecho que vou citar e são essas as suas palavras: "... acredito que o evento positivo maior deste século vinte ocorreu em Akron, Ohio, em 10 de junho de 1935, quando Bill W. e o Dr. Bob juntaram-se para fazer a primeira reunião de A.A.. Não foi só o início do movimento de auto-ajuda e da integração da ciência com a espiritualidade, a nível de raízes, mas também o início do movimento de comunidade". Mais adiante, diz: "quando meus amigos do A.A. e eu nos juntamos, freqüentemente chegamos à conclusão de que, muito provavelmente, Deus deliberadamente criou a doença do alcoolismo a fim de criar alcoólicos para que eles pudessem criar o A.A. e assim alcançar o movimento de comunidade que caminha para ser a salvação não somente de alcoólicos e aditos, mas de todos nós".


Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Ex- residente da JUNAAB