DP - Homem que é homem não chora

Parece-me que o Quinto Passo é especialmente difícil para os homens, porque pega a mística masculina pelo touro, quando não pelos chifres. Um homem é supostamente auto-suficiente. Cuida dos seus próprios assuntos. Não vai a outro homem com problemas de ordem pessoal. Os sentimentos de um homem são validados por uma mulher, não por outro homem.
Para mim, que cresci nos anos cinquenta, havia apenas dois tipos de homem: os homens de verdade e os de outro tipo. Proveniente de um lar alcoólico, fui naturalmente um adolescente perturbado . Havia muitos homens mais velhos ao meu redor, que talvez pudessem ter ajudado, mas eu tinha dificuldades em me relacionar com eles. Exceto um monge passionista que encontrei quando fazia um trabalho de meio turno num mosteiro da cidade. Padre Connel era gentil e falava sem ofender, e acima de tudo escutava. Passei muitas horas andando por aqueles acres serenos e enclausurados, ao lado dele, tentando desatar o enigma da minha existência.
Minha consciência moral sensível demais me deixa sentindo-me abaixo dos ideais religiosos com os quais crescí. O Deus que nós buscávamos juntos impunha termos duros demais para mim, e isso me empurrou ainda mais fundo para o isolamento , causando uma sensação de abandono total. Mas a salvação estava a caminho, na forma do álcool e da literatura mundana.
Onde a religião me havia restringido e limitado minhas experiências , o álcool e as idéias mundanas libertaram minha mente e meu espírito. No começo, a estrada era larga e tinha muito espaço. Mas foi-se apertando até virar uma trilha, depois uma linha apenas, onde eu tinha de andar ou caía. E o meu equilíbrio não foi ficando melhor. Acabei com medo de sair do apartamento, com medo de atender ao telefone ou à porta. No final, fui para A.A. e com o tempo fiquei sóbrio.
A maioria dos homens com os quais falei em A.A. possuíam "questões masculinas", que tinha a ver com a pressão que a sociedade coloca em cima dos homens. Parece haver uma tácita tradição cultural que concede às mulheres a licença para expor sentimentos em nome da espécie. Enquanto isso, dos homens espera-se magicamente, que confirmem a masculinidade para seus filhos e uns aos outros. Uma carga terrível, ainda mais se você não tem certeza do que é ser homem.
O Quinto Passo traça e sacode esses velhos tabus até os seus fundamentos. Já por uma coisa: esse Quinto Passo pede que se fale franca e abertamente sobre sexo. Com bêbados, a maioria de nós homens mentíamos um bocado uns para os outros, e para nós mesmos, como um imperativo social. Sóbrios em A.A., muitas vezes exercemos nosso direito de ficar em silêncio. É um direito que exercitamos a nosso próprio risco - o Livro Azul diz que às vezes a nosso próprio perigo.
Houve coisa no meu Quarto Passo que jurei nunca contar a ninguém. Tinha certeza de que, se certas pessoas soubessem, me expulsariam da Irmandade. (Algumas até podem ter tido vontade de fazer isso, mas A.A. tem planos para nós que são muito mais generosos do que quaisquer que desejaríamos uns para os outros, se deixados por nossa conta.) Passei meus dois primeiros anos cuidando das necessidades alheias, porque queria evitar as minhas.
O problema com esse meu comportamento é que basicamente era desonesto. Eu queria projetar uma imagem de estar bem e de ser o certo, que era falsa, mais danosa para mim do que para as pessoas com as quais convivia. Deixar que alguém venha a conhecer você é assustador. (Mais tarde, aprendi o paradoxo de que ser vulnerável coloca você numa posição invulnerável.)
Devagar, à medida que o escapismo deixava de funcionar, fui deixando outras pessoas me conhecerem. Quando vinha uma aceitação inesperada da parte dos outros, era estupendo, como o primeiro drinque. Eu queria mais. Fui falando a meu respeito a cada vez mais pessoas, no interesse da "honestidade". Mas essa história de ir-se recuperando é um negócio cheio de curvas na estrada. Bem devagar, precisei ir aprendendo a diferença entre candura, exibicionismo e honestidade. Se estou falando a verdade por uma razão egoísta, não estou sendo honesto. Quanta dor nas relações ruins provém apenas dessa falta de objetividade!
Até a confiança pode ser uma armadilha. Pessoas que pensam em fazer o Quinto Passo provavelmente recordam-se de como usaram e abusaram da confiança dos outros. A maioria das suas experiências com confiança, especialmente para quem veio de de lares alcoólicos, foi infeliz. É aqui que a honestidade comigo mesmo funciona muito bem para mim. Se confio a certa pessoa alguma coisa a meu respeito, porque quero obter qualquer coisa dessa pessoa, então a "confiança" é apenas uma isca. E o anzol é o interesse, que é a causa de toda a minha infelicidade. A cura para essa situação é a experiência contínua com os Passos, na minha opinião.
Anos em que atravessei meus anos de crescimento, para virar adulto, deixei de aprender de colocar minha vida numa base de dar e receber. Vou ouvir seus problemas - mas não me pergunte nada sobre os meus. Ironicamente, foi por essa razão que deixei de me identificar inicialmente com o alcoólico egoísta. Sempre estava "dando". Entretanto, um exame mais profundo dos meus motivos me mostrou o que mais tarde aprendí em Al-Anon: que o cuidado é o lado ensolarado do controle.
Penso que muitos homens em A.A. existe um bocado de questões centradas ao redor de poder, controle, e de ser quem manda. Tentei ir a algumas poucas reuniões só para homens, mas o manto defensivo e de pose, que pairava sobre esses augustos encontros, era de gelar os ossos. Senti-me como que participando de um ritual.
Graças a Deus, uma das grandes mudanças em A.A., desde aqueles tempos, é que os homens têm liberdade para se expressarem como homens e como seres humanos, em qualquer reunião de A.A. Nessa arena, de fato atingimos a maioridade.
Ir melhorando significa ir compartilhando minhas esperanças e medos com outros homens. Quando eles compartilhavam também, como sempre fizeram, eu experimentava uma cura de lembranças, memórias, e uma sensação maravilhosa de unicidade com as pessoas em geral. Meu relacionamento com as mulheres melhorou imediatamente. Passei pelo terror de remover minha armadura masculina, e experimentar a alegria de não precisar de uma. Cada homem com quem me encontrei dessa maneira desarmada, me deixou com um pouco mais de mim mesmo para trazer ao mundo todo.

(Vivência - Março/Abril 2002)