DP - Homossexual e Alcoólica (As Minorias em A.A.)

Homossexual e Alcoólica (As Minorias em A.A.)


-Foi preciso aceitar ambas as condições para entrar em recuperação.
 
 

Sou uma alcoólica em recuperação só por hoje, e sou homossexual. O motivo que me leva a escrever sobre minhas experiências é acreditar que estou ajudando a mim mesma e poderei estar ajudando mais pessoas como eu.
 

Em 1978, vim para São Paulo com um pensamento na cabeça: queria mudar a minha vida. Eu já bebia, mas ainda pouco. Minha mãe tinha falecido e isso foi muito para eu suportar, a dor era muito grande e eu queria ter morrido junto com ela. Havia também uma moça pela qual eu estava apaixonada. Vindo para cá, eu acreditava que esqueceria tudo isso e seria outra pessoa.


 Não foi o que aconteceu, minha vida tomou outro rumo. Joguei-me na bebida a pretexto de fugir da solidão e de mim mesma. Eu não tinha coragem de assumir que era homossexual. Já tinha percebido que o modo como eu bebia era diferente e que só parava quando estava bêbada. Eu era muito tímida e a bebida "me dava coragem".


 Com o passar dos anos, bebendo sempre mais e misturando os meus sentimentos, comecei a gostar de uma patroa que tive. Ela era muito boa comigo e isso me fazia sofrer, pois ela me tratava como uma filha. Eu saía de casa e ia beber nos bares. Saí com o primeiro homem, já que não conseguia me aproximar de uma mulher. Eu me violentei muito e tinha muita bronca de mim mesma, pois tudo que eu tentara fazer não dera certo. Mentir passou a ser a minha verdade e chegou um tempo em que eu mesma já não sabia o que era verdade e o que não era. Sentia-me infeliz e a autopiedade tomou conta de mim. Assim foi durante vinte anos.


 Quando cheguei em A.A., não tinha convicções, só acreditava no álcool! Queria "ver" Deus para acreditar na Sua existência e por isso as coisas não deram certo para mim - faltou fé. Eu só tinha um pensamento, a morte, sempre achava que iria morrer a qualquer momento e que era só uma questão de horas. Hoje, vejo que mudei. Acredito em mim e principalmente, em Deus, como O entendo.

 
Ao ingressar em A.A., eu não tinha em mente falar sobre a minha vida íntima, pois já tinha sofrido muita discriminação e achei suficiente admitir meu problema com a bebida. Com o passar dos dias, percebi que me enganei, que estava mentindo e dando voltas para comentar um relacionamento homossexual. Apesar de ser alcoólica como todos no grupo, eu me sentia diferente por causa da minha condição sexual. Como conseqüência, sofri uma recaída.


Então vi que não poderia continuar mentindo. Eu precisava dizer a verdade, para o meu próprio bem. Comecei a freqüentar reuniões de propósito especial feminino, com a intenção de falar sobre a minha situação, mas a dificuldaee continuou grande, pois não se falava muito em sexualidade e eu sentia preconceito nas outras pessoas quando se falava de homossexualismo.


Um dia, participando de um Ciclo de Tradições, ouvi comentários preconceituosos de alguns companheiros sobre a homossexualidade e surgiu em mim a vontade de estar numa reunião de companheiros(as) homossexuais...

 
E, há pouco tempo, essa idéia se tornou realidade. Conversando, um grupo de homens e mulheres que têm em comum ambas as condições e, portanto, passam pelas mesmas dificuldades, resolveu iniciar uma Reunião de Propósitos Especiais para Homossexuais e simpatizantes, que têm acontecido aos sábados à tarde, no ESL/SP. Agora não estou mais fazendo a minha recuperação pela metade, mas sim por inteiro, e ajudando outros(as) que gostariam de participar conosco. Seria muito bom contarmos com mais companheiros(as) para fortalecermos essa iniciativa, a fim de que ela tenha continuidade.Falo da importância dessa reunião porque ela está sendo muito boa para mim.
 

Hoje, sem beber há algumas 24 horas, estou tentando trabalhar meus defeitos e viver bem. Sinto-me bem resolvida em relação à minha homossexualidade e ao meu alcoolismo. Eu me encontrei e sou feliz, só por hoje, graças a um Poder Superior. Estou no Serviço da Irmandade e gosto muito de participar dos Três Legados de A.A., pois assim minha recuperação é completa. 


Vivência 70 - Mar/Abr 2001