DP - Iguais ? Só perante o álcool !

Iguais ? Só perante o álcool !

Antes de mais nada, é preciso entender que existem muitas diferenças entre o homem e a mulher alcoólica. Elas vão desde as emocionais até o acúmulo de funções... Somos todos iguais perante a doença, isto é fato, mas vamos analisar a frase e notar que é "perante a doença"... Só perante a doença... Isso também é fato! 
   No alcoolismo existe maior preconceito com as mulheres. Um homem caindo de bêbado é feio, mas uma mulher é horrível! Estes são os comentários. Vivemos numa sociedade machista, por mais que se negue a história é antiga, vem das cavernas.
   Na vida social a mulher tinha o menor salário e as piores oportunidades, e sua jornada de trabalho acumulada. Hoje as coisas estão mudando, olhando as estatísticas, o número de mulheres estudando é maior, as oportunidades no mercado de trabalho estão se abrindo. Em todas as reportagens sobre alcoolismo, estatísticas mostram que o número de mulheres alcoólicas aumentou muito. Isso devido à mulher haver conquistado maior espaço na sociedade. 
   Porém, se observarmos as salas de A.A. o número ainda é pequeno em relação aos homens. Muitas mulheres mantêm seus alcoolismos "escondidos", bebem em casa e por muitos anos, conseguem manter essa situação "sob controle" perante a família; que só descobre quando a situação vem à tona.             
   
   Quando cheguei numa sala de A.A não havia na sala nenhuma companheira, estava lotada de homens, e eu me choquei! Sentei-me perto da porta, pois pensei: qualquer coisa saio correndo! Mas tive sorte; fui muito bem abordada e fiquei. Os anos foram se passando e algumas companheiras chegando, mas poucas ficando... Fui analisando porque isso acontecia e percebi algumas coisas. No início da minha recuperação, sem família (pais mortos, separada) com uma filha de um ano, não sabia como estar presente às reuniões, mas os companheiros permitiram que ela ainda bebê ficasse na sala e eu partilhava muitas vezes com ela dormindo em meus braços. O tempo foi passando e ela cresceu. Muitas vezes alguns companheiros ficavam com ela na porta do grupo, na salinha ao lado, para que eu pudesse assistir as reuniões. Tive o apoio deles para que eu pudesse ficar em A.A. 
   
   Mas, quando ela cresceu um pouco mais, começaram os problemas: Ela estudava de manhã e dormia cedo, com a idade de 6, 7, 8, 9, anos, tinha lições de casa, eu trabalhava o dia todo e à noite ela não poderia ficar sozinha em casa para eu ir à uma sala de A.A. Eu ia muitas vezes, mas antes precisava dar a janta a ela e sair correndo, e voltar no meio da reunião, para não deixar uma criança sozinha em casa... Quantas vezes chegava em casa lá pelas 21.30 h. e ela dormia no chão da sala, me esperando. Aquilo partia meu coração. Eu estava na sala, mas com meus pensamentos em casa, preocupado com minha filha. Não tinha quem a olhasse para mim. Percebo que as companheiras casadas têm suas obrigações em casa, com o marido e filhos, é diferente dos companheiros que têm uma esposa que faz tudo em casa e quando eles chegam tudo está no seu devido lugar. 
   
A mulher em A.A. tem de ser super mulher, tem de trabalhar fora, ou em casa, cuidar do marido, filhos, administrar o lar e ir a uma sala de A.A. Administrar isso é bastante complicado. Por isso percebo a baixa freqüência das mulheres em sala de A.A. As que freqüentam regularmente são pessoas como eu, que tem o privilégio hoje de ter filhos maiores, descasados, ou que não trabalham, pois estes acúmulos de obrigações acabam por prejudicar até mesmo sua recuperação. È preciso saber administrar muito bem o tempo, ter grande colaboração dos companheiros (as), conseguir estar em recuperação. Por isso, hoje, que minha filha está com 16 anos e tenho maior flexibilidade de horários, procuro esta constantemente na sala, para poder receber a companheira que está chegando e ser solidária. Minha filha, que praticamente nasceu dentro de A.A. me auxilia muito, praticamente conhece tudo de A.A. e faz parte muitas vezes nas minhas abordagens,participa e até auxilia minhas afilhadas. Ajuda em todos os sentidos. Ela sabe o bem que A.A. fez à nossa vida e sabe que se temos hoje dignidade, respeito, paz, serenidade, devemos tudo isso a A.A. 

Por isso, é preciso receber muito bem a companheira que está chegando, com todo respeito, apoio, carinho e compreensão, pois elas precisam tanto quanto nós! 

Vivência 110 Nov./Dez. 2007