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Iniciando a escalada

Tenho feito do Terceiro e do Décimo Primeiro Passos a bússola capaz de indicar, sem distorções. o zênite do melhor contato com o Poder Superior.

Após transitar por tormentosa experiência, resolvi passar minha vida a limpo.
Iniciei severa revisão do Quarto Passo. Não poupei detalhes. Adotei por norma capital evitar qualquer referência a terceiros, mesmo aos envolvidos nos fatos sob exame, pois sei que não devo julgar senão a mim mesmo.

Assim, ative-me tão somente à minha própria conduta.

Percebi que o inventário anteriormente feito, logo no início da minha chegada a Alcoólicos Anônimos, muito deixou a desejar, notadamente quanto a determinado aspecto, de modo que dele fiz o foco dessas últimas investigações íntimas. Pude, então, perceber onde e porque houvera errado. Graças a Deus, nada verifiquei de tão grave a ponto de situar-se no terreno do absurdo.

Se não me preocupei em inventariar as pessoas envolvidas, também não me constituí em meu próprio carrasco, por entender ser mais valioso reparar o dano do que estagiar no sentimento de culpa.

Desse novo inventário resultou a necessidade de corrigir alguns pontos falhos no meu proceder. De imediato, aceitei a idéia de reformulação e comecei a planejar essa minha nova etapa de existência.

Volvi os olhos ao passado, concentrando-me no fim da adolescência, pois foi esse um grande período da minha vida. Ainda não começara a beber e havia desenvolvido valores morais, mais tarde distorcidos, paulatina e progressivamente, quando da fase ativa do alcoolismo.

Nessa época eu cultivava valores tais que, não fossem sufocados pelo comportamento alcoólico, certamente me conduziriam a um invejável padrão de comportamento.

Como primeira providência, retornei ao culto da religião, há muito abandonada por conta da militância alcoólica. Venho dedicando bastante tempo à leitura de textos e freqüência a palestras direcionadas ao autoconhecimento.

Essa atividade revelou-me algo de suma importância todos os temas abordados pelos escritores e palestrantes dos quais me tenho valido encontram-se igualmente contidos nos Doze Passos e nas Doze Tradições.

Desde os primeiros tempos em A.A., percebi, ainda que de vislumbre, serem os princípios basilares da nossa querida irmandade autêntico relicário de valores espirituais.

Atualmente, essa percepção vem se ampliando significativamente, na medida em que prossigo na maratona aqui referida. Agora, não apenas vislumbro. Sei, de experiência própria, o exato significado do despertar espiritual.

Eu contava com cerca de três anos de freqüência às reuniões de recuperação quando ouvi o depoimento de um companheiro, àquela altura beirando quinze anos de abstinência.

Ele afirmou enfaticamente que apenas a partir de dez anos de sobriedade seria possível ao alcoólico iniciar-se no entendimento da substância espiritual dos Doze Passos.

Naquela ocasião, achei que ele pretendia menosprezar os companheiros com menos tempo na prática do programa.

Atualmente, endosso suas palavras. Não o faço de modo a estabelecer determinado período temporal para o desabrochar da verdadeira sobriedade.

Todavia, atesto que as primeiras vivências realmente espirituais, à luz do programa de recuperação oferecido por Alcoólicos Anônimos, somente acontecerão com o apaziguamento das emoções, a ponto de propiciar a busca do verdadeiro sentido da vida e isso leva tempo.

Eu gastei quinze anos para atingir esse patamar.

Agora sei o que buscar nesta existência e tenho feito do Terceiro e do Décimo Primeiro Passos a bússola capaz de indicar, sem distorções, o zênite do melhor contato com o Poder Superior.

Também sei da importância de colocar minha vida aos Seus cuidados e escutar, no silêncio da consciência, a Sua vontade com relação à minha vida.

Assim perseverando, poderei desfrutar, proporcionalmente ao mérito das minhas ações, alento cada vez maior para prosseguir na marcha evolutiva, rumo à serenidade, bem de maior significação, porquanto pré-requisito para todas as outras conquistas, dentre elas a paz.

A intenção deste escrito é o de testemunhar a excelência dos princípios de A.A., tantas vezes relegados à indiferença por muitos dos nossos companheiros.

Espero contribuir, através da experiência relatada, com aqueles que sinceramente desejam alcançar melhor qualidade de vida, iniciando a escalada para a serenidade.


VIVÊNCIA N° 95 Mai / Jun.2005