DP - Insanidade?

"Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós poderia restaurar-nos à sanidade". Esse Passo foi extremamente fácil para mim, da primeira vez. Eu simplesmente falei: "Acredito que Deus pode restaurar-me para a sanidade." Foi isso, sem fanfarras, gritos ou trombetas.

Como eu era ignorante do Segundo Passo! Não tinha nenhum sentimento interno de aceitação e nenhuma crença verdadeira de qualquer espécie. E quem havia dito que eu era louco, para começar? Tudo o que admiti foi que era impotente diante do álcool, e que minha vida se havia tornado ingovernável, e não estava totalmente convencido disso. Minha impotência diante do álcool foi uma declaração que fui forçado a fazer, não uma na qual de fato acreditasse. Por outro lado, uma curta revisão da minha vida - a perda da minha licença de médico e dos meus bens terrenos, incluindo a casa e os carros - me convenceu de que minha vida era ingovernável. Mas era assim por eu ser impotente diante do álcool? E de onde haviam tirado esse negócio de insanidade.

Meu padrinho valeu seu peso em ouro para mim. Sean mostrou-me que havia algumas pequenas falhas no meu raciocínio, como estar negando a realidade da minha situação, e estar projetando as causas dos meus problemas para cima de outras pessoas, ao invés de admitir que a fonte deles era eu. Apontou que esses eram os mecanismos dos mentalmente doentes, e sugeriu que talvez por isso eu os tivesse usando. Sean também falou que se me fosse difícil demais admitir que era impotente diante do álcool, poderia fazer de conta que era impotente diante das minhas emoções, e que por isso bebia.

Sim, agora estávamos chegando em algum lugar. Podia admitir ser impotente diante das minhas emoções, sem ter um ataque de vergonha. Por isso me permitia dizer que minhas emoções eram a causa do meu beber; portanto, eu não era impotente diante do álcool, ou insano. Bastava um pouco mais de autocontrole sobre meus pensamentos.

Danado desse meu padrinho, só depois de alguns meses é que fui ver que quando eu dizia que bebia porque era impotente diante das minhas emoções, na verdade estava dizendo que era impotente diante do álcool. Comecei finalmente a acreditar nisso.

Sean destacou que a racionalização era também uma parte proeminente da minha personalidade, e como diz o Livro Azul: "Racionalizar é dar razões socialmente aceitáveis para um comportamento socialmente inaceitável é uma forma de insanidade." Agora Sean conseguira me encurralar. Admiti que minha vida estava ingovernável e que eu provavelmente era impotente diante do álcool. Porém, ainda precisei de muitos meses para realmente acreditar nessa última parte.

Eu passava pelo Segundo Passo num pé de vento. Declamava-o em voz alta, e era tudo. Mas de certa maneira me parecia que estava me safando de alguma coisa. Por que meu padrinho pudera brigar tanto pelo Primeiro Passo e agora simplesmente deixava que o Segundo Passo passasse batido? A ignorância é uma bem-aventurança, e eu andava precisando de alguma felicidade.

O que hoje suspeito é que Sean não criou um caso porque queria evitar altercações sobre Deus ou um Poder Superior. O Terceiro Passo já iria ser suficientemente duro, sem necessidade de entrar numa luta livre a respeito do Segundo. Tive imensas dificuldades para aceitar um Poder Superior. Na minha mente, confundí Deus e/ou um Poder Superior com religião. Eu não podia aceitar que dentre todas as religiões do mundo, apenas uma estivesse certa e as outras erradas. Também pensava que se não acreditasse num Deus, não poderia ser uma pessoa má que transgredia as regras de Deus. (Naquela época, não sabia que eu não estava sendo mau, apenas doente.)

Logo que entrei para A.A., estava num estado emocional deplorável. Havia feito uso de álcool e de substâncias químicas alteradoras do humor, na tentativa de sobreviver ao modo horroroso como a minha vida ia indo. Agora, ao me dizerem que não podia mais beber nem me drogar, achei que a vida não valia mais a pena. Como poderia suportar as agonias que teria de agüentar?

Nas reuniões de A.A, ví que as pessoas sóbrias pareciam estar calmas e felizes. Não sabia o que estavam tomando, mas obviamente fazia efeito. Eu queria um pouco disso, e se freqüentar as reuniões era o necessário para a gente se sentir melhor, então era isso o que eu faria. Do jeito que eu tinha feito, não funcionava mais. Estava disposto a tentar o jeito deles.

Fui a cem reuniões em noventa dias. Minha vida centrou-se nelas. Escutava, lia o Livro Azul, falava com meu padrinho e com muitas outras pessoas sobre o que elas achavam que estava sendo de ajuda para elas. Descobri a serenidade nessas reuniões, e comecei a sentir momentos de paz e calma. Alguma coisa estava acontecendo. Algumas das promessas pareciam estar virando verdade. Cada dia viajava vários quilômetros até meu local de emprego. Certa manhã, enquanto ruminava sobre as iniqüidades da vida, finalmente disse a mim mesmo: "Tá bom, vou tentar. Deus, pode pegar minhas preocupações. Não consigo lidar com elas. Sou apenas humano e não sou perfeito. Você, por outro lado, não é humano e pode tolerar esse estresse. Pode tratar da minha vida. Deixo a seu encargo os resultados e os "sês".

Imediatamente, senti paz e serenidade me inundando. Fiquei emocionado e vibrei com os resultados. Falei para mim: "É mesmo fácil fazer o Terceiro Passo. Simplesmente digo ao meu Poder Superior que assuma o controle, porque não dou mais conta."

Apesar de tornar a coisa bem difícil, o conceito era simples. Alcançara a serenidade ao entregar minha vida e minha vontade aos cuidado do meu Poder Superior. Havia dado início à minha caminhada rumo à sobriedade, que defini como sendo o estado de não estar bêbado - em outras palavras, um estado de equilíbrio mental e emocional.

Levou mais três anos de trabalho no meu Programa, para que me desse conta de que minha aceitação de um Poder Superior havia sido a coisa mais importante na restauração da minha sanidade. Foi a única coisa que me permitiu não permanecer no que poderia ter sido, mas sim viver minha vida neste minuto. Não imaginar catástrofes, mas sim apreciar a vida sem medo. A aceitação de Deus devolveu-me à sanidade.

(Vivência - Março/Abril 2002)