DP - Inventário

"Senti medo. Um inventário seria uma forma de me ver, de me conhecer e de me confrontar com as minhas realidades. Iria fazer descobertas desagradáveis e isso implicaria em mudanças; e mudança requer coragem."

Meu estado físico e mental não permitiu que eu fosse àquela primeira reunião desacompanhado. A pessoa que me abordou e que viria a ser meu padrinho foi buscar-me no hospital. Confuso e extremamente sedado, chego a Alcoólicos Anônimos derrotado. Sentia-me num terrível "fundo de poço", onde julgava não existir qualquer saída.
                                                                                                                             
Até hoje não consigo me lembrar do que aconteceu naquela reunião, a não ser do final, quando foram lidas doze perguntas que tiveram que ser  repetidas para que eu as entendesse. Os dias seguintes foram difíceis, não tinha capacidade de concentração, assimilando com dificuldades o que lia, via e ouvia. Ia diariamente ao Grupo e, nos depoimentos dos companheiros e nas conversas após a reunião, ouvia alguns lemas aos quais inicialmente me agarrei: "Evite o primeiro gole", "Primeiro as coisas primeiras", "Vá com calma", entre outros, foram vitais naqueles primeiros dias.

Depois, readquirida alguma lucidez, deparei-me com os Doze Passos. Aprendi que não era só parar de beber pois já havia feito isso inúmeras vezes, mas que era preciso permanecer e viver sóbrio e, para isso, existia um Programa. Os três primeiros Passos mostraram-me que, na verdade, eu não gerenciava coisa alguma, que tinha sido incapaz de gerir minha própria vida, que havia sido derrotado e que precisava de ajuda. Aí chega o Quarto Passo, o "minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos".

Na minha vida profissional fiz muitos inventários. Sendo bancário, fazia parte da rotina esse tipo de levantamento a cada semestre. Essas relações minuciosas e rigorosas permitiam conhecer, periodicamente, a situação da empresa. Nem sempre esse conhecimento era gratificante, pois revelava situações que não haviam sido previstas e isso implicava em mudanças às vezes desagradáveis.

Senti medo. Um inventário seria uma forma de me ver, de me conhecer e de me confrontar com as minhas realidades. Iria fazer descobertas  desagradáveis e isso implicaria em mudanças; e mudanças requer coragem. Precisava ser minucioso, por isso teria de ser escrito para poder ser revisto posteriormente. Teria de ser honesto e equilibrado para não ser benevolente, achando que pouco ou nada precisava ser mudado; ou radical, achando que   precisava mudar tudo.

Assumi a tarefa com alguma relutância, relacionando o que era positivo e negativo em duas colunas, com uma linha vertical separando-as. Começaram a aparecer os defeitos e as qualidades, só que os primeiros superaram por larga margem de itens. Às vezes, uma aparente qualidade,  
após uma reflexão minuciosa, passava para a coluna dos defeitos, ampliando ainda mais a lista. Levei dias para concluir o "balanço" da minha própria vida. 
 
Houve momentos de desânimo, eram tantas as coisas a serem trabalhadas... Nunca havia feito um mapeamento do meu próprio eu e, agora, estava diante de um quadro desanimador. Nessa relação me vi orgulhoso, prepotente, perfeccionista (com relação aos outros), egoísta, intolerante, ressentido, negligente, cheio de culpas e medos, ainda justificando, negando, sendo desonesto, invejoso, impaciente, mentiroso e procrastinador. Mas existiam aspectos positivos a considerar e, o mais importante deles, no momento, era a vontade de mudar. Para isso, estabeleci prioridades e metas e fiz um plano de vida. Minhas ferramentas seriam os Passos.

Foi fácil esse começo? Não! Atingi as metas propostas? Apenas algumas! Está sendo fácil hoje esse trabalho? Ainda não! O Quarto Passo, porém,  deu-me a liberdade de me conhecer, de poder fazer um trabalho comigo mesmo em busca do crescimento espiritual.
 
O conhecimento das minha qualidades, defeitos e limitações torna mais fácil o caminho da recuperação. A caminhada continua com avanços e recuos. O inventário depois de iniciado não tem fim, é um trabalho para toda a vida. O Décimo Passo me lembra que ele deve ser atualizado e revisado sempre, a cada novo dia e esse auto-conhecimento se amplia, levando-me a um comprometimento cada vez maior comigo mesmo, com Deus e com os meus companheiros de caminhada.

O inventário pessoal é um exercício diário de honestidade para comigo. Assim, me é possível ser honesto com os outros. É através do inventário que eu me coloco no meu devido lugar. Conhecendo-me, liberto-me da raiva de mim mesmo e entendo que as minhas imperfeições são falhas humanas que podem ser trabalhadas e que as minhas qualidades devem ser cultivadas, ampliadas e compartilhadas. Às vezes "pinta" o desânimo e uma sensação de apatia se instala. Quando isso acontece, é fácil perceber através do inventário que é preciso aceitar o momento atual como ele se apresenta, que é preciso me aceitar como sou e aos outros como eles são, porque aceitar é um ato de libertação e ser realista no meu inventário é um ato de humildade.

E esse plano de vida que o auto-conhecimento me propõe independe de quaisquer circunstâncias, se eu mantiver sempre a mente aberta, se tiver boa vontade e rigorosa honestidade comigo próprio na prática diária do Programa de Recuperação de Alcoólicos Anônimos.

(Vivência nº 41 Mai/Jun. 96)