Artigos - Jogo da Vida

Ouvi, certa ocasião, a seguinte expressão: "morre o cavalo para alimentar o urubu". 
Em sua essência, o que quer dizer esta frase? Acredito se tratar de uma crítica à vida natural, isto é, morre o cavalo, um animal de tamanha utilidade ao homem, para dar de comer ao urubu, ave de rapina das mais repugnantes, que muita gente acha não ter qualquer serventia. 
Mas o que fazer? A vida é assim mesmo: "alegria de uns, choro de outros". Se não, vejamos o que ocorre com as cobaias que são sacrificadas em laboratórios: suas vidas são ceifadas para beneficiar ou manter vivos outros seres. 
A história sempre se repete: "quando um ganha, outro perde". Não é assim que se dá com os jogadores? É o jogo da vida, "o que dá para rir, dá pra chorar". Isso em parte explica as recaídas no A.A. 
Pergunto eu: existiria o A.A. se ninguém recaisse? Sei que tudo isso é melodramático, mas infelizmente a verdade deve ser dita: no A.A. tem que haver recaídas. Que valor teria a primavera se não existisse o inverno? 
Nessas circunstâncias, devemos rogar a um Poder Superior que o A.A. permaneça existindo com um mínimo de recaídas. 
Mas parece, para o conforto dos companheiros que levam a sério o programa de A.A., que os escolhidos para recair têm sido quase sempre aqueles que querem apenas receber e nada dar em troca da sobriedade, ou os que ficam "em cima do muro" sem saber se assumem ou não a sua condição de alcoólicos, e ainda aqueles que não procuram desenvolver um programa espiritual de reformulação de caráter e que apenas tapam a boca da garrafa. 
A recaída é o castigo dos egoístas, dos auto-suficientes, dos arrogantes, dos incrédulos que não querem curvar-se aos princípios de recuperação da Irmandade, que os recebeu tão carinhosamente e que foram confiantes no seu sucesso.
Em razão disso, sem saberem, passam a ser experiências vivas para a recuperação de outros, que humildemente aceitam as sugestões dos "Doze Passos" e procuram praticá-los dentro da medida do possível. São os que tentam modificar suas vidas, certos de que no A.A. "jamais fracassará aquele que cuidadosamente seguir o seu caminho (Livro Azul - V capítulo)". 
Quando alguém souber de algum companheiros que recaiu, é bom lembrar da consagrada sabedoria popular: "aquele que vê a barba do vizinho pegando fogo, é bom por a sua de molho". 
Assim, trate de reforçar a sua guarda, policie-se melhor e lembre-se do que o álcool é capaz de fazer com você. Não vale a pena servir, desse jeito, de nutriente para os que ficam "de pé" no A.A. 
Você os pode ajudar também, muito mais com sua sobriedade do que com sua recaída. Além de estar fazendo um bem enorme para si mesmo.

(Vivência nº 34)