DP - Juventude em A.A.

Uma companheira compartilha sua trajetória em A.A., iniciada como jovem alcoólica que descobriu o nosso modo de vida e se tornou cada vez mais... jovem!
O grupo em que ingressei em Alcoólicos Anônimos, nos idos de 1993, contava   com a frequência, só nos finais de semana, de três senhoras alcoólicas – assim eu as via, com meus 32 anos de idade e recém casada. Durante a semana (tínhamos reuniões diárias, como até hoje), eu era a única presença feminina na sala. Podem adivinhar o que aconteceu? Não deu outra, fui logo apadrinhada para a secretaria do grupo, “vaga” e que assumi aos seis meses de sobriedade!

Cheguei desempregada, fumando 50 cigarros por dia, afastada da família de origem,
 
tentando começar um casamento para mudar de vida e deixar para trás as insanidades e angústias que me escravizaram desde a mais tenra idade, para as quais o único e falso alívio vinha sendo o álcool. Logo descobri que, no meu caso, para deixar de sofrer eu teria que deixar de beber.

Isto não me foi difícil, pois graças ao apadrinhamento respeitoso e atraente dos velhos mentores do meu grupo base – e das queridas companheiras que me acarinhavam nos finais de semana, creio que tive o privilégio de “evitar quinze ou vinte anos de puro inferno”. Acredito que cheguei antes das piores complicações, quase não sofri sintomas de abstinência ou compulsão e abracei de corpo e alma a oportunidade de viver de verdade, por mais difícil que me tenha sido, no começo, simplesmente viver.

Descobri que eu ainda era jovem, embora não tão jovem assim. Nada tinha construído além das ruínas de mim mesma e dos poucos vínculos que, como fiapos apodrecidos, pendiam de mim. Naqueles primeiros tempos de A.A., viver era olhar essas ruínas, ainda sem a menor noção do que fazer a partir dali. Mas A.A. logo nos ensina que a fraqueza é força. Que debaixo de toda ruína escondem-se seguramente alguns tesouros. Só o que precisamos fazer é acreditar que estão lá e trabalhar, hoje, para encontrá-los e desfrutar do que eles podem nos oferecer.

Assim, de hoje em hoje, o primeiro tesouro que encontrei foi meu próprio alcoolismo, diamante bruto que tem servido para me revelar a mim mesma e, talvez, ajudar outros alcoólicos a perceberem sua doença e abraçarem o modo de vida que abracei (e que me permitiu também parar de fumar, um mês depois de ficar abstêmia do álcool).

Este modo de vida foi o segundo tesouro que encontrei: os nossos legados de recuperação, unidade e serviço, princípios pelos quais, lenta e sutilmente, saí do meu isolamento físico, mental e espiritual, e desenvolvi novos hábitos físicos, mentais e espirituais: alimentares, higiênicos, sociais, familiares, profissionais, voluntários, livres, conscientes, responsáveis, solidários, incondicionais.

De fato, os Passos, Tradições e Conceitos de A.A., as sugestões práticas para “Viver Sóbrio”, as Promessas, os Princípios de Ouro, as Reflexões Diárias, a história fascinante do surgimento e desenvolvimento de Alcoólicos Anônimos e tudo mais que está generosamente detalhado e compartilhado na extensa literatura oficial da nossa Irmandade, é para mim o mais rico tesouro do universo. Se eu puder sugerir algo a um membro de A.A., sugiro que não deixe de apreciar as pedras preciosas que estão brilhando dentro de cada um dos nossos livros, livretes e folhetos.

Através deles, das reuniões e demais atividades do grupo e da Irmandade, com muita ajuda dos companheiros e companheiras (hoje nosso grupo base tem dezenas de pessoas, de todas as idades, credos, classes, etnias e estilos),  feito um bebê que engatinha, tenta manter-se em pé sobre suas pernas, andar e depois correr para a vida, nestes anos de recuperação eu errei a mão, caí, me feri, feri a outros, chorei, senti medo, raiva e vergonha, recebi cuidados nos arranhões, cortes, hematomas e fraturas; aprendi a cultivar a aceitação, a honestidade, o autoconhecimento, a simplicidade, a obediência, o não julgamento, o perdão de mim e dos outros; descobri a obrigação de me tornar a melhor pessoa que pudesse ser e a obrigação de reparar, criar e cultivar as melhores relações que eu pudesse manter com quaisquer pessoas que tivessem cruzado ou viessem a cruzar meu caminho a cada dia. Aprendi a ter olhos para ver, ouvidos para ouvir e um coração cheio de sensibilidades e emoções para sentir, celebrar, meditar, orar e agradecer.

Assim, o terceiro tesouro que encontrei foi a vida (em abundância), atravessada por um Poder Superior que está em tudo e em todos: no ar que entra pelos meus pulmões e em cada célula do meu corpo, nos elementos da natureza, nos fenôme- nos da sociedade e na passagem das ge- rações. Vida da qual sou um dos infini- tos e temporários elos, e que me brinda com novas possibilidades de acertar a cada dia em que acordo – viva, sóbria e membro dessa fraternidade mundial de homens e mulheres.

Isto é o que A.A. fez por mim: muito mais do que me resgatar da morte e da loucu- ra, deu-me uma vida de gente, de criatura humana com uma centelha misteriosa e maravilhosamente divina, a fazer parte desse mundo, um dia de cada vez.

E eu, o que fiz e faço por A.A.? Por mais que faça, apenas aumentarei minha dívida, pois cada palha que movo em A.A. traz  mais  uma  medida  de  felicidade.
A.A.  é  uma  galinha  de  ovos  de  ouro:

quanto mais trabalhamos para alcançar alcoólicos que ainda sofrem, mais a nossa própria vida se enche de amor, senti- do e utilidade: no grupo, na estrutura de serviços de A.A., em casa, no trabalho, na rua, na vizinhança, na academia, na igreja, num curso em todas as nossas atividades e relacionamentos.

Por fim, A.A. é também, para mim, o elixir da eterna juventude! Hoje já tenho muitos cabelos brancos, um bocado de rugas, perdas de pessoas queridas e outros sinais da passagem do meu tempo. Mas estes sinais de maior proximidade da minha finitude pessoal não são mais barreiras entre eu mesma e quaisquer outras pessoas, e nem fontes de tristeza. Só por hoje, minha vida está povoada de crianças, jovens, adultos e anciãos, alcoólicos (as) e não alcoólicos(as), cada um dos quais com muitos outros sinais (sexuais,  econômicos,  culturais,  políticos e tantos outros) que só me enriquecem ainda mais, pois hoje me sinto capaz de tentar incorporar, ao meu modo de ser, o que de melhor encontro neles e nelas. Assim, cada dia “a mais” de vida me faz sentir sempre mais renovada. Em A.A. a juventude, além de uma faixa etária, é também uma qualidade espiritual. Uma ideia comum sobre ser jovem é acreditar que se tem muito tempo pela frente.
A.A. nos brinda com a sabedoria de que, independentemente da idade, tudo o que temos e tudo quanto precisamos para viver – e viver em abundância – é o dia de hoje. 

Revista Vivência nº