DP - Lavar roupa todo dia, que agonia!...

No meu tempo de alcoolismo ativo, achei o lugar ideal para a dona-de-casa alcoólatra: a lavanderia automática da vizinhança. Lá, eu podia ser a esposa e a mãe ideal ao mesmo tempo que bebia até as nuvens. Na lavanderia eu não tinha a perturbação de viciados de botequim, cujas intenções eram na melhor das hipóteses bastante dúbias. Além disso, lá eu tinha certeza de que era o modelo de todas as virtudes domésticas, lavando roupa todo santo dia... A lavanderia era o meu refúgio.
   Minha infância se perdeu na neblina alcoólica. A imagem que tenho de meu pai é a de um irlandês fortão, que depois de se formar na escola da vida trabalhava nos poços de petróleo e por isso tinha que beber a mãos cheias. Minha mãe era uma doçura de mulher, cujo único defeito era o meu pai. Levávamos uma existência cheia de altos e baixos naquela época. Não era nada monótona a nossa vida, porém assim mesmo, ou talvez por isso mesmo, tornei-me profundamente insegura. Às vezes, quando observava outras famílias, sentia claramente que havia algo de errado com a nossa família. À medida que meu pai ia galgando os degraus do sucesso nos negócios do petróleo, ia aumentando também o seu consumo no negócio do álcool. Eu pensava que ele tivesse apenas uma "fraqueza". Era o que a minha mãe vivia dizendo.
   Com dezenove anos casei-me com um homem esplêndido, que não havia conhecido um minuto de insegurança em toda sua vida, nem tampouco as tentações e tribulações do álcool. Ele e eu constituímos uma família grande - tivemos nada menos que seis filhos. De vez em quando saíamos, e eu tomava um aperitivo para me relaxar das tensões do dia-a-dia. No começo era agradável, pois eu não conhecia ainda as delícias proporcionadas por um trago; não tinha receio algum, porque pensava que a origem de qualquer problema com a bebida estivesse na "fraqueza" das pessoas, e eu era diferente do meu pai. (Era o que eu pensava.)
   Então aconteceu o meu pai cair  escada abaixo num dos fins-de-semana perdidos, justamente quando se encontrava no auge de sua carreira, e morreu. Ficamos tontos, logo ele que parecia tão indestrutível. Então foi a vez de minha mãe pegar a garrafa que ele deixara para trás, e em pouco tempo ela morreu de cirrose hepática. E, ainda assim, eu achava tratar-se apenas de uma "fraqueza" - conjugada, no caso dela, com todas as circunstâncias adversas.
   Pouco tempo depois da morte da minha mãe, minha filhinha de cinco anos de idade morreu atropelada pelo carro de um nosso vizinho. Senti que este era o desmoronamento total da minha vida. Em poucos meses fui internada num hospital psiquiátrico. Alguns meses mais tarde, fui liberada daquele mundo de insanidade mental, só para retornar ao mundo da insanidade alcoólica.
   Eu não podia beber em casa, porquê o meu marido não aprovava nem um pouco. (Aliás, sempre que eu o olhava ele tinha o cenho  franzido.) Foi aí que eu descobri a lavanderia automática. Juntava então todas as roupas sujas da casa, o quanto coubesse no carrinho de feira, e lá  ia eu à lavanderia.
   Chegando perto da lavanderia, comprava uma garrafa de refrigerante e várias de cerveja ou vinho; dentro da lavanderia, ia ao banheiro, derramava o refrigerante e enchia a garrafa com o conteúdo das outras, e só então ia lavar a roupa. Um procedimento tão inocente, tão discreto, não é mesmo? O único inconveniente é que eu sempre sabia como tinha chegado à lavanderia, mas entre o banheiro, a hora de enxaguar, e a hora de secar a roupa nunca sabia quando ou como chegava em casa. Perdi muitas camisas deste modo, e numa ocasião voltei eu para casa enquanto a roupa ficou pelo caminho. Durante todo esse tempo considerei a possibilidade de lavar roupa para os vizinhos também, à guiza de um emprego de meio-expediente: desse modo eu poderia passar todo o meu tempo na lavanderia!
   Não demorou muito para que o meu marido (que parecia preferir as suas camisas sujas) bebesse o pé, afirmando que a nossa família podia ter as roupas mais limpas  da cidade inteira, mas que já fazia mais de uma semana que eu andava com as mesmas calças e a mesma blusa  velha, suja e fedorenta. Disse-me que para ele estava acabado, que ele entraria com o pedido de divórcio. Em seguida, me pôs para fora de casa, dizendo que eu não servia como esposa, nem como mãe, nem como lavadeira.
   Eu sabia que ele tinha toda razão, exceto quanto às minhas qualidades de lavadeira. Assim, com os sentimentos de humilhação, raiva, e medo todos misturados, resolvi procurar uma resposta. Minha cunhada me levou a um lugar de que lhe haviam falado, onde recebiam mulheres como eu e davam ajuda. Eu não tinha outro lugar para ir, e sabia que alguma coisa estava muito errada mesmo, e que essa coisa errada estava dentro de mim. Num albergue para mulheres, aproximei-me ao A.A. e tomei consciência de que o alcoolismo é uma doença e não apenas uma fraqueza. Devagarinho, a minha vida se desenrolava como um filme diante dos meus olhos, mostrando como os ressentimentos, os ciúmes, e os receios de minha infância haviam desabrochado realmente muitos anos mais tarde, quando eu já era adulta, e mostrando também a auto-piedade em que eu me afogava sempre que tinha uma oportunidade. Vi, enfim, que eu tinha a mesma doença de meu pai, mas que eu tinha agora uma chance para viver.
   Assisti a muitas reuniões e conheci muitas pessoas bonitas e boas. Uma noite, poucas semanas depois de ingressar na Irmandade, observei com surpresa e alegria um rosto muito meu conhecido, mas que já não tinha mais o cenho franzido. Era meu marido, e ele também estava aprendendo. Logo reatamos o nosso casamento , e até mesmo mudamos para outra rua, mais distante das nossas memórias tristes, e achamos um novo lar. O que é mais importante, porém, é que encontrei uma nova vida em Alcoólicos Anônimos. O trabalho de A.A. me mantém muito ocupada, e também em casa sou agora uma pessoa muito ativa. Continuo levando muitas roupas à lavanderia automática, mas já não as perco lá. É isso mesmo! Em três anos, desde que frequento A.A., não perdi uma única peça, nem uma camisa sequer!

De uma companheira americana.

Vivência nº 9 - JAN/FEV/MAR 1989