Artigos - Liberdade condicional

" LIBERDADE CONDICIONAL "

Quando da implantação do trabalho conjunto entre a Irmandade de Alcoólicos Anônimos e a Justiça para encaminhamento daqueles que, sob o efeito de bebidas alcoólicas cometeram delitos de pequeno potencial ofensivo, gerou muitas discussões, pois para muitos membros de A.A. receber condenados (esse era o pensamento de alguns) em nosso meio poderia ser desastroso para os que lá estavam se recuperando e que se consideravam alcoólicos puros porque não chegaram a tal ponto. Isso fez com que representantes de A.A. e da Justiça abrissem o tema para debates e fosse então, encontrada a melhor maneira para que essas pessoas tivessem a oportunidade de conhecer a Irmandade de A.A. e através do nosso programa de recuperação fossem reintegrados ao seio familiar e à sociedade. A isso, deu-se o nome de justiça terapêutica, ou seja, mais importante que punir é recuperar para que o fato não se repita e, ademais, não seria produtivo manter preso o principal provedor da família, pois todos acabariam sendo punido o que agravaria mais ainda o problema.

Lembro-me que num desses debates realizado em um grupo do Rio de Janeiro, foram expostos os pontos de vista da Justiça, o que causou um grande alvoroço dentre os membros de A.A. presentes. Houve até quem afirmasse "que não mais freqüentaria a Irmandade, se por determinação judicial, tivesse que conviver com esses criminosos".

A magistrada, representando a Justiça, retrucou assim a essa colocação: 
Eu até respeito o pensamento dos senhores, mas devo esclarecer que não estamos tratando de criminosos, bandidos ou marginais, mas sim de pessoas, chefes de família que como qualquer um dos senhores, sob o efeito da bebida, agrediu uma esposa, um filho, etc... e ao que me parece, existe em A.A. uma Tradição que fala sobre o principio primordial da Irmandade de levar a mensagem de recuperação ao alcoólico que ainda está sofrendo. Há, ainda, uma outra Tradição que deixa claro que A.A. não deve negar ajuda a quem quer que seja, inclusive aqueles que tenham cometido algum crime. E não seria esse o caso? 

Permitam-me contar-lhes um fato que aconteceu em meu gabinete: Uma mulher que vivia constantemente embriagada foi denunciada pelos vizinhos à Justiça pelos maus tratos e abandono a que ela submetia suas duas filhas.  Quando o processo chegou às minhas mãos, intimei-a e lhe fiz a seguinte colocação: Tenho aqui esse processo em que posso decretar a perda da guarda de suas filhas e encaminhá-las para um abrigo. A acusação que pesa sobre a senhora não me deixa alternativas, porém, não quero tomar essa atitude sem antes dar-lhe uma última oportunidade. Vou encaminhá-la a Alcoólicos Anônimos para que freqüente suas reuniões durante um período de três meses, duas vezes por semana. A mulher ouviu em silêncio e ao sair do gabinete da juíza, totalmente transtornada, esbravejou contra a decisão da magistrada alegando não precisar de A.A. coisa nenhuma.

Passados os três meses determinados, a mulher retornou para ciência da decisão que seria tomada após sua estada no A.A. Ao entrar, disse a juíza: notei que algo maravilhoso havia acontecido com a mulher. Ela estava bem arrumada, cheirosa, expressão segura que contrastava com aquela do dia em que foi intimada. E ansiosa, a magistrada perguntou-lhe: 
Compareceu às reuniões de A.A. conforme lhe foi determinado? 
A mulher respondeu: Sim, meritíssima! 

E a juíza: O que achou das reuniões? 

A mulher respondeu: Foi maravilhoso! Agora, posso até aceitar o que for determinado pela Doutora, mesmo que tenha que sofrer a dor pela perda da guarda das minhas filhas, pois reconheço que errei. Mas, eu queria lhe fazer um apelo, já que fui penalizada por três meses que foram cumpridos, gostaria que a senhora decretasse a minha prisão perpétua em Alcoólicos Anônimos, pois tenho certeza de que de agora em diante, terei condições de lutar para recuperá-las caso as perca e por outro lado, também não quero mais sair de lá.

E a juíza com muita sabedoria respondeu-lhe: Então, ao invés de prisão perpétua vou decretar a sua LIBERDADE CONDICIONAL em vista de sua melhora acentuada e por enquanto a guarda de suas filhas ficará mantida com a senhora.
 
Mas lembre-se, a concessão da guarda definitiva só depende da senhora. A mulher então, num gesto de pura gratidão e reconhecimento, pediu licença a magistrada, beijou, respeitosamente, suas mãos, dizendo: Obrigada, meritíssima, pela oportunidade que a senhora me concedeu ao me encaminhar para Alcoólicos Anônimos, assim, estou tendo novamente a oportunidade de ser a mãe que eu nunca consegui ser porque a bebida não deixava.

Após esse relato, o grupo ficou em silêncio meditando sobre a responsabilidade de cada um diante de um irmão sofredor, venha ele de onde vier, o mais importante é que tenha a mesma oportunidade que nós tivemos.

A juíza, ao final do debate, foi bastante aplaudida como se todos tivessem entendido o recado, ou seja, assim como aconteceu com aquela mulher poderia ter acontecido com qualquer um de nós!