Liberdade no lar

"Como qualquer ser humano, eu tenho direito a me sentir completamente à vontade no círculo íntimo do meu lar. Não tão à vontade, porém, para me esquecer de tudo que tenho aprendido e me aproximar perigosamente daquele velho bêbado seco de triste memória".
 
Tenho um pequeno escritório numa edícula no fundo de minha casa. Dias atrás, pela manhã, estava lá tentando trabalhar. Meus dois filhos, uma garota de dez anos e um garoto de cinco, estavam comigo.
 
Eu sei que quando isso acontece, preciso me esforçar para ter bastante paciência e aceitação com freqüentes interrupções em minhas atividades. Em muitas ocasiões tenho conseguido. Naquele dia, porém, fiquei meio desatento. O menino, porque ninguém lhe dava atenção, parecia a fim de perturbar a irmão no trabalho escolar que ela fazia.
 
O telefone tocou (temos uma extensão no escritório). Atendi, era para minha mulher. Deixei o fone sobre a mesa, fui avisá-la e ela atendeu lá em casa. Voltei ao trabalho. O garoto continuava a perturbar. Ainda com razoáveis bons modos, chamei sua atenção. Ele insistiu e ameaçou rabiscar o caderno escolar da irmã. Ela deu-lhe um tranco. Meio "fora do ar", puxei os dois pelos braços e dei-lhes uma senhora bronca. Cinco minutos depois chega minha mulher.

– Você deixou o telefone fora do gancho. E quem ligou era a mãe de uma possível cliente minha! (Minha mulher é psicóloga infantil, imaginem!)

Pálido, esperei que ela terminasse:

– A mulher ao telefone quis saber o porquê daquela gritaria. Eu disse que se tratava de uma linha cruzada. Falei mal da companhia telefônica, e comentamos sobre quem poderia ser aquele maluco que gritava. E ela completou: "Existe cada tipo por aí, não?".
 
Fiquei mudo, coberto de vergonha. Ainda balbuciei alguma coisa, dizendo que absolutamente não tinha sido uma gritaria e sim uma pequena e instrutiva bronca, mas logo parei, envolvido pelas risadas, minhas também. Por dentro, porém, continuei sentindo muita vergonha.
 
O restante do dia foi bom, sem mais incidentes. Em meio às minhas atividades normais, procurei refletir honestamente sobre o acontecido. Aprendi isso com vocês.
 
À noite, na reunião do grupo que freqüento, meu depoimento, claro, foi sobre esse fato. Pelas risadas e pelo balançar de cabeças, percebi que vários companheiros se identificaram e se solidarizaram comigo. No meu inventário daquela noite, uma verdade logo ficou estabelecida. Só senti aquela vergonha toda porque uma pessoa de fora viu (ou ouviu) como eu era na intimidade.
 
A grande pergunta que ficou no ar foi a seguinte: por que, no círculo intimo do meu lar, não sou o mesmo cara sóbrio e cortês que aparento ser junto aos amigos, aos companheiros, à sociedade em geral?
 
Há anos não levanto a voz e sei que toda a base do programa é eu me relacionar bem com as pessoas, tendo sempre que ser verdadeiro, porém, como tenho aprendido no grupo, de forma mansa e calma. E com as pessoas que me são íntimas? São as que mais amo e a quem mais deveria respeitar. Vejo que é mais fácil praticar o programa fora de casa. Rende mais elogios também. No meu lar é mais difícil, e acho que sei por quê. A intimidade traz a liberdade. E eu sei administrar essa excessiva liberdade? "O arroz ficou sem sal", "Filha (em voz bem alta), a próxima vez que você deixar seu tênis no corredor, vou jogar no lixo", "Você deita tão longe de mim que qualquer dia vai cair da cama", "Só eu nesta casa levanto para cobrir o menino".
 
Vejo que a liberdade que eu e todos nós sentimos em casa é normal. É bom e necessário a mim e a todo ser humano que haja um lugar onde a gente possa ficar totalmente à vontade. Para mim, porém, como alcoólico em recuperação, essa liberdade pode ser perigosa. Não sei cozinhar, mas se eu bobear, ensino minha mulher, em detalhes, tudo o que ela tem que fazer na cozinha. Ajudo a lavar a louça. Outro dia me peguei no pulo ensinando a ela qual o melhor sistema de organizar as coisas na pia. Ela faz isso desde criança. Como qualquer ser humano, tenho direito a me sentir completamente à vontade no meu círculo intimo.
 
Não tão à vontade, porém, para me esquecer de tudo que tenho aprendido e me aproximar perigosamente daquele velho bêbado seco de triste memória.
 
Logo no meu inicio de A.A. escutei uma grande verdade de uma pessoa muito simples, e que vivo repetindo em depoimentos. "O único que pode dar rasteiras em mim sou eu mesmo". É preciso que eu tente praticar o programa dos doze Passos com a mesma intensidade que tento praticar fora de casa. Não só os Passos, todos os princípios. A Tradição do bem-estar comum é fundamental no lar. O que é mais importante para mim? O meu bem-estar pessoal ou o da família, da qual faço parte?
 
Essa liberdade que sinto no lar é uma coisa muito boa, muito gostosa e pode me fazer muito feliz. Desde que eu não permita que ela gere falta de respeito. Como pai, é preciso que eu eduque meus filhos, que eu os repreenda às vezes, mas que eu faça tudo isso com respeito.
 
Como marido, é preciso que eu ame minha mulher e cultive esse amor no dia-a-dia, mas, especialmente, que respeite a individualidade dela. No Décimo Passo, está escrito que é impossível conviver intimamente com um alcoólico. Vejo que isso vale tanto para quem está na ativa como para quem parou de beber, mas não pratica os Passos.

Foi tão impossível conviver comigo na ativa, que, quando cheguei em A.A., estava sozinho. Meus filhos de agora e minha atual esposa nunca me viram beber. Se por um lado isso é muito bom, porque não trazem os traumas de um passado que não viram, por outro me impede usar velhas, eficientes e tentadoras muletas. Como aquela do "sou um alcoólico sensível", "sou doente", "tratem de mim com desvelo, senão vou beber". Para eles, sou um sujeito normal, não uma porcelana que a qualquer toque mais forte se quebra. A única vez que tentei falar qualquer coisa sobre uma remotíssima possibilidade de uma pequena recaída caso minha mulher não mudasse de idéia sobre não me lembro o quê, a resposta foi curta e muito instrutiva: "Se algum dia você beber qualquer coisa de álcool, eu lhe acerto o pau de macarrão na cabeça". Nunca mais toquei no assunto.

Para que eu seja feliz e tenha paz, preciso de espiritualidade como do ar que respiro. E espiritualidade, para mim, significa relacionar-me com as pessoas. Todas as pessoas, dia por dia. Já mudei muito em relação ao que eu era. Há, entretanto, um longo caminho ainda a ser percorrido. Tento não ter pressa. Peço diariamente a ajuda de Deus, em quem agora acredito e tenho fé e procuro me esforçar para não colocar demasiados obstáculos nessa ajuda que Ele quer me proporcionar.                           

(Vivencia N°42 – jul/ago 1996)