Artigos - Liderança em A.A.

LIDERANÇA EM A.A.: SEMPRE UMA NECESSIDADE VITAL

 

Nenhuma sociedade pode funcionar bem sem uma liderança capaz em todos os seus níveis, e A.A. não pode ser exceção. Precisa ser dito, entretanto, que nós de A.A. acariciamos algumas vezes, a idéia de que podemos passar com quase nenhuma liderança pessoal. Somos capazes de distorcer a idéia tradicional dos "princípios antes das personalidades" a tal ponto que não haveria "personalidade" alguma na liderança. Isto redundaria, de qualquer maneira, em autômatos impessoais, tentando agradar a todos.

Outras vezes somos inclinados a exigir que os líderes de A.A. tenham, necessariamente, que ser pessoas com o mais requintado julgamento, moral e inspiração; grandes realizadores, modelos exemplares para todos e praticamente infalíveis.

A verdadeira liderança, naturalmente, tem que funcionar no entremeio desses pólos imaginários de superioridade tão esperada. Em A.A., certamente, nenhum líder é impessoal, assim como nenhum líder é perfeito. Felizmente, a nossa Sociedade é abençoada com toda sorte de liderança verdadeira - o pessoal ativo de hoje e os líderes em potencial de amanhã, de acordo com cada nova geração de membros capazes que vão aparecendo. Temos uma abundância de homens e mulheres cuja dedicação, estabilidade, visão e habilidades especiais os tornam capazes de lidar com qualquer serviço que lhes possa ser designado. Somente temos que procurar esse pessoal e confiar neles para que nos sirvam.

Em algum lugar da nossa literatura, há uma declaração que diz o seguinte: "Os nossos líderes não dirigem por mandato, lideram pelo exemplo". Com efeito, dizemos para eles: "Atuem por nós, mas não mandem em nós."

Um líder no serviço de A.A. é portanto um homem (ou uma mulher) que pode pessoalmente colocar princípios, planos e normas em ação de maneira tão delicada e efetiva que leva o resto de nós a querer apoiá-lo e ajudá-lo na sua tarefa. Quando um líder nos guia pela força excessiva, nós nos revoltamos; mas quando ele se torna um submisso cumpridor de ordens e não usa critério próprio - então, ele realmente não é um líder.

Uma boa liderança elabora planos, normas e idéias para melhoramento da nossa Irmandade e seus serviços. Mas nos assuntos novos e importantes, todavia, consultará amplamente, antes de tomar decisões e atitudes. Boa liderança também é saber que um excelente plano ou idéia pode vir de qualquer um, de qualquer lugar. Consequentemente, uma boa liderança muitas vezes substituirá os seus acalentados planos por outros que são melhores e dará crédito aos seus autores.

A boa liderança nunca se esquiva. Uma vez segura de que tem ou pode obter apoio geral suficiente, ela livremente toma decisões e as coloca em ação, desde que, naturalmente, essas ações estejam dentro do esquema da sua autoridade e responsabilidade definidas.

Um político é um indivíduo que está sempre tentando "arranjar para as pessoas aquilo que elas querem". Um estadista é um indivíduo que sabe cuidadosamente discernir quando fazê-lo e quando não. Ele reconhece que mesmo as grande maiorias, quando muito perturbadas ou não informadas, podem às vezes estar completamente enganadas. Quando tal situação aparece, ocasionalmente, e algo de importância vital está em jogo, é sempre dever da liderança, mesmo que em pequena minoria, tomar posição contra a tormenta, usando toda sua habilidade de autoridade e persuasão para efetuar uma mudança.

Nada, no entanto, pode ser mais prejudicial à liderança do que a oposição, apenas com o intuito de ser oposição. Nunca pode ser: "Vai ser da nossa maneira ou nada." Este tipo de oposição é geralmente causado por um orgulho cego ou um desejo de domínio que nos leva a bloquear algo ou alguém. Há então a oposição que dá o seu voto: dizendo: "Não, estamos satisfeitos." Nenhuma razão verdadeira nem mesmo é dada. Isto não serve. Quando requisitada, a liderança tem sempre que apresentar as suas razões, e que sejam boas.

Então, também um líder precisa reconhecer que mesmo as pessoas mais orgulhosas ou raivosas podem algumas vezes estar totalmente certas, enquanto as mais calmas e humildes podem esta enganadas.

Estes pontos são ilustrações práticas das diversas discriminações cuidadosas e pesquisas profundas que a liderança verdadeira tem sempre que tentar exercer.

Outro qualificativo para a liderança é o dar - e - receber, a habilidade de transigir sem rancor sempre que possa fazer progredir uma situação que aparenta ser a direção certa. Fazer concessões é muito penoso para nós beberrões de "tudo - ou - nada". Entretanto, não podemos nos esquecer de que o progresso é quase sempre caracterizado por uma série de concessões vantajosas. Não podemos, entretanto, fazer concessões sempre. Uma vez ou outra é realmente necessário fincar os pés numa convicção sobre um assunto, até que ele se esclareça. Estas são situações que precisam de tempo e cuidadoso discernimento quanto ao caminho a tomar.

Liderança, muitas vezes, tem pela frente críticas pesadas e às vezes de longa duração. Isto é um teste ácido. Há sempre os críticos construtivos, os nossos amigos de verdade. Nunca podemos deixar de ouvi-los atenciosamente. Devemos estar dispostos a deixar que eles modifiquem as nossas opiniões ou que as mudem completamente. Muitas vezes, também, teremos que discordar e fazer pé firme sem perder a sua amizade.

Há então aqueles que gostamos de chamar de nossos críticos destrutivos. Conduzem pela força, são politiqueiros, fazem acusações. Talvez sejam violentos, maliciosos. Eles soltam boatos, fazem fofocas para atingir seus alvos - tudo pelo bem de A.A., naturalmente ! Mas em A.A., já aprendemos afinal que esses sujeitos, que devem ser um pouco mais doentes do que nós, não são tão destrutivos assim, dependendo muito de como nos relacionamos com eles.

Para começar, deveríamos ouvir cuidadosamente o que eles dizem. Algumas vezes estão dizendo toda verdade; outras vezes somente parte da verdade, embora freqüentemente eles estejam racionalizando até o ridículo. Se estivermos por dentro de toda a verdade, parte da verdade ou sem verdade alguma, pode ser igualmente desagradável para nós. Essa a razão pela qual temos que ouvir tão cuidadosamente. Se eles estiverem completamente certos, ou mesmo com um pouco de verdade, será melhor então agradecer-lhes e fazer nosso próprio inventário, admitindo que estávamos errados. Caso seja tolice, poderemos ignorar isso ou colocar todas as cartas na mesa e tentar convencê-los. Caso isto falhe, poderemos sentir pena deles por estarem doentes demais para entender e podemos tentar esquecer todo o assunto. Há poucos meios melhores de auto pesquisa e de desenvolvimento de genuína paciência do que a prova a que nos submetem esses membros bem-intencionados, mas erráticos. Isto é pedir muito e às vezes não conseguiremos, mas precisamos continuar tentando.

Agora chegamos ao atributo da mais alta importância: o da visão. Visão é, penso, a habilidade de fazer boas estimativas, tanto para o futuro imediato como para um futuro mais distante. Alguns podem achar este tipo de esforço como se fosse uma espécie de heresia, porque nós de A.A. estamos constantemente dizendo a nós mesmos: "Um dia de cada vez." Mas esse princípio valioso, realmente refere-se à nossa vida mental e emocional e quer dizer principalmente que não somos tolos para lamentar o passado nem sonhar com o futuro de olhos abertos.

Como indivíduos e como uma irmandade, iremos certamente sofrer se deixarmos toda a tarefa do planejamento para o amanhã, nas mãos da Providência. A verdadeira Providência Divina foi dar a nós, seres humanos, uma considerável capacidade de antevisão e Ela evidentemente espera que a usemos. Por isso precisamos distinguir entre desejos fantasiosos sobre um amanhã feliz e o presente uso das nossas forças de estimativas bem pensadas. Isto pode determinar a diferença entre progresso futuro e infortúnio imprevisto.

Visão é por isso a própria essência da prudência, uma virtude essencial se é que existe uma. Naturalmente, podemos muitas vezes cometer erros de cálculo quanto ao futuro, como um todo, ou em parte, mas o pior é recusar-se a pensar nele.

O fazer estimativas tem diversos aspectos. Olhamos para a experiência passada e presente para ver o que pensamos que elas representam. Disso deduzimos uma idéia ou uma norma provisória. Primeiro perguntamos como é que essa idéia ou norma poderá funcionar num futuro próximo. Perguntamos, então, como é que essa idéia ou norma se aplicaria nas mais diversas condições num futuro mais distante. Se uma idéia for boa, nós a tentaremos - experimentalmente, quando isso for possível. Mais tarde, reavaliamos a situação e perguntamos se a nossa estimativa está funcionando bem.

Neste estágio, é provável que tenhamos que tomar uma decisão crítica. Talvez tenhamos a norma ou plano que ainda pareça ser bom e esteja funcionando bem. Não obstante, devemos considerar cuidadosamente os seus efeitos a longo prazo. Poderão as vantagens de hoje se reverter em obrigações amanhã? A tentação poderá ser a de aproveitar os benefícios imediatos, esquecendo-nos dos precedentes nocivos ou das conseqüências que possam resultar.

Estas não são teorias fantásticas. Descobrimos que precisamos usar esses princípios para constantemente fazer previsões, principalmente, a nível de serviços mundiais onde os riscos são altos. Nas relações públicas, por exemplo, precisamos avaliar ambas as reações, dos grupos de A.A. e do público em geral, ambos a curto e a longo prazo. O mesmo vale para a nossa literatura. As nossas finanças devem ser avaliadas e distribuídas nos orçamentos. Precisamos pensar nas nossas necessidades de serviço em relação às condições econômicas gerais, às capacidades dos grupos e boa vontade para contribuir. Freqüentemente, precisamos pensar com meses e até anos de antecedência.

De fato, todas as Doze Tradições de A.A. foram inicialmente questões de estimativa e visão para o futuro. Anos atrás, por exemplo, desenvolvemos lentamente a idéia de que A.A. seria sustentado por si mesmo. Tínhamos tido problemas aqui e ali com contribuições de fora. Então mais problemas apareceram. Consequentemente, começamos a planejar a política de "não aceitar contribuições de fora". Começamos a suspeitar de que grande somas dessa proveniência poderiam tender a nos tornar irresponsáveis e poderiam nos desviar do nosso objetivo principal. Finalmente verificamos que numa estirada longa, dinheiro de fora poderia realmente nos arruinar. Nesta altura, o que era somente uma idéia ou norma geral, cristalizou-se firmemente numa das tradições de A.A. Vimos que precisávamos sacrificar as vantagens rápidas e próximas por uma segurança duradoura.

Atravessamos esse mesmo processo quanto ao anonimato. Algumas aberturas públicas nos pareciam boas, mas finalmente, a visão nos veio que muitas dessas aberturas, eventualmente, causariam uma devastação entre nós. Portanto, foi assim: primeiro uma idéia experimental, depois uma norma de procedimento, depois uma firme norma de procedimento e finalmente uma firme convicção - uma visão para o futuro.

Assim é o nosso processo de estimativa para o futuro e líderes responsáveis por serviços mundiais precisariam ser capazes nessa atividade vital. É uma habilidade essencial, principalmente dos nossos custódios. Muitos deles, no meu ponto de vista, deveriam ser escolhidos com base em que já houvessem demonstrado habilitação de previsão nos seus próprios negócios ou carreiras profissionais.

Precisaremos constantemente desses mesmos atributos - tolerância, responsabilidade, flexibilidade e visão - entre os líderes de serviços de A.A. em todos os níveis. Os princípios de liderança serão os mesmos, seja qual for o tamanho da atividade.

Talvez isto pareça uma tentativa de projetar um tipo de membro de A.A., especialmente privilegiado e superior. Mas realmente não é. Estamos simplesmente reconhecendo que os nossos talentos variam muito. Um regente de orquestra não é necessariamente bom em finanças e previsões. E é muito pouco provável que um bom banqueiro seja um bom musicista. Portanto, quando falamos de liderança em A.A., somente declaramos que deveríamos selecionar essa liderança na base de obter o melhor talento que pudermos encontrar.

Embora este artigo tenha sido primeiramente idealizado com relação à liderança nos nossos serviços mundiais, é possível que algumas das suas sugestões possam ser úteis para qualquer um que tome parte ativa na nossa Sociedade.

Isto se aplica particularmente no campo de trabalho dos Doze Passos, no qual quase todos nós tomamos parte ativamente. Todos os padrinhos são necessariamente líderes. Os valores são tão grandes, quanto possível. Uma vida humana e geralmente a felicidade de toda uma família está em jogo. O que o padrinho diz ou faz, como prevê as reações dos seus afilhados, como controla e se apresenta bem, como faz as suas críticas e como lidera bem o seu afilhado, através de exemplos espirituais pessoais - estas qualidades de liderança podem constituir toda a diferença, muitas vezes a diferença entre a vida e a morte.

Agradecemos a Deus pelo fato de Alcoólicos Anônimos ter sido abençoado com tanta liderança em todos os seus setores.

 

Bill W