DP - Meu contato consciente com Deus

MEU CONTATO CONSCIENTE COM DEUS

"A oração da Serenidade foi fundamental"

"Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade."

Toda vez que eu lia o enunciado deste Passo não o entendia e voltava aos anteriores, com os quais estava mais familiarizado. Mas um dia, quando já alcançava dois anos de sobriedade em A.A., repassei os Passos de um a dez para reavaliar como estava minha vida e meu programa de recuperação.

Foi, mais ou menos, assim:

- Passos um, dois e três: ciente de que não soubera dirigir minha própria vida durante meu alcoolismo em atividade e nos primeiros meses de abstinência, percebi que um poder realmente superior a mim poderia dirigi-la e a Ele, Deus, como O entendia, entreguei a direção. A Oração da Serenidade, nesta primeira fase, foi fundamental para que este exercício espiritual mantivesse equilibradas minhas emoções ante as perplexidades, ajudando-me a conviver com os problemas, dimensionando-os, de tal modo que minhas dificuldades poderiam não ter soluções imediatas, mas não me deprimiam profundamente.

- Passos quatro, cinco, seis e sete: o inventário pessoal e a capacidade desenvolvida de admitir meus defeitos de caráter perante outros, seguidos de nova preparação espiritual e atitude de humildade no sentido de melhorar minha personalidade deformada pelo alcoolismo, permitiram uma reconciliação comigo mesmo e maior controle sobre minhas emoções.

- Passos oito, nove e dez: a reconciliação com meus semelhantes, a eliminação dos ressentimentos com as pessoas que eu havia magoado e, também, as que me magoaram como conseqüência de meu comportamento deformado pelo alcoolismo, somadas a uma perseverante vigilância às minhas reações emocionais e julgamentos precipitados, foram o coroamento destas fases do programa e pareciam aqui terminar.

Portanto, concluíra eu, para evitar a compulsão pela bebida, bastava eu manter minhas emoções sob equilíbrio e estar em paz comigo mesmo, com Deus e com as pessoas de minha convivência. Então, havendo tirado tais conclusões, comecei a olhar para as paredes e a me perguntar: "e daí?" - "o que restara disso?" - "permanecer sóbrio e curtir aquela nova vida?" Esta nova situação de perplexidade remeteu-me ao Décimo primeiro passo, onde, quiçá, encontraria as respostas...

Mas como fazê-lo? Teria que, a exemplo de Bill, encerrar-me num quarto e começar a clamar por Deus, pedindo a Ele que revelasse Sua vontade em relação a mim?

Foi aí que percebi "o óbvio ululante"! O Passo onze ensina que é através da prece e da meditação que podemos melhorar nosso contato consciente com Deus... Como minha questão era sobre "vontade", repassei minha vida e "minha vontade", constatando, perplexo, que minha vontade fora autodestrutiva!

Durante anos, se dependesse de minha vontade eu já estaria morto, ou louco, ou atrás das grades! Eu não gostava da vida que levava, não gostava das pessoas que me rodeavam, não gostava de mim, portanto, vivia atentando contra minha própria vida!

Capotei automóvel, freqüentei ambientes de marginais e bandidos, enfrentei um homem armado que, por estar mais embriagado do que eu não conseguiu disparar o revólver encostado em meu peito. Tentei suicidar-me por duas vezes. Enfim, foram tantas as ocasiões em que expus ao perigo por minha vontade o dom mais precioso que possuo: minha própria vida!

Logo, se por minha vontade eu poderia ter tido um término fatal e prematuro, e ela não foi realizada, qual a vontade que foi efetivada? A de Deus, sem dúvida alguma...

Costumamos dizer que Deus protege as crianças, os velhos e os bêbados, não é verdade? Pois ali estava eu: ileso, lúcido e saudável a olhar para as paredes e a perguntar: "e daí?" Ora, sempre fora a vontade de Deus que se fizera. Eu fora preservado e, portanto, era e sou um instrumento de Sua vontade. Minha vida teria que ter um sentido, uma justificação...

Assim, havendo descoberto quão cego e egoísta eu havia sido, procurei melhorar esse contato consciente com Deus, buscando fazer jus à minha existência.

Bastava orar e agir!

Vivência nº 99 - Jan./Fev. 2006