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Meu inventário

Muito aprendi e muito ainda tenho a aprender, mas tenho absoluta certeza que jamais posso e nem quero me afastar de A.A.

A minha primeira experiência com o álcool começou quando ainda era adolescente, morando na roça, no interior de Minas Gerais. Sem muitos recursos e sentindo uma forte cólica, minha mãe me deu para beber um preparado que, segundo costumes dos antigos, ajudava no alívio das dores: “cachaça queimada na arruda”, (colocava-se a cachaça no prato com uns galhos de arruda e punha-se fogo). A dor não passou, mas gostei muito da sensação que o álcool me deu.

Daí por diante, passei grande parte da minha vida inventando diversos tipos de dores com o objetivo de beber a cachaça para me sentir “aliviada”. 

Logo me casei e, com a cumplicidade do marido, tinha mais possibilidade de beber; sempre, é claro, ainda inventando dores, tudo com a mesma desculpa: “beber”. Com o passar dos anos, fui bebendo cada vez mais. Beber somente nos almoços especiais de domingo, já não era suficiente. Os parentes já não se sentiam à vontade com a minha presença nas festas familiares: era o vexame da família, falava e sorria alto; para mim era pura diversão, mas não tinha a noção que estava sendo inconveniente, envergonhando minha família e principalmente minha mãe. Ah! Como essa santa aguentou meus porres. Lembro-me de inúmeras vezes em que os meus conhecidos desviavam o caminho, para não cruzar comigo, pois estava sempre alcoolizada, e isso significava para eles constrangimento. Na verdade, não estavam errados; entretanto, com minha mãe, era diferente. Com mães sempre é, e esta nunca me ignorou; ao contrário, suplicava-me chorando que parasse de beber, que estava fazendo muito mal a mim mesma, que estava perdendo minha dignidade, fazendo todos sofrerem. Porém, a minha cegueira alcoólica não me permitia admitir que tivesse problemas com a bebida. 

E, na medida em que os anos iam se passando, aumentavam mais e mais minhas bebedeiras.

Em uma tarde, meus padrinhos, que tinha um pequeno comércio local, chamaram meu marido para uma conversa em particular. Várias vezes, eu era chamada para fazer a limpeza na casa desses padrinhos e sempre que ia dava um jeito de pegar escondido uma garrafa de cachaça; achava que eles nunca iam desconfiar, afinal eram tantas as garrafas de bebidas. 

Grande ilusão a minha. A conversa do meu padrinho e meu marido foi muito humilhante para mim: sem que eles percebessem pude ouvir grande parte dessa conversa. Meu padrinho aconselhava meu marido a se separar de mim, alegando que eu não valia nada, que eu só traria infelicidades e vergonha para a família. Disse coisas que me fizeram me sentir a última das criaturas; senti-me humilhada, rejeitada, ofendida; nunca imaginei que meu padrinho fosse capaz de falar tantas coisas ruins a meu respeito para meu marido. 

Depois desse episódio, passaram-se alguns dias e eu e meu marido decidimos ir embora da cidade, tentar a vida em um lugar com mais recurso, e fomos para Brasília.

No início foi tudo muito difícil, passamos por várias dificuldades e privações até conseguirmos um emprego com que pudéssemos nos manter.

Através de uma conhecida, diretora de uma escola, consegui meu primeiro emprego com registro. Era a minha grande felicidade: ter meu salário, e o mais importante: poder comprar minhas bebidas à vontade. E foi o que aconteceu. Levava sempre na bolsa uma garrafa de cachaça, bebia na ida e na saída do trabalho. Logo passei a beber também no local de trabalho. Como trabalhava na área da limpeza, sempre achava um lugar escondido para beber, ou seja, fora do alcance dos olhos da maioria das pessoas, bem como da minha chefe – a diretora da escola. Como podemos pensar que estamos bebendo escondido de alguém? A verdade é que a situação foi se agravando cada vez mais, pois começaram as faltas e as justificativas para não ir trabalhar. Ou por estar completamente de ressaca, ou por estar totalmente bêbada. Inúmeras foram as desculpas que meu marido inventava para a chefe, no intuito de me ajudar a não perder o emprego. 

A própria diretora – compadecida da minha situação, ou, talvez, para melhor me controlar – colocou-me para trabalhar em sua sala. Óbvio que não podia mais beber no local de trabalho, mas, como sempre, dava um jeitinho e lá estava eu novamente bebendo. 

Uma noite, na saída do trabalho, decidi passar em um bar e comprar uma garrafa de cachaça. Pedi que a abrisse e fui andando a pé para casa, bebendo. Lembro-me que era época de chuva e a noite estava muito escura. As ruas estavam sendo pavimentadas e com grandes valas para colocação de manilhas. Completamente bêbada, acabei por cair em uma dessas valas.

Numa noite escura e com fortes chuvas a caminho, meu fim seria me afogar e só ser encontrada dias depois em estado de grande decomposição. 

Diariamente, agradeço a Deus, por ter enviado dois anjos em um fusquinha. Não sei como conseguiram me ver dentro dessa vala, sei apenas que me resgataram e me salvaram a vida. Acharam em minha bolsa além da garrafa de cachaça uma anotação com meu endereço, pois meu marido sempre me recomendava para levá-lo na bolsa. Hoje sei que ele temia que algo assim pudesse acontecer.

Esse foi um grande impulso para buscar ajuda. Pedi a meu marido que me levasse para o AA. Ele de fato me levou, mas não entrou comigo. Sempre ficava do lado de fora me esperando, e eu nunca lhe dizia o que acontecia lá dentro. Esperava que a curiosidade dele e a própria necessidade de também ser ajudado fizessem com que ele entrasse comigo em uma sala de AA. Isso não aconteceu. Depois de três meses sóbria, afastei-me de AA e o óbvio aconteceu: voltei a beber e com muito mais intensidade. 

Tinha consciência de que ia morrer se continuasse a beber e sabia que precisava parar, mas sozinha não encontrava forças. Todo o pesadelo havia voltado: as ressacas, as alucinações, as tremedeiras, apagamentos e total falta de controle de minha própria vida. Um imenso desequilíbrio instalou-se em mim; precisava de ajuda urgente. Resignada e totalmente derrotada pelo álcool, admiti minha impotência e, determinada a tomar o controle de minha vida, pedi novamente a meu marido que me levasse ao único lugar que poderia me ajudar: um Grupo de Alcoólicos Anônimos. Assim meu marido o fez, só que dessa vez de forma diferente: entrou comigo e, juntos, começamos do zero nossa programação. 

Em nosso primeiro ano de sobriedade, meu marido e eu decidimos voltar à nossa cidade para partilharmos com nossos amigos e familiares nossa grande felicidade. Organizamos nossa reunião, convidamos companheiros, amigos e familiares. A reunião foi fabulosa e inesquecível, pude olhar nos olhos de meu padrinho e falar-lhe que eu não era aquela pessoa má que ele imaginava e sim portadora de uma doença que precisava ser tratada – o que, dia após dia, eu estava fazendo em Alcoólicos Anônimos. Sei que ele ficou bastante surpreso e envergonhado, juntamente com meu marido, pois ambos não sabiam que eu tinha conhecimento daquela conversa. Pude, na ocasião, fazer meu desabafo de forma totalmente errada, somente mais tarde tive essa consciência. Algum tempo depois, senti uma forte necessidade de fazer meu inventário e minhas reparações – desta vez da forma correta, sem prejudicar ou ofender ninguém. 

Já se passaram trinta e dois anos, e continuo em Alcoólicos Anônimos. Muitas coisas aconteceram desde então: muito aprendi e muito ainda tenho a aprender, mas tenho absoluta certeza de que jamais posso e nem quero me afastar de AA, pois meu casamento – o que tenho, o que sou – enfim, minha vida devo a Alcoólicos Anônimos. Hoje, meu propósito primordial é minha programação em Alcoólicos Anônimos.

Mariinha DF