DP - Meu pior inimigo

Como anda o meu relacionamento comigo mesmo?
 
 
Nos meus primeiros meses de recuperação em A.A., meu relacionamento com um Poder Superior e a Irmandade foi difícil. Eu não sabia que o meu maior inimigo mora dentro de mim. Quantas vezes, inconscientemente, briguei com esse monstro que me levava ao primeiro gole? Meus instintos ficavam liberados para agir desregradamente, contrariando a vontade de um Poder Superior. O meu maior inimigo passava a circular pelos quatro cantos dessa vida, com orgulho, arrogância e muitas vontades, um verdadeiro drácula sugando o sangue das pessoas que viviam ao meu redor.
 
Quando entrei numa sala de A.A. tive uma grande surpresa: pensei que fosse ver pessoas bêbadas, sujas e rasgadas. Para meu espanto, a única pessoa barbuda, suja e cheirando a álcool era eu. Pensei que veria alguém à frente de todos, falando como se fosse o dono da verdade (acostumado como estava a uma vida em que alcoólico não tem vez), mas qual nada, em A.A. tudo é diferente.
 
Senti uma grande alegria quando o coordenador explicou que em A.A. não existem professores e que todos somos iguais pois temos a mesma doença: alcoolismo. Disse que a palavra estava à disposição para quem quisesse fazer uso. Foram lá alguns membros e deram seus depoimentos, até que foi uma mulher - me deu até um gelo por dentro, pois eu nunca imaginara que mulheres fossem alcoólicas e minha cabeça pensou "aqui neste A.A. é uma loucura! Nunca no meu viver ouvi uma mulher falar assim!"
 
Tudo isso foi uma grande força para mim, comecei a acreditar na Irmandade. Mais um espanto quando li uma plaqueta que dizia "Evite o primeiro gole". Pensei que isso não seria difícil, pois quantas vezes já o tinham evitado, mas, por não ter conhecimento de que eu era um alcoólico, acabava sempre voltando a beber. E quando isso acontecia eu me desentendia com o meu maior inimigo cheio de prepotência. Estou consciente de que era esse primeiro gole que abria caminho aos meus instintos para agirem de forma descontrolada.
 
Nos meus primeiros meses eu me perguntava: será que esse tal de A.A. funciona mesmo? Estava na sala com um pé na frente e outro atrás. Mil dúvidas passavam pela minha cabeça, mas pensava em tomar uma decisão positiva, não queria decepcionar Deus (como O entendo), nem a Irmandade, e nem a mim! Há dezenove dias estava em A.A. quando resolvi ingressar. Escolhi um padrinho, que me entregou uma ficha amarela. Foi uma grande alegria, porque durante esses dezenove dias eu estava abstêmio. Continuava pensando: "Será que existe aqui algum segredo?" Cheio de curiosidade, perguntei a um companheiro: "Escuta, para participar de A.A. precisa fazer alguma coisa?"

 
Ele respondeu: "Evitando o primeiro gole, você pode fazer da sua vida o que quiser".
 
Pensei: "É moleza demais, só evitar o primeiro gole e fazer o que quiser? Estou no lugar certo!" Não podia entender que depois de entregar a vida e a vontade aos cuidados de um Poder Superior dentro de uma' sala de A.A., morre o velho homem para nascer um homem novo e viver uma vida nova, deixando de cometer os erros do passado. Errar é humano, mas persistir no erro é falta de aceitação. Afinal, cheguei à Irmandade pela misericórdia de um Poder Superior, que me tirou daquela lama suja, trazendo-me para essa bênção de Irmandade.
 
Mas, mesmo sabendo dessas verdades, não dei ouvidos à Irmandade. Achei que poderia governar a minha vida sem depender de nada nem de ninguém. Tomei a pior decisão da minha vida aceitando aquela sugestão de que era só evitar o primeiro gole e fazer da minha vida o que quisesse. Passei a acreditar que era dono da situação e voltei a viver nas trevas. Passei a ser autoconfiante e a fazer coisas que há 18 anos não fazia: fumar cigarro e maconha, cheirar tinner, tomar comprimidos.
 
Tomei-me um bêbado seco, somente evitando o primeiro gole, mas completamente insano e deprimido, querendo ficar "ligado" às custas de outras drogas. No tempo do alcoolismo eu não bebia pelo prazer, mas sim pelo efeito. Evitando o primeiro gole "e pronto", transformei meu viver num inferno. Meus instintos voltaram a viver soltos: ódio, rancor, auto-piedade. Eu sentava na cadeira, numa sala de AA, e dizia: "Maldito o homem que confia em outro homem! Eu confio em Deus e em
mais ninguém!"
 
Fazendo tudo do meu jeito, levei muito tropeço e tombo, até cair com o rosto no chão para sentir a dor da minha impotência e ser levantado pelas mãos de um Poder Superior. Minha mente começou a se abrir e passei a procurar sugestões para resolver o meu problema.
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Procurei um espelho e fiquei parado, pensando e olhando para a minha pessoa. Naquele momento penso que tive uma espécie de despertar espiritual: vi, na minha frente, o meu pior inimigo - eu.
 
A partir dali, deixei de nadar contra a correnteza do meu egoísmo, parei de dar cabeçada nas pedras da arrogância, misturadas com mania de grandeza e imperfeições. Comecei a andar em caminho estreito (largo é o caminho da destruição). Hoje, sinto que meu relacionamento com um Poder Superior inclui toda a Irmandade. Tenho a felicidade de sentar na cadeira e dizer que confio num Deus e no Grupo de AA, que nada tenho contra o companheiro que me passou aquela sugestão, pois cada qual tem sua individualidade.
 
Mas sinto a obrigação de responder, para alguém que me fizer aquela pergunta que eu fiz no meu início em AA, que considero necessário: evitar o primeiro gole, evitar o primeiro contato com qualquer substância química, participar, ter aceitação e mente aberta, que é a chave do crescimento.
 
Mais: passar adiante, de graça, o que de graça recebi, segurar com uma mão a de um Poder Superior e com a outra um Grupo de AA, a fim de não sobrar mão para o copo ou qualquer outro tipo de dependência.
 
 
Tudo que aconteceu comigo tem uma razão. Acredito que tenho um papel a cumprir nessa vida, que é a nossa Quinta Tradição: transmitir a mensagem ao alcoólico que está chegando, além do Décimo Segundo Passo: levar a mensagem àqueles que ainda sofrem com o alcoolismo. Há mais de onze anos estou abstêmio de qualquer substância química.  As bênçãos que tenho hoje eu devo a um Poder Superior, que abriu minha mente e permitiu que eu visse que o meu maior inimigo morava dentro de mim.
 
 
(Vivência n° 56 – Nov/Dez 1998)