DP - Minha vida era um catálogo de ressentimentos > RV. 077

Apesar do título, este é um artigo que se encaixa muito mais no tema da Vivência 76; fala de uma relação diária com Deus.

 

No Livro Azul, no capítulo 5, está escrito: “sem ajudar, é demais para nós. Mas existe um que tem todo o poder – e esse é Deus. Que possam encontrá-Lo agora!” Dito em palavras tão simples, até eu enxerguei. Um pouco antes, na parte dos “Agnósticos”, afirma-se textualmente que o objetivo principal do livro é nos capacitar a encontrar um Poder maior do que nós, que resolverá nossos problemas (notem: não diz que vai nos ajudar a resolver nossos problemas, como eu pensei no princípio, mas que o Poder vai resolver nossos problemas).


Eu de fato não gostava de gente que ficava citando pedaços enormes do Livro Azul, e cá estou fazendo a mesma coisa. Acredito que é porque a “nossa Bíblia” me oferece constantemente nova iluminação, cada vez que a leio. As palavras permanecem as mesmas; ninguém está secretamente acrescentando novos parágrafos e capítulos, enquanto durmo. Eu é que estou mudando.


Na verdade, cito essas passagens em particular, porque inicialmente eu não conseguia vê-las. Era como se a minha mente e meus olhos se vidrassem sempre que a palavra Deus surgia. O fato era que eu não era nem anti-Deus nem pró-Deus. Deus era um conceito que eu não entendia e que tratava como tudo que não compreendia: com medo.


Sei agora que minhas antigas idéias tinham-se estabelecido na minha família, onde Deus, como o bebê, havia sido jogado fora com a água do banho. O pessoal culpava a religião por tudo de ruim que tinha acontecido a eles e ao resto do mundo – as duas Guerras Mundiais, as mortes, etc. Ativamente promoviam uma vida de auto-suficiência. Pedir ajuda, mostrar uma fraqueza, admitir um erro, demonstrar emoções, tudo isso eram sinais de fracasso pessoal, e portanto deveriam ser evitados a todo custo. Vejo agora que conseguiram sobreviver mantendo suas vidas bem pequenas e tentando controlar a vida de todos os outros. Nada de mudanças, apenas uma rotina bem segura.


Não é surpresa eu ter guiado minha vida pelos mesmos padrões, e tudo vai bem quando a vida transcorre macia. Mas essa fórmula não é defesa contra as inevitáveis devastações. Agora, de posse dessa arma valiosíssima, o olhar para trás, posso ver que eu estava condenado ao fracasso. E me sentia como se fosse um fracasso até onde a memória alcançasse.


A bebida da minha família era usada apenas em situações de grande alegria ou profunda tristeza, e como minha vida constantemente se inclinava entre esses dois extremos de emoção, não foi surpresa começar a usar álcool como uma droga, a partir da tenra idade. No início, sentia que ele me ajudava a lidar com as coisas, mas depressa se tornou uma muleta emocional. Também sei agora que não me ajudou em nada, apenas me retirava de cena temporariamente e, eventualmente, numa base mais ou menos permanente. Sabia também que era um adicto fisicamente, mas me agarrava à insana noção de que eu podia “vencer o álcool”, se quisesse.


Gosto das palavras. Uso-as no meu trabalho, e uma das minhas fascinações iniciais, na recuperação, tem sido que o problema e a resposta são chamados pelo mesmo nome. Eu bebia e tornei-me dependente de espíritos (entre outras coisas), e a solução está em confiar num espírito – Deus. Ambos preenchem o mesmo buraco. Um temporariamente e perigosamente, o outro permanentemente.


Assim sendo, como cheguei ao ponto de entregar-me e deixar Deus agir? Costumava pensar que o jeito como eu agia não era o recomendado. Pensava que estava fazendo errado (velhos pensamentos). Vejo e ouço, hoje em dia, muitos dos meus companheiros descrevendo sua própria jornada para uma fé que funciona, e existem muitas similaridades essenciais.


Comecei com lógica pura (masculina?). Aceitei que nenhum poder humano – ex-esposa, filhos, sócios na empresa, gerentes de banco – tinham sido capazes de me fazer parar de beber. Portanto, se é que eu poderia ter qualquer esperança de recuperação aceitei que talvez houvesse um Deus, e vim a crer, em nível intelectual, numa existência espiritual. Não sentia nada de um jeito ou de outro, mas comecei realmente a experimentar coincidências que, em certas ocasiões, me faziam correr um frio pela espinha.


Entregar minha vontade e minha vida? Tudo bem, se vocês me dizem para fazer. Tendo terminado os três primeiros Passos (que era o melhor que pude fazer naquela época), estava pronto para o Quarto Passo, mais “compridão”. Anotei num só lugar todas as peças de informação que miríades de homens e mulheres atrás do balcão de bares haviam escutado, em fragmentos, durante minha carreira de bebida. (Muito mais tarde, e com a ajuda de quem agora é meu padrinho, pude ver que a história da minha vida foi um catálogo de ressentimentos, todos disfarçados de racionalizações coloridas.) Compartilhar isso com o meu padrinho de então pareceu um grande evento, mas não senti nenhum alívio brilhante. Pensei que meus defeitos de caráter fossem o orgulho e a lascívia, e na verdade só admiti esses dois, sendo que não estava totalmente convencido do último.


Assim lá fui eu, tentando reconstruir minha vida, tentando não deixar que o orgulho interferisse. Não bebia, ia às reuniões, vivia com minhas antigas idéias de auto-suficiência, e estava completamente disposto a permitir que “eu” removesse meus defeitos de caráter. Como vocês podem prever, isso não funcionou, e eventualmente alcancei uma maré baixa extrema que bateu todos os recordes – um fundo de poço emocional – que agora chamo de minha segunda rendição.


Fui levado a me ajoelhar, mais uma vez derrotado pelo alcoolismo, dessa vez sem álcool, e isso me forçou a pedir ajuda. Orei ajoelhado constantemente e dessa vez parecia que havia alguém ali: consegui fazer algum tipo de conexão. Acredito que minha recuperação de fato começou a partir desse momento.


Deus age através das pessoas, e no meu caminho foram colocadas boas pessoas. Fui afortunado por prestar serviço á Irmandade junto com um homem muito espiritualizado.  Ele costumava jogar “pedregulhos espirituais na minha janela”. Infelizmente, ele não morava ali, mas me ajudou até que encontrei meu padrinho atual, que é da mesma cepa. Ele me levou através dos Passos novamente. Nada do que eu havia feito anteriormente tinha sido em vão, mas ele me ajudou, pela sua experiência, a ganhar uma visão maior para dentro do meu passado, dos meus comportamentos, das minhas reações e, mais importante ainda, a enxergar meu medo autocentrado.


Como resultado da rendição, e com esse entendimento mais claro sobre mim, e uma conscientização nova de como eu me enquadro no esquema das coisas, tenho sido capaz de deter minha singularidade terminal e tornar-me, em primeiro lugar, apenas mais um alcoólico em recuperação e depois, maravilhosamente, simplesmente um ser humano comum. Os mais antigos costumavam descrever isso como se tornar mais uma das crianças de Deus. É uma coisa muito boa.


Hoje me sinto só. Não preciso dispor de todas as respostas. O que não significa que não quisesse tê-las, às vezes. Mas o que preciso ter é um estoque constante de boa vontade. Boa vontade para colocar um pé na frente do outro e caminhar. Disposição para pensar no positivo. Boa vontade para sair do Seu caminho. Para ser grato. Uma disposição que, às vezes, quando as coisas se complicam, apenas meus companheiros podem prover.


Quando me aproximei do Terceiro Passo pela primeira vez, fiquei preso num debate mental sobre se a gente entregava a vida ao amor, cuidado e proteção de Deus uma vez, várias vezes ou cada dia. Eventualmente me decidi por entregar-me a cada dia. Lembrei-me que nosso Programa é do tipo 24 horas, e isso para mim quer dizer que começo com ele quando abro os olhos.


Frequentemente acordo com minha “antiga cabeça” ligada – cheia de medo ou ansiedade, às vezes me sentindo completamente vazio. Às vezes consigo ser um “sabe tudo”, com um plano perfeito para o dia. Preciso ficar em guarda contra qualquer extremidade desse espectro. É quando estendo minha mão para a solução – lembram-se, o poder que vai resolver meu problema, ou, como diz o Dr. Paul O, no Livro Grande norte-americano (lá vai mais uma citação!), “quando parei de viver no problema e comecei a viver na solução, o problema foi-se embora”.


Em geral, começo tentando cultivar uma atitude de gratidão, concentrando-me em toas as coisas boas que Ele me deu: a própria vida, minha sobriedade, minha saúde, meus relacionamentos, a provisão das minhas necessidades oposta à dos meus desejos. E daí dou início à sessão dos “muito obrigados”. Isso, creio eu, é colocar-me na relação certa com Deus, e tem o efeito de pôr todas as minhas emoções negativas em perspectiva. Meu medo diminui e, num dia bom, posso sair caminhando e saudar o mundo. Em dias menos bons, recebo a coragem de dar um passo adiante.


Uso as orações sugeridas pela Irmandade para os Terceiro, Sétimo e Décimo Primeiro Passos, especialmente se estou tendo dificuldade em me comunicar, e às vezes o Pai Nosso, especialmente desde que me foi explicado. Penso em Deus e Lhe agradeço várias vezes por dia, tanto em momentos de aparente bom sucesso como também quando equivocadamente sinto que falhei. Sei que na verdade nunca posso de fato falhar, se estou fazendo o melhor que posso. Geralmente alguma coisa melhor está ali, logo ao dobrar a esquina, e o que eu considerava sucesso seria um fracasso completo; assim sendo, acho que não sei de fato o que é melhor para mim.


Desde que comecei esse relacionamento com o Deus do meu entendimento, e que trabalho na construção e na manutenção diária desse relacionamento, tenho mudado. Não consegui isso na base da força de vontade, me parece. De fato, tive de fazer muito pouco. Só sei que conheço os resultados. Não necessito beber ou voltar-me para uma distração alternativa ou técnica de escape. Sinto-me confortável na minha pele e não tenho medo de ser quem sou. Não preciso mais fazer de conta que sou alguma coisa que não sou, só para agradar alguém ou pôr lenha na fogueira do meu ego ou do meu orgulho.


Esta é a minha nova liberdade. E está a minha disposição sempre que cedo lugar quando me desapego e deixo Deus agir.

 

Anônimo.


RV. 077