Artigos - Minha Visita aos Alcoólicos Anônimos

Em meados da década de 1980, fui convidado por um membro dos Alcoólicos Anônimos para visitar um grupo. O grupo se reunia num edifício comercial de Copacabana, num conjunto de salas arejadas, sem nenhum clima de seita. As salas poderiam pertencer a um cursinho de vestibular. Não havia ninguém encapuzado, nem símbolos esotéricos nas paredes. Fui recebido por um "dirigente" (coloco entre aspas porque, na realidade, não existem dirigentes): um senhor simpático, jovial, de uns 50 anos de idade. Uma pessoa completamente "normal", sem ser metida a virtuosa e - pasmem - sem nenhum preconceito contra o álcool ou os prazeres da vida. Relatou-me que, inclusive, servia bebida alcoólica em casa, para os filhos e amigos. Considerava o álcool uma coisa boa, só que não fora boa para ele. Não tinha nada contra o álcool e sim contra o seu alcoolismo. O problema não estava na garrafa, estava nele.
As pessoas que frequentavam o grupo eram pessoas com aparência saudável. E delas não transparecia aquela insuportável alegria jovial de certos "cristãos-novos" interessados em mostrar as maravilhas de sua fé. Limitavam-se a prestar depoimentos despojados e sinceros, sem qualquer sabor de proselitismo ou catequese.
Alguns mais bem vestidos, outros menos bem vestidos, mas ninguém ostentando riqueza ou pobreza. Eram, mais ou menos, umas 30 pessoas. Algumas delas eram membros dos Alcoólicos Anônimos havia muito tempo, com cinco, dez e quinze anos de vida sóbria, sem recaída no álcool. Outros haviam tido algumas recaídas; outras ainda iam às reuniões pela primeira vez e estavam indecisas se iriam ou não permanecer.
À mesa sentava-se uma senhora simpática, sem nenhuma afetação, que deixava transparecer a serenidade de quem já é experiente na matéria. Sua função era meramente coordenadora. Suas intervenções eram sóbrias (em todos os sentidos...) e revelavam uma personalidade sensível, sem querer dar uma de benfeitora ou de bondosa. Acolhedora, sim, metida a benfeitora, não. Dava a impressão de ser uma pessoa não moralista, com problemas como todo mundo. Com qualidades e defeitos, nem melhor nem pior do que ninguém. Quem quisesse poderia fazer uso da palavra, e a ela competia controlar o tempo.
De um modo geral, as pessoas faziam depoimentos sobre suas vidas, sobre como entraram no alcoolismo e como fazem para controlar sua voracidade alcoólica. Algumas revelavam nível cultural mais alto: eram profissionais liberais, e a fala era mais sofisticada. Outras possuíam menos escolaridade, e a sua fala era mais simples. Mas isso não era o importante. O importante era a sinceridade com que davam seus testemunhos: a sincera vontade de ajudar e de se ajudar. Tudo muito simples, até emocionante. Não é à toa que uma conhecida minha, mulher bela e alegre também membro dos Alcoólicos Anônimos, me disse: "Eduardo, eu freqüento as reuniões dos Alcoólicos Anônimos porque estava entornando demais, é verdade, e tinha de colocar um paradeiro nisso. Mas não é só por isso, não. Eu gosto de freqüentá-las. Lá, eu rio. É, isso mesmo, eu rio, porque são encontros humanos, no fundo alegres, sinceros e descontraídos. E sem aquele clima de fofocas, competição, maledicência e exibicionismo. sobretudo, sem aquela hipocrisia e máscara social que todo mundo enverga quando se encontra em festas ou outros tipos de reuniões sociais. Nas reuniões, sinto uma genuína camaradagem. Não há ninguém patrulhando ninguém. É gente disponível para auxiliar gente. Solidariedade, sem invasão. Pura solidariedade".
Acho esse depoimento exemplar, porque auxilia a desmistificar a idéia de seita, sociedade secreta, reuniões lúgubres e deprimentes que muita gente faz dos Alcoólicos Anônimos.
É evidente que cada grupo terá a cara das pessoas do lugar onde ele se reúne. Num bairro pobre haverá mais gente pobre. Num bairro rico, mais gente rica. Um grupo de Alcoólatras Anônimos do Nordeste será diferente de um grupo semelhante na Suécia, cheio de gente loira, alta e de olhos azuis; um terceiro, na Nigéria, só terá provavelmente gente negra. E assim por diante.
Em todo grupo haverá gente humilde, universitários, artistas e até padres e freiras. O grupo nada mais é do que uma reprodução, em miniatura, da sociedade daquele lugar. O grupo em que eu estava, em Copacabana, tinha a cara de Copacabana.
Por alguns momentos, parecia-me estar em uma sessão psicanalítica de grupo. A única diferença era que todos ali tinham um problema comum - o alcoolismo -, e não havia um psicoterapeuta. Era o grupo que cuidava do grupo.
Depois eu soube que esse grupo se reunia sempre que quisesse. A sala estava permanentemente aberta e à disposição dos interessados. Lá, gente de fora poderia entrar e sair.
Se um membro dos Alcoólicos Anônimos quiser frequentar reuniões dos grupos todos os dias, o dia inteiro, pode. Afinal, esse amparo emocional, em momentos críticos, pode ser decisivo para muitas recaídas. Mas, se o membro aparecer uma vez por ano, também tudo bem.
É claro que existem reuniões a portas fechadas, a que comparecem os membros cuja notoriedade exige que tenham um anonimato mais rigoroso. Nas reuniões fechadas, discutem-se também problemas mais íntimos de cada um, o que requer maiores salvaguardas e sigilo.
Nos Alcoólicos Anônimos também existe uma figura chamada Padrinho (ou Madrinha). O Padrinho é um membro dos Alcoólicos Anônimos já experiente na capacidade de evitar a bebida. É uma espécie de irmão mais velho, de amigo qualificado, e se compromete com o novato a estar à sua disposição. Pode ser acordado até de madrugada. Aliás, por experiência própria, o Padrinho sabe que é exatamente nessas horas da noite que as tentações etílicas se exacerbam. Não é sem razão que são chamadas de "hora do lobo". Esse Padrinho funciona como uma espécie de amigo e confidente das horas difíceis, o que, todos sabemos, é importantíssimo para todo mundo - alcoólatra ou não. Cada membro dos Alcoólicos Anônimos tem a mais absoluta liberdade de escolher o seu Padrinho. Pode, inclusive, mudar de Padrinho quando quiser, sem dar explicações a ninguém.


* Dr. Eduardo Mascarenhas   ( Psicanalista )