DP - Morre uma bêbada, nasce uma mulher

Militei no alcoolismo durante seis anos. Neste seis anos, em minha vida, foi como se tivesse passado um furacão, destruindo tudo. A catástrofe foi total e aconteceram perdas irreparáveis: família,, dignidade, moral e credibilidade.

Ao olhar para trás, percebi encontrar-me numa encruzilhada sem saída. Com todas as portas fechadas, me vi só.
A semente já havia sido lançada e chegou a hora de desabrochar. Neste momento vi que teria de começar do zero. apesar de ter perdido tudo, agora estava tendo a maior oportunidade da vida. Agarrei-me a ela com um pouco de forças que ainda me restava. Dei-me a oportunidade de ser feliz, iniciando um programa de vida chamado A.A.

A partir daí passei a valorizar minha aparência.

Tornei-me uma pessoa gentil, feliz e livre.Deixei de ser uma mulher indiferente e aborrecida, tornando-me ativa e delicada.

Desapareceu o medo, o sentimento de inferioridade. Readquiri o meu espaço e minha vida tornou-se cheia de interêsses e de atividades.

Na sala de a.A., encontrei "calor humano" por estar com outras pessoas que tem o mesmo problemas. Uma atmosfera de amor.

Comecei a fazer uma reformulação de vida sugerida nos Doze Passos. Tudo começou a mudar. Olhei para dentro de mim e percebi que não sou normal.

Descobri ser portadora de uma doença tríplice que afeta o físico, a mente e o espírito. Passei a ter autonomia do Eu. Eliminei o comodismo, comecei a fazer parte da obra, ajudando nas atividades do Grupo.

Descobri que havia ferido muito àqueles que me rodeavam e comecei a reparar esses danos.

Quando estacionei meu alcoolismo, a primeira impressão que tive foi de que estava sóbria, mas com o tempo percebi que sobriedade não é apenas abster-se do álcool. Sobriedade é algo mais, é tentar mudar, caso contrário, corro o risco não só de voltar a beber, como também de perder a vida.

Minha sobriedade, agora, não é mais um favor que estou fazendo a mim mesma, é uma necessidade de vida. Necessito ficar sóbria para viver. Concluí que o álcool não é o elixir da vida, e sim, causa de sofrimentos, mortes, crimes, pobrezas, etc.

Às vezes, basta lutar e a luta é grande. Cavei um buraco muito fundo e agora terei que tampá-lo. com calma, aos poucos, vivendo um dia de cada vez.

Tornei-me frágil, pequena, diante do álcool e se não admitir isto, não me livrarei da obsessão do álcool; e é através do meu sofrimento, dos fantasmas do passado, que poderei alcançar a felicidade e a base para esta felicidade é a humildade.

Percebi que travei uma batalha com a garrafa e esta me derrotou.

Perdi o medo do ontem e do amanhã e comecei a viver o hoje em toda a sua plenitude. Descobri novas amizades, amizades verdadeiras e retomei o meu lugar na sociedade, lugar este que foi meu e que o álcool me tomou.

Através da recuperação passei a transformar os maus em bons momentos e os bons em ótimos. Descobri, acima
de tudo, que as reuniões de A.A., são o alimento para o meu Espírito, e que não poderei alterar os acontecimentos da vida. Não poderei mudar as outras pessoas, nem seus pensamentos, atitudes, gênios e personalidades. Poderei mudar somente a mim mesma, e isto me basta. Hoje tenho plena certeza: sou a pessoa mais importante e feliz deste mundo. aos poucos desapareceram os problemas de hipertensão, insônia, tremores, apatia sexual, nervosismo, depressão, desajuste familiar e má conduta.

Passei novamente a ser amada pelo meu marido. admirada pelos filhos e reconhecida profissionalmente.

Minha sobriedade hoje é tudo o que tenho na vida, pois somente ela me devolveu a alegria de viver, a paz e a harmonia. Minha sobriedade vale peso de ouro, pois ela me devolveu a vida.

Naquele dia em que atravessei as portas de Alcoólicos Anônimos, morreu uma bêbada e nasceu uma mulher.

Revista Vivência nº 25