DP - Não pude negar

Não pude negar

Sou uma alcoólica em fase de recuperação e membro da Irmandade há algumas vinte e quatro horas. Sempre faço essa afirmativa porque percebo que cada vez que participo de alguma reunião é como se ali estivesse pela primeira vez. Sempre saio outra pessoa, pois a experiência dos companheiros me ensina, e todos os dias rogo ao Poder Superior (que chamo de Deus) para que continue a me dar forças para permanecer neste programa que salvou a minha vida e a de várias pessoas que gravitavam à minha volta, principalmente família e amigos.

Ingressei na Irmandade através de uma mão amiga. Quando comecei a minha caminhada de recuperação tentei mudar muita coisa, principalmente os Passos e algumas Tradições que, ao meu ver, eram "desnecessárias". Ainda não tinha aprendido que somente com a rendição e a entrega da minha vida ao Poder Superior poderia começar a minha recuperação.

Assim, iniciei dando cabeçadas, discutindo com os companheiros, causando algumas polêmicas, até que veio a luz e, com ela, a compreensão de que tudo o que estava escrito já tinha sido experimentado.

No princípio, eu queria dizer a todos que tinha encontrado o caminho da mina e a fórmula mágica para o meu problema. Tive vontade de gritar que a vida me tinha sido devolvida e com ela a dignidade e a certeza de que não fora esquecida.

Alertada por alguns companheiros mais experientes, comecei a praticar o nosso Terceiro Legado, o Serviço. Agora compreendo quando ouço alguns companheiros dizerem que servir é privilégio de poucos, pois pede sacrifício e boa vontade. Necessitamos de sacrifício para poder trabalhar em favor do bem comum, sem que nossas personalidades, anseios pessoais, nome, família, profissão, emprego e status no grupo interfiram quando se trata de fazer a nossa parte.

Como seria se saísse contando aos quatro ventos que sou membro de A.A. e algum dia eu me embebedasse? Fatalmente, durante algum tempo, haveria de trazer grandes problemas não só para mim como para meu grupo e para a Irmandade como um todo, induzindo o descrédito por parte daqueles que não sabem que o alcoolismo, como qualquer outra doença, traz o risco de recaídas, tropeços e escorregões.

No serviço de A.A., o pagamento vem na forma de sobriedade e aprendizado. Cada encargo que aceitamos é como se estivéssemos em uma vitrine: alguns passam e se encantam, outros simplesmente exercem seu direito de opinar em contrário do que se está tentando realizar.

Onde resido, moram também outros AAs e, quando nos encontramos, eles sempre falam da nossa condição de membros da Irmandade. Um deles, ao me encontrar numa mercearia, perguntou-me em alto e bom som se eu iria ao grupo naquela noite. Ele estava em dúvida, pois também teria que freqüentar a sua igreja, mas disse que "daria um jeito de passar no grupo de A.A." Quando cheguei ao caixa para pagar minhas compras, o funcionário me perguntou se eu fazia parte do grupo de bêbados de A.A. Sentí-me como aquele apóstolo cristão que negou Cristo três vezes, e pensei que não poderia negar. Então eu disse que fazia parte de uma Irmandade onde as pessoas que têm problemas com o seu beber compulsivo podem ter uma chance de renovação de vida e de caráter. Ele perguntou se isso funcionava. Olhei bem para ele e perguntei-lhe o que estava vendo à sua frente, ficando o mesmo sem resposta. Paguei e saí me sentindo mais livre, leve e solta. Espero que essa minha pequena história possa ser útil. 

(Vivência nº 69 - JAN/FEV 2001)