Artigos - Não se afaste demais dos rapazes lá da enfermaria... > Rv. 006

Até    hoje   não   achei   que   tivesse   chegado   a   hora   de   expressar   as  minhas opiniões escrevendo à "Grapevine", seja com respeito a  A.A.  ou  com respeito ao alcoolismo. Sempre  achei  o  assunto  ampla  e  maravilhosamente bem coberto pela revista. Ultimamente, porém, dois  problemas  têm  ocorrido vez  por  outra –  o  dos  veteranos, e  artigos  referentes  ao  que  Bill  e  outros chamam de "sobriedade emocional".
         Alguns  anos  atrás, o  veterano  era  uma  raridade – digamos até mesmo 
uns dez anos  atrás, tão  pouco. O  lugar  em  que  viviam , naturalmente, eram os estados do leste norte-americano; só um ou outro se encontrava no Canadá ou nos Estados do Oeste. Hoje em dia os veteranos  são  mais  numerosos, mas por   vários   motivos   estão   novamente  escasseando  nas  reuniões. Eis  uma situação que não é boa para  os  veteranos, e  certamente  é  muito  ruim  para A.A.
         Vivo   me  surpreendendo  com  esta   afirmação,  que  às   vezes  se  ouve em reuniões:  "Em  A.A.  não  existe  senioridade."  Ora,   essa  afirmação  pode facilmente  qualificar-se  como  uma  piadinha de salão.  A pessoa que  cunhou essa  belezoca  deveria  ter  explicado  que  a  falta  de  senioridade  –  ou   seja de uma hierarquia por antiguidade – somente se aplica em relação ao primeiro gole. De outra forma, como aceitar e explicar o pouquinho de  progresso diário que nos é  prometido  no  Livro Azul, desde  que  aceitemos  praticar  em todas as atividades de nossas vidas os Doze Passos, integralmente?
         Há montes de senioridade em A.A. A senioridade da  sabedoria  adquirida com  o  correr  dos  anos. A  senioridade  da  compreensão, da  tolerância  com relação  aos   problemas  de   companheiros   mais   doentes   do   que   nós.   A senioridade da fé, que nos torna capazes de amarmos o  nosso  Poder Superior e confiarmos Nele, que nos  permite  perdoar  e  amar  nossos  vizinhos,  e  nos ensina  a  nos  amarmos  e  perdoarmos  a  nós  mesmos  também.
         Na sua última  grande  palestra,  o  nosso  co-fundador  Dr. Bob  enfatizou bastante o que lhe aconteceu quando ele se  afastou demais  dos  "rapazes  da enfermaria", e creio que é a mesma coisa que acontece com todos nós quando esquecemos   que   a   nossa   sobriedade   é   condicional,   que  só  permanece enquanto passarmos adiante o que alguém uma  vez  se  dispôs  a  passar  para nós. Não acredito que Deus nos tenha dado a sobriedade para racionalizarmos o   serviço   à   comunidade,   em   substituição  ao  serviço  dentro  de  A.A.  Os veteranos precisam da associação constante com A.A. para  manterem  aquela calorosa  satisfação  interna  que  tão  bem  conheciam  quando  frequentavam A.A. havia uns dez meses, e que perderam lá pelos seus dez anos.
         O Grupo precisa  de  sua  presença  nas  reuniões,  pois  assim  proclamam eles a sua própria necessidade  de  estarem  presentes. Membros  mais  novos, por  sua  vez,  lembrarão  esse  exemplo  e   mais  tarde,  quando   se  tornarem veteranos,  também  lá  estarão. E  assim  A.A.  se  fortalecerá  e  crescerá.
         Se o novato é o sangue que  dá  vida  a  A.A., então   o   veterano   é   nada menos que o  banco  de  sangue  de  A.A. Vejamos  alguns  fatos:  os  primeiros veteranos   escreveram    o   Livro   Azul,   e    sua   inspiração   e   sabedoria   se transfundiram  para  nós.  Em  Manitoba o A.A. foi iniciado por um membro que veio de Minneapolis. Ele e seus companheiros nos disseram  o que poderíamos fazer,  e quais as  coisas  que  seria  melhor  não  fazermos. Poupou-nos muitos anos de tentativas e erros, o que é  mais  importante,  com mais   de   dezoito   anos   de   sobriedade   continua  a  frequentar  o  Grupo,  e sua  presença  proclama,  em  brados  mais  altos  do  que  quaisquer  palavras, o  que  essencialmente  está  repetido  em  cada  página  do  Livro  Azul:  que  a nossa   sobriedade   nos   é   concedida   a   cada   vinte   e  quatro   horas,   e   é condicionada ao nosso estado espiritual.
         É claro que os veteranos são importantes, portanto, que o saibam! Talvez não  sejam  necessários  para  prover  os  afazeres  do  Grupo  ou  controlar  as finanças,   mas   se   os  veteranos  em  cada  área  forem  frequentadores  fiéis e   assíduos   das   reuniões,  então  não  teremos  que  nos  preocupar  com  os novatos  –  eles  estarão  em  boas  mãos.  É  bom  lembramos  o  que  o  " A.A. Número Três"   disse   à  sua   esposa   quando   Bill   e   o   Dr. Bob  o  visitavam pela segunda vez: "Esses são os rapazes  de  quem  te  falei;  esses  são  os  que entendem".

(Vivência nº 6, Jan/Fev/Mar - 1988, pág. 33)