DP - Não ser "o elo mais fraco" > RV. 155

Não ser ''o elo mais fraco''

Nestas 24 horas, como pensar, sentir e agir para fortalecer, e não enfraquecer a poderosa corrente de transmissão da mensagem de A.A. ao alcoólico que ainda sofre ?

A literatura de A.A. foi quase toda escrita  por  um  mesmo alcoólico sóbrio e que através da  intensa  convivência  com  seus  companheiros  e   companheiras,  parece  ter  estado sempre em estreito contato com um Poder Superior, que  preside nossas ações em torno do nosso  único  e  primordial  propósito. Nela  encontro  frases  profundamente sábias e também belas.

Umas dessas frases, para mim carregada de uma força espiritual tremenda, encontra-se no   enunciado  integral   da  nossa   Primeira  Tradição:   ''Cada  membro  de   Alcoólicos Anônimos é apenas uma pequena parte de  um  grande  todo.  A.A. precisa  continuar  a viver ou a maioria de nós certamente morrerá. Portanto,  nosso  bem-estar  comum vem em primeiro lugar. Mas o bem-estar individual vem logo depois.

Então, observo que me é fácil ajudar a preservar o bem estar coletivo quando tudo corre bem no meu grupo base, Mas, e quando surgem dificuldades: no  relacionamento  entre membros,  na  manutenção  da  autossuficiência,  na  frequência   diária  às  reuniões, no trabalho com os outros? E quando um membro adoecido para além do  alcoolismo afeta repetidamente os vínculos e o  funcionamento  dos  reuniões? E quando alguém  resolve fazer política e ''mexer os pauzinhos'' para  conseguir  o  que crê  ser  ''o melhor'',  ou  se recusa a praticar  a  princípio  da  rotatividade? E  quando  ocorrem  fofocas,  quebras de anonimato  alheio , envolvimentos emocionais, ciúmes  entre  membros  ou  recaídas? E quando outros empreendimentos,  tais  como  grupos  de  amigos,  recreação  ou outras Irmandades, se confundem com o nosso único e primordial propósito? E quando faltam voluntários para os mais simples serviços diários? E quando,   em meio  a  tudo  isso, eu mesma estou em dificuldades pessoais: no trabalho, na vida familiar ou comigo mesma? 

Acredito cada vez mais que é exatamente a ocasiões desse tipo  que a  Primeira Tradição se destina. Quase sempre é dentro de circunstâncias difíceis que meu ego sente ímpetos de  acordar  a  alcoólica  que  mora  em  mim  para  reagir  como  no  passado:  impondo, manipulando, pondo lenha nas fogueiras, desconfiando, julgando, punindo, me sentindo superior diante de supostas  fragilidades  alheias  ou  simplesmente  fugindo. Então, vejo que é precisamente nos momentos desagradáveis ou duros de roer que preciso sacrificar o meu ego e me colocar a serviço do tal  bem estar  comum, fazendo  o que  couber para me tornar parte da  solução:  estando  presente ,  apadrinhando, não-julgando e zelando por praticar o nosso   inteiro colar  de  Doze  Tradições,  onde  o  pingente  do  bem  estar comum se sustenta... ou não. 

Mas, pra mim o ''pulo do gato'' é que não  poderei  ser  mais  um elo  na corrente de A.A., íntegro e forte, se não estiver em dia com minha própria  recuperação  do  alcoolismo, ou seja, com minha abstinência diária ( de álcool e de tudo que  possa  me  levar  de volta a ele ) baseada nas práticas  diárias de:  rendição,  fé e  entrega; casa  interior  limpa  e com faxinas periódicas mediante a ajuda por Poder Superior do meu entendimento e também de outros seres humanos da minha  confiança;  disposição  de  modificar  meus defeitos e melhorar  a  mim  mesma   continuamente;   reparação   imediata  dos  danos  que   ainda provoco; contato consciente  com  o  Poder  Superior;  prática  de  tudo  isto em relação a todas as minhas atividades e disposição  para transmitir   graciosamente, a alcoólicos que ainda  sofrem,  tudo  quanto  recebi  e  recebo graciosamente  dessa Irmandade mundial, cujos ricos e históricos reflexos chegam diariamente ao meu grupo de base. 

E isso não é tudo: descobri  também  que não  consigo  permanecer  em  dia  com  minha recuperação  solitariamente.  Percebi  isso  porque, durante  alguns  anos  trabalhando  à noite e indo ás reuniões apenas nos finais de semana, deu-se que o meu afastamento do dia-a-dia  do  grupo  base  fez  toda  (má)  diferença:  foi   o  período  em  que   mais  senti dificuldades    em    permanecer    bem    ( apesar    da    abstinência    contínua ) ,    tendo  experimentado depressão, autopiedade, medos irracionais, fúria e obsessão por ideias de fuga das minhas responsabilidades, só para citar uma  parte  da  lista  de  mal-estares. Ou seja, constatei na própria carne e na própria alma  que apenas   na  convivência cotidiana do grupo base, compartilhando minhas experiências,  forças,  esperanças  e  dificuldades, ouvindo diariamente ( durante duas horas e  não  menos ),  me expondo  na  prestação se serviços, desfrutando coletivamente da nossa literatura, sendo  reeducada e compelida a agir corretamente nas dificuldades do grupo como um todo, me  entregando a essa Força Superior que se manifesta em nossa consciência coletiva, é que  sou devolvida á sanidade em meus próprios assuntos pessoais. 

Esse doloroso percurso já em  abstinência  forjou e m  mim uma convicção de que nossos 36  princípios  ( Doze Passos, Doze Tradições e Doze Conceitos )  formam  um círculo.  que certamente  será  virtuoso,  dinâmico  e  incrivelmente  eficaz  sobre  o  meu alcoolismo e meus defeitos de  caráter  apenas  se  eu   estiver  integrada  a  ele  o melhor que puder e numa base diária. Tem sido assim  que  tenho  sido  levada  a  uma  vida  de  simplicidade, honestidade, mente aberta, enraizamento com desprendimento, leveza mesmo em meio à dor, a adversidade e ao erro, além  de  sentimentos  de  profunda  gratidão, felicidade e alegria de viver, que vejo presentes  dentro  de  mim  em  todos  os  meus  dias -  mesmo naqueles que, no meu limitado modo de ver, são os ''piores''. 

Posso dizer então que, no meu caso, meu bem estar pessoal está conectado e passou  a ser visceralmente dependente do bem estar comum do meu grupo base. Por isso sou  a primeira interessada em preservar as melhores condições espirituais desse conjunto  de companheiros e companheiras que graciosamente  me  ajudam  a  preservar  as  minhas melhores  condições   espirituais.  Tudo   isso  para  bem  viver  a  vida,  para  a  qual  sou devolvida  diariamente  por  um  Espírito do  Universo,  sempre  mistérios  o  e  bondoso comigo, já que há mais de 50 anos providencia todas as noites o meu sono e me desperta a cada manhã, anônima e maravilhosamente. 

                                                                                                                 Um elo da corrente

R. Vivência 155 - Maio/Junho 2015