Artigos - Nona Tradição ( Ciclo das 12 Tradições )

"A. A. jamais deverá organizar-se como tal; podemos, porém, criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços." 

Quando conheci o A. A. em 1971, tive a oportunidade, de certa forma privilegiada, de ganhar um livro Alcoólicos Anônimos. Meio que querendo, mas indeciso (muito mais membro por obrigação, pois naquela ocasião não existiam "visitas" em Grupos de A. A. Tinha que ingressar). Comecei a ler aquele "Best Seller" cheio de regras para os "bebuns" iguais a mim, que em muito não concordava. Até porque não entendia, ou melhor, não dava para entender o que se passava nas reuniões, se no livro explicava de outra forma, principalmente, na obediência e na honestidade que precisávamos ter, se quiséssemos obter sucesso, e o que se notava também é que existia uma grande organização que começava nos Estados Unidos até chegar em Juiz de Fora. Era demais pra mim... Quanto motivo para eu beber não é mesmo! ? 

Dez anos depois conheci, verdadeiramente, Alcoólicos Anônimos que, como todo segmento da sociedade, desde a sociedade primeira, a família, necessita de certas obediências para que haja um convívio saudável e harmônico. Também fui verificando que o tal A. A. é uma instituição que funciona dentro de uma estrutura de serviços que começa no Grupo. Mais que uma instituição é uma irmandade onde não há definições que possibilitem o estabelecimento de diferenças conceituais precisas entre Grupo-base e Consciência de Grupo. E a ideia de Grupo-base está ligada, principalmente, à questão do Direito de Participação: Direito de pertencer ao Grupo; Direito de integrar-se aos serviços; Direito de apresentar e discutir ideias, e Direito de votar dentro do Grupo. Esses são direitos que geralmente as pessoas adquirem ao ingressar, ao reingressar ou ao pedir afiliação a um Grupo, o que, por sua vez, o membro torna-se participe da "Consciência Coletiva", a autoridade de Alcoólicos Anônimos, segundo a Tradição Dois. 

"Pertencer a um Grupo dá ao membro de A. A. o direito de votar em relação às questões que podem afetar o Grupo e poderiam afetar A. A. como um todo. Um processo que forma a verdadeira pedra angular da Estrutura de Serviço de A. A.". 
* Livreto O Grupo de A. A., p. 20 e 21.

O crescimento da Irmandade, ao longo dos anos, requereu uma organização compatível (nem mínimo e nem como tal), do contrário se instalaria uma confusão generalizada. Precisamos saber quem faz o quê dentro de A. A., que responsabilidades devem ser compartilhadas e assim por diante. Pois, por definição, Estrutura nada mais é do que uma organização das partes ou elementos na formação de um todo; seus vínculos e principalmente suas funções. Fica fácil, então, entender a Estrutura básica de Serviços de A. A. - Grupo - Distrito - Setor - Área - Conferência. Os Conceitos tentam apresentar uma estrutura na qual todos podem trabalhar em prol de bons resultados, com o mínimo de atritos. Esta Nona Tradição, na forma longa diz:
"Cada Grupo de A. A. necessita da menor organização possível. A forma rotativa da liderança é a melhor. O Grupo pode eleger um secretário, o Grupo grande seu comitê rotativo e os Grupos de uma ampla região metropolitana, seu ESL, o qual frequentemente emprega um secretário em tempo integral. Os Custódios da Junta de Serviços Gerais se constituem, na realidade, em nosso Comitê de Serviços Gerais de A. A. São eles guardiões da nossa Tradição de A. A. e os depositários das contribuições voluntárias dos AAs, através dos quais mantemos nosso Escritório de Serviços Gerais de Nova Iorque. Eles são autorizados pelos Grupos a cuidar de nossas relações públicas em geral e garantem a integridade de nosso principal órgão de divulgação: a revista de A. A. Grapevine. Todos esses representantes têm suas ações guiadas pelo espírito de serviço, pois os verdadeiros líderes em A. A. são apenas servidores experientes e de confiança da Irmandade. Seus títulos não lhes conferem nenhuma autoridade real e eles não governam. O respeito universal é a chave para sua utilidade".
Já em alguns fragmentos do texto, a Tradição Nove diz: 
"Nem a Conferência de Serviços, nem a sua Junta de Serviços Gerais, nem o mais humilde comitê pode determinar uma única norma a qualquer membro da associação e fazer com que tal diretiva prevaleça muito menos impor qualquer tipo de sanção..." 
"Está claro agora que jamais devemos nomear juntas que nos governem, mas está igualmente claro que sempre precisaremos dar autorização a trabalhadores para que sirvam".
Com os fundamentos principalmente na Tradição Nove (e Dois), existem os chamados Comitês de Serviços ou Corpo de Serviços do Grupo. São companheiros eleitos para prestarem serviços ao Grupo, para executar as tarefas de rotina, mas não para governar ou ditar regras, é a "Consciência do Grupo" que orienta o comportamento e as atividades principais do Grupo. Orientação e recomendação parecem ser as palavras mais adequadas para expressar as decisões da "Consciência de Grupo" destinadas ao Comitê de Serviço ou aos membros em geral do Grupo-base, já que contra as emissões de ordens ou determinações, existem princípios consagrados como o da "não punição" e o do "Direito de Decisão". 

A "não punição", que por que por si se explica, é uma garantia de que não caberiam sanções e o "Direito de Decisão", conforme inserido no Terceiro Conceito, é uma espécie de prerrogativa ao servidor, objetivando resguardar sua liberdade de ação em face da "Consciência de Grupo", inclusive diante de eventual austeridade ou equívocos dela. Dessa forma, se os servidores não "governam" o Grupo, fica assegurado que a "Consciência de Grupo", também não deve emitir ordens: uma espécie de proteção recíproca, que aniquila ou mesmo anula a hierarquia em nosso meio. Convém lembrar que no Conceito X diz que:
"Quase todas as sociedades e governos, hoje, apresentam sérios desvios do princípio muito sadio de que cada responsabilidade operacional deve ser acompanhada de uma autoridade correspondente para desempenhá-la... Porquanto, isso deve ser sempre definido seja por Tradição, por resolução, por descrição específica de função, ou por atas de constituição e Estatutos adequados". 

Em outras palavras: Os encargos devem estar acompanhados das respectivas atribuições, pois a experiência mostra que onde muitos são encarregados de uma tarefa, ou ninguém acaba por fazê-la ou sua execução acaba gerando atritos. Por isso, devemos ter muito cuidado quando criamos Comitês, Comissões ou encargos para isso ou para aquilo. As próprias Tradições delineiam as bases gerais com que podemos melhor conduzir os nossos serviços; elas expressam os princípios e as atividades de prudência que levam à harmonia. 

Costumamos dizer que o A. A. é a única ORGANIZAÇÃO, onde ninguém manda e todos obedecem, e nesta Tradição Bill W. diz que: "Sofrimento e Amor são os disciplinadores em A. A." Por aí podemos já diferenciar entre o espírito de autoridade e o espírito de servir, lembrando que o objetivo de nossos serviços é colocar a sobriedade ao alcance de todos que a desejarem. 

Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento aos companheiros que fizeram acontecer este evento e a oportunidade de poder estar participando, e para finalizar, lembrar as últimas palavras de Bill W., quando encerrou Os Doze Conceitos: 

"A soma dessas diversas atitudes e práticas é, no nosso modo de ver, a própria essência de democracia em ação e espírito. Liberdade abaixo de DEUS para crescermos à Sua imagem será sempre a meta de Alcoólicos Anônimos".

Vinte e quatro horas de Sobriedade, 

* Ciclo das Doze Tradições - outubro de 2003 - Leopoldina - MG