DP - Nós, os jovens, temos espaço em A.A.?

 Nós, os jovens, temos espaço em A.A.?


"Ele foi levar o pai para conhecer A.A. e acabou ficando".

Nos primeiros tempo de A.A. não havia jovens, pois, somente os alcoólicos já desesperados conseguiam engolir e digerir essa verdade amarga: ser um alcoólico.

Com imensa satisfação afirmamos que, com o passar dos anos, isso mudou. Os alcoólicos que ainda mantinham sua saúde, suas famílias, seus empregos, e até dois carros na garagem, começaram a reconhecer seu alcoolismo. Crescendo essa tendência, uniram-se a eles muitos alcoólicos jovens, que mal passavam de alcoólicos em potencial. Esse fato se concretiza a cada dia na nossa Irmandade. E eu sou parte desta realidade.

Conheci o A.A. em outubro de 1999, motivado pelos problemas que o meu pai estava enfrentando com o álcool. Minha intenção era levá-lo para A.A., já que ele estava precisando de ajuda, bebendo descontroladamente todos os dias.

Ao entrar em contato com a Irmandade, fiquei maravilhado com as histórias verídicas de recuperação de vários alcoólicos, que de maneira geral, haviam bebido muitos anos e agora tinham encontrado a sobriedade. Fiquei surpreso por ver meu pai evitar o primeiro gole a partir daquela reunião milagrosa. No dia segunite fomos, eu e meu pai, novamente à reunião, e vi novas pessoas contarem suas histórias de sucesso frente à doença do alcoolismo.

Durante essa reunião fiquei refletindo sobre a possibilidade de também possuir a doença, já que eu estava passando por vários problemas e bebendo muito. Ao encerrar a reunião, fui perguntar aos membros do grupo se eles poderiam me informar se eu era ou não alcoólico. Como resposta, me disseram que só eu poderia me considerar alcoólico ou não. Saí daquela reunião um pouco menos preocupado com meu pai, que havia conseguido ficar 24 horas sem ingerir o primeiro gole, e fiquei pensando mais em mim, tentando descobrir se eu era mesmo um alcoólico.

Nessa avaliação, algumas coisas me levaram a crer que eu era mesmo doente, pois eu não vinha de experiências muito agradáveis com a bebida. Entretanto, minha mente alcoólica me mostrava vários pontos que me descartavam da condição de alcoólico, pois eu era jovem (22 anos), não bebia diariamente, havia recém me formado com certo êxito num curso superior, não havia perdido família, nem gostava de beber cachaça. Todas essas situações divergiam da maioria dos membros que eu escutara.

Na minha peregrinação de tentar ajudar meu pai, fui com ele em mais uma reunião, só que agora em outro grupo de A.A. A reunião iniciou-se e eu prestei bastante atenção nos depoimentos dos companheiros e ouvi um companheiro jovem declarar-se alcoólico. Porém, o que me marcou mais foi um senhor, com cerca de 70 anos, que foi falando da sua vida, que havia pouco tempo que ingressara na Irmandade, que estava bem, mas que sentia muito por não ter conhecido A.A. quando mais novo. Parecia que aquele senhor estava falando ao meu ouvido, e que cada palavra que ele dizia, se dirigia especificamente a mim. Percebi que Deus o utilizou para abrir a minha mente, para eu me aceitar como alcoólico e que não precisava chegar a uma situação de profundo desespero para encarar que eu realmente tinha problemas com o álcool. Assim sensibilizado por todo esse contexto espiritual, eu ingressei em A.A., convicto que eu tinha problema com o álcool. Talvez um
alcoólico em potencial, mas que não precisaria passar por mais dificuldades além das que eu havia passado, para encontrar a sobriedade.

Deus havia aberto Seus braços de Pai bondoso para acolher-me. Ele não perguntava quantos anos eu tinha, o único requisito que eu necessitava era o desejo de abandonar a bebida, e isso eu tinha. Saí daquela reunião junto com meu pai, e parecia que eu estava nas nuvens. Aquela situação era um grande presente de Deus para mim, sou grato até hoje por A.A. me aceitar como sou, jovem, com o desejo de abandonar a bebida.

Como a doença do alcoolismo me cegou, colocando uma venda nos meus olhos, dificultando a visão de mim mesmo como um alcoólico!

Agora compreendo o meu descontrole frente à bebida e que o meu contato com ela sempre trouxera problemas, porém, ver-me como um alcoólico era algo que ia contra o meu ego, era uma auto-imagem que eu não queria ter; hoje aceitar-me como realmente sou, me faz muito bem.

Agradeço a Deus por estar em recuperação evitando o desenvolvimento da doença, que poderia ter me levado à morte.

Durante esta caminhada, em recuperação, tive várias experiências interessantes, como a incerteza de meus pais e familiares frente a minha condição de alcoólico. Meu pai chegou a dizer que eu não precisava participar de A.A. por causa dele, que eu não era alcoólico. Ele voltou a beber após afastar-se das reuniões; permaneceu longe de A.A. por cerca de dois anos. Eu, graças a Deus, continuei participativo da Irmandade, vivenciando os passos, respeitando as tradições e procurando realizar serviços até que, em junho de 2002, eu tive a grata satisfação de estar novamente com meu pai dentro de A.A.

Daquele momento em diante, venho apadrinhando-o e presenciado sua dedicação pela recuperação.

Hoje ele já compreende que realmente eu não estou em A.A. porque tenho um pai alcoólico, e sim, porque eu sou um alcoólico.

Em certa reunião um companheiro nosso, pai de um amigo meu, e que me conhecia desde criança, também disse que eu não era alcoólico. Outras pessoas que não fazem parte de A.A. me disseram que eu era muito jovem, e que eu não precisava ser tão radical em não beber nenhum gole, mas eu bem sei dos meus problemas com a bebida, e que realmente preciso evitar o primeiro gole e recuperar-me da doença através do programa de doze passos. No meu ponto de vista, essas conclusões de certas pessoas, alcoólicas e não, sobre mim, referente ao alcoolismo, refletem, de certa forma, uma visão da nossa sociedade em geral, ainda distorcida sobre o alcoólico. De que é somente aquele que está no mais profundo estágio do alcoolismo, com muitas perdas, quase à beira da loucura ou da morte. Esquecem-se, que mesmo estes, não nasceram assim. Que essa condição foi galgada, dia após dia, utilizando o álcool de forma progressiva, e quase todos os alcoólicos
não começaram diretamente na sarjeta. Entretanto essa visão tem se modificado, dentro e fora de A.A. As pessoas têm reconhecido a natureza progressiva da doença, além de compreenderem que ela não escolhe sexo, raça, idade, posição sócio-econômica-cultural e que a Irmandade de A.A. está de portas abertas para todo aquele que deseja abandonar a bebida.

Tenho visto cada vez mais jovens dentro das salas e espero estar contribuindo de alguma forma para que o jovem se sinta cada vez mais à vontade na Irmandade, participando de reuniões em vários grupos e apadrinhando alguns jovens.

Deixo aqui o meu grande abraço a todos os companheiros e reitero: A.A. é para todos, inclusive os jovens!

Muita sobriedade e serenidade!

Anônimo

(Vivência - Mai/Jun. 2004)