Artigos - O anonimato em serviço

Refletindo sobre a história de A.A., podemos apreciar o exemplo de serviço e anonimato legado pelos nossos co-fundadores.

As iniciais "A.A." nem mesmo aparecem nas lousas de suas sepulturas. Para nós, este exemplo de humildade é maior e de valor mais duradouro que qualquer celebridade ou renome.

Não temos de viajar para Akron ou Vermont para ver os monumentos de Bill e Dr. Bob. O verdadeiro monumento pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo e a inscrição funerária resume-se a uma simples palavra: sacrifício.

Como servidores de confiança, devemos procurar sempre praticar o Terceiro Legado de Serviço.

As Doze Tradições, repetidamente, nos induzem a pôr de lado nossas aspirações pessoais em beneficio do bem-estar comum.

A prova da boa vontade dos membros de A.A. em submeter-se a tais sacrifícios, nos inspira grande confiança em nosso futuro.

Para cumprir nossas responsabilidades como servidores de confiança, temos as Tradições apontando;nos o caminho a nos conduzir seguramente ao nosso destino.

Descobrimos as causas que nos levam, afinal, à desunião em atitudes que contrariam o espírito de sacrifício.

Temos sofrido tais divisões na estrutura mexicana. Temos visto a formação de movimentos separatistas em conflito com a estrutura original a cada década, desde o estabelecimento do A.A. no México. Alguns membros de A.A. lançaram um movimento chamado AMAR (Associação Mexicana de Alcoólicos em Recuperação), em 1954. As Doze Tradições aprovadas em sua forma resumida pela Convenção de C1eveland, em 1950, não atraíam um certo número de membros de A.A. mexicanos os quais eram de opinião que aqueles princípios dirigiam-se a um distinto modo de pensar ang1o-saxão e eram completamente inapropriados ao vivaz e exuberante caráter mexicano.

Na década seguinte, em 1963, estabeleceu-se um grande número de centros de reabilitação conhecidos como CRAMAC (Centros Mexicanos de Reabilitação de Alcoólicos, A.C.). Então, em 1974, sem anuência da consciência coletiva dos grupos, criou;se, na Cidade do México, o Escritório Mundial de Informações, o qual, posteriormente, partiu para a criação dos chamados "Grupos 24 Horas"grupos que forneciam alimentação e alojamento para alcoólicos indigentes.

Aparentemente, só estavam interessados na Quinta Tradição. Quando os últimos grãos da poeira levantada pelos chamados "Grupos 24 horas" começavam a assentar-se, apareceu outro movimento separatista, o qual, finalmente, veio a ser conhecido como "SEÇÃO MEXICANA". Dito movimento foi iniciado por membros de A.A. que já tinham servido em nosso Escritório de Serviços Gerais ou na Junta de Serviços Gerais e culminou, em 1985, com a separação de oito áreas de nossa estrutura.

Analisando essas experiências, podemos identificar rapidamente a causa das divisões: atitudes pessoais que ignoram o bem-estar comum.

Egoísmo em completa oposição ao sacrifício pessoal.

As tentações do prestígio e do poder permanecem latentes aguardando a primeira oportunidade para explodir em nossas relações pessoais e grupais.

Tem sido custoso, para mim, controlar minhas próprias atitudes de falsa modéstia quando, em alguns eventos, ouço essas palavras: "Hoje encontra-se conosco nosso Delegado à Reunião de Serviços Mundiais o qual participará ...". Minha primeira reação ao aplauso é o inflar do ego.

Começo a caminhar de maneira diferente. Neste ponto, minha luta começa. Procuro lembrar-me de que, neste nível, serviço é apenas uma chance para servir aos meus companheiros e não um título de distinção especial. Sacrifício pessoal não é fácil mas me tem proporcionado as maiores alegrias. Uma vez fui convidado para falar sobre anonimato num encontro. O lugar do encontro ficava a um dia de viagem e, minha esposa e eu, juntamente com outros casais, pusemo-nos a caminho. Estava preparado para falar durante 15 minutos e cheio de entusiasmo.

Na Reunião Pública, o coordenador do evento aproximou-se de mim e foi dizendo: "Não há tempo suficiente para sua palestra, mas queremos agradecer-lhe por estar aqui conosco".

Fiquei sem fala. Mas jamais pratiquei o princípio do anonimato tão bem como naquele dia. Ninguém ali sabia o que eu ia dizer; que idéias tinha em mente. Aquela foi a melhor oportunidade de praticar o anonimato.

O ex-coordenador do evento é pessoa pela qual tenho grande estima e relembro aquele lugar com muito carinho.

Procuro sempre lembrar-me de que, dentro de mim, existe uma força que me mantém em unidade e, portanto, sustenta minha recuperação.

Esta força é a disponibilidade para sacrificar meus desejos pessoais.

Para produzir sons; a flauta precisa ser perfurada; para escrever uma carta, necessitamos de uma página em branco; para promover o bem-estar dos outros, as melhores ferramentas são a humildade e o sacrifício pessoal.

Como tem sido agradável ser capaz de participar de um grupo onde ninguém se conhece, onde posso compartilhar como qualquer outro membro e, através do meu exemplo, contribuir para o bem comum com o melhor de minha experiência.

Alguns membros de A.A. que agora estão em serviço me dizem: "Estou em serviço porque um dia, como um estranho para mim, você visitou meu grupo e serviu-me uma xícara de café". Outros dizem: "Conscientizei-me de que você tinha viajado centenas de quilômetros para compartilhar com meu grupo, numa época em que eu evitava andar alguns quarteirões para assistir a uma reunião. Agora estou pronto para assistir à minha primeira reunião como delegado de Área".

Atração com anonimato funciona.

A fim de assegurar nossos objetivos em longo prazo, como servidores de confiança, temos de exercitar nossa responsabilidade com tolerância sem perder a visão do futuro. Este é o nosso compromisso.

Anonimato em serviço deve ser o instrumento que nos abre a estrada dos nossos próximos e importantes progressos.

Praticando o anonimato, alcançaremos a verdadeira maturidade e maior humildade em nossas relações conosco, com nossos semelhantes e com Deus.

Dispomos de algo mais forte que nossas próprias personalidades para nos proteger e nos capacitar para viver unidos em nosso labor de levar a mensagem.

Na prática do anonimato, nossos princípios estão em primeiro lugar e isto não é uma idéia que tenhamos inventado, mas o reflexo de valores espirituais e eternos.

Vivência n° 35/maio/junho/1995
Vivência n° 94 Março/Abril 2005