Artigos - O Anonimato nas Cerimônias Fúnebres


O anonimato durante as cerimônias fúnebres de membros de A.A. falecidos, tem-se constituído em um problema muito sério! Talvez mais sério que qualquer outra forma de aplicação desta importantíssima Tradição de A, A! O não respeitar o anonimato de um companheiro falecido, pode envolver e/ou até comprometer uma infinidade de pessoas que, aparentemente, nada tinham a ver com a situação "anônima" do membro de nossa Irmandade e que, durante toda a sua permanência em A.A., jamais declinou a quem quer que fosse, a sua participação no programa de Alcoólicos Anônimos, até mesmo para familiares e/ou a amigos que com ele (ou ela) conviviam.
E, para melhor compreendermos esse importante assunto, mentalizemos uma pequena "história", mas que poderá perfeitamente acontecer, se é que ainda não aconteceu, em algum lugar onde exista um grupo de A.A. em qualquer parte deste nosso planeta:
"Jayme" (nome suposto), alcoólatra em recuperação, participava há cerca de dois anos do programa de Alcoólicos Anônimos, Assíduo freqüentador das reuniões de A.A., mal orientado e/ou mal instruído, ele jamais declinara alguém, de suas relações pessoais, que era membro de nossa Irmandade. Somente a sua esposa o sabia e, a pedido dele, naturalmente não dizia a ninguém que seu marido era membro de Alcoólicos Anônimos. Jayme era um empresário muito bem postado na vida, com uma situação financeira bastante estável, próspero, já que o seu alcoolismo, embora sempre progressivo e crônico, jamais tinha afetado essa situação de sua vida, Nem mesmo os seus sócios sabiam que ele era membro de A.A., embora de um certo tempo para cá, tenham "notado" que algo de "estranho" tinha sucedido a Jayme, tanto em seu aspecto físico como também social, familiar e empresarial. Jayme se tornara - e isto há cerca de dois anos apenas - um indivíduo totalmente "diferente" daquele que mantinha sempre em sua mesa de trabalho, um "whisky para "brindar' com os seus amigos e com as pessoas com quem tratava de negócios importantes ligados à sua sempre próspera empresa. Jayme deixara de beber de uma hora para outra!
Mas, certo dia, soa em sua grande empresa, uma triste notícia: Jayme falecera repentinamente, vítima que fora de um "enfarte agudo do miocárdio" (pelo menos fora isso o que constara em seu "atestado de Óbito"). O sentimento e a emoção tomaram conta de todos os seus amigos, funcionários e familiares, da mesma forma que entre os seus companheiros de A.A., onde ele era bastante querido - graças à sua humildade e grande dedicação ao grupo que ele sempre freqüentava.
Marcada a hora do sepultamento de Jayme, começaram a chegar não só companheiros de A.A. como também um grande número de amigos e familiares seus. Muitas coroas de flores foram-lhe enviadas como uma última homenagem de seus amigos e parentes. E dentre elas uma se destacava por seus amáveis dizeres:
"Jayme, que Deus te dê a paz que sempre almejaste! Teus companheiros de A.A." Na hora do funeral e em meio àquela multidão de pessoas, sem nenhuma consultam à sua esposa e/ou aos seus familiares, os companheiros de A.A. ali presentes, deram-se as mãos e após um comovido e bonito necrológio improvisado por um dos companheiros e amigo de Jayme, foi mais uma vez declinada a sua condição de membro de Alcoólicos Anônimos. Em seguida e como despedida daquele querido companheiro, os membros de A.A. ali presentes, fizeram a nossa mui querida e conhecida "Oração da Serenidade".
E o funeral de Jayme transcorreu normalmente, embora naquele clima de tristeza e muita consternação. Houve até quem, entre os companheiros, sugerisse que se colocasse em sua sepultura uma placa, um epitáfio, contendo os seguintes dizeres: "Aqui jaz um membro de A.A. Ele morreu sóbrio!" Em seguida, cobriram o caixão de Jayme com uma bandeira de A.A. Poucos dias depois expediram convites à comunidade, convidando os para a missa mandada celebrar pelo A.A. em homenagem póstuma ao "querido companheiro Jayme". Não se precisa dizer mais nada!
E agora vem o "outro lado da história': Acontece que, dentre as pessoas presentes a todo aquele cerimonial, havia uma muito reservada e que, embora bastante comovida, manteve-se sempre arredia ao contato com os amigos e familiares daquele querido companheiro falecido. Essa pessoa, esse estranho indivíduo, era, nada menos que um filho "ilegítimo"de Jayme e que havia sido excluído de seu testamento, feito há cerca de três anos quando, no auge de seu desespero, Jayme sentia a morte bem próxima. Todas as suas tentativas para parar de beber, antes de conhecer o A.A., haviam sido frustradas. Aquele indivíduo sabia alguma coisa sobre o AA. Ele sabia, por exemplo, que Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade que se propõe a recuperar unicamente alcoólatras. Sabia também que, para ser membro de A.A. o único requisito é a vontade de parar de beber. Porém, só naquele momento, após aquelas "cerimônias" praticadas pelos membros de A.A., ele tomou conhecimento de que o seu "pai" era membro daquela Irmandade e, portanto, alcoólatra! E tirou suas conclusões: Se ele freqüentava há apenas dois anos o A.A. e o seu "testamento" fora feito há cerca de três anos, naturalmente ele poderia ou deveria perfeitamente estar "fora de si", bêbado, inconsciente e, portanto, sob o efeito do álcool, ao fazê-lo! Poderia até ter sido "induzido", "orientado" ao forjá-lo. Contratou advogados, ouviram-se testemunhas, investigaram e chegaram àquelas exatas conclusões: Jayme estava alcoolizado quando, naquele memorável dia, há cerca de três anos, anunciara o seu testamento, até mesmo como um grande presente "post-mortem" aos seus familiares, aos seus filhos, principalmente. E o pior de tudo é que fizeram a exumação do cadáver e a autópsia constatou que Jayme havia morrido de "complicações do aparelho digestivo conseqüentes a seu alcoolismo crônico e progressivo", coisas que o seu próprio médico desconhecia, já que Jayme jamais dissera a seu médico que pertencia à Irmandade de Alcoólicos Anônimos e que era alcoólatra, portanto. Logicamente que até o médico, que para evitar constrangimentos submetendo-o à uma autópsia chocante atestara "problemas cardíacos" como "causa mortis" de Jayme, fora seriamente envolvido e teve que responder a processos e submeter-se a outras implicações judiciais. E isso tudo por razões muito simples: Jayme jamais "abrira" o seu anonimato pessoal a quem quer que fosse e, além do mais, os companheiros de A.A. tomaram a si a erradíssima decisão de fazê-lo indevidamente por Jayme, desrespeitando a princípios de nossa Irmandade. E o resultado de tudo isso é que, depois de longa querela jurídica, após o envolvimento de dezenas de pessoas e até mesmo dos próprios membros de A.A., aquele "estranho" indivíduo ganhou a questão e naturalmente, graças ao A.A., que nada tinha a ver com isso, foi também incluído como herdeiro natural de Jayme, mas que havia sido "propositalmente excluído" de entre os beneficiários daquele "ingrato" e falecido pai. Aquela cerimônia simples, bem intencionada, oficiada por companheiros de A.A., mas totalmente desprovida dos conhecimentos dos princípios de nossa Irmandade, foi a responsável por toda aquela parafernália em torno do cadáver de Jayme. O anonimato de um companheiro nosso falecido, havia sido "aberto", sem o seu prévio consentimento e muito menos do de sua esposa e/ou de seus familiares,
Daí, depois dessa "hipotética história" (?) chegamos às seguintes conclusões sobre o Anonimato nas cerimônias fúnebres de membros de Alcoólicos Anônimos falecidos:
a) Devemos tomar certas precauções e evitar "abrir' o anonimato pessoal de companheiros nossos, falecidos, diante das pessoas presentes ao seu funeral, já que não sabemos se todos estão a par de sua condição de membro da Irmandade, alcoólatra, portanto. Por via das dúvidas, devemos consultar sempre os seus familiares sobre essa condição e pedir-lhes permissão para citá-lo, caso queiramos fazer algum NECROLOGIO que possa identificá-lo como membro de A.A. Em resumo, o anonimato de companheiros nossos, falecidos, deve ser tanto ou até mais respeitado que o dos companheiros vivos.
b) Quando da remessa de coroas de flores, devemos evitar quaisquer referências nas mesmas à participação do falecido ao programa de A.A., a não ser com o prévio consentimento da família ou cumprindo vontade expressa em vida, pelo companheiro falecido. Por via das dúvidas, por que não remetê-las simples, sentidas e saudosas, sem nenhuma referência ao nome de A.A. ou de Alcoólicos Anônimos, como o fazem as outras pessoas de seu relacionamento?