DP - O caminhão basculante

Para este então jovem, uma ultrapassagem de risco levou a um despertar espiritual e à Irmandade de Alcoólicos Anônimos

Cheguei em Alcoólicos Anônimos aos 27 anos de idade, me sentindo totalmente falido em todas as áreas de minha vida. Aos 14 anos de idade me foi estendido um “tapete vermelho”, ingressei em uma multinacional como mensageiro em uma indústria química em São Paulo. Logo quando recebi o meu primeiro salário, fui convidado pelos outros mensageiros a ir comemorar no bar do Sr. João. Que maravilha – cerveja, caipirinha, tira-gosto, tudo do bom e do melhor. 

Com o passar de algum tempo (aos 15 anos) já comecei a ter contato com outras drogas. Passei a não fazer mais parte do time de futebol dos mensageiros e sim da torcida que não assistia aos jogos, pois na maioria das vezes eu estava no bar do campo, de costas para o jogo, ou nas redondezas, usando drogas. Comecei a ter problemas na escola, sempre buscava transferências para outras escolas, achando que fosse resolver o problema, só que a cada nova escola, encontrava novas amizades que gostavam de se reunir no bar para tomar cerveja antes da aula. 

Aos 20 anos pedi transferência para a filial da empresa no Rio de Janeiro (fuga geográfica) tentando melhorar minha situação, pois via que se continuasse em São Paulo, poderia acabar morrendo ou sendo preso. No meio em que eu vivia o final era esse: prisão, instituição e morte. Ao chegar ao Rio, fiquei de vara curta por algum tempo; mas logo estava enturmado com o pessoal da pesada e os problemas continuaram. Cheguei a ingressar numa faculdade, mas não consegui concluir, pois os bares e bocas eram tentadores e era muito difícil conseguir entrar na escola ou ir para o trabalho sem usar qualquer substância que alterasse meu ânimo ou minha mente. Cheguei ao ponto em que vivia para usar drogas e usava drogas para viver.

Em julho de 1989, quando completei 11 anos de empresa, fui demitido por participar de um movimento grevista. Não demorou muito para eu trancar a matrícula da faculdade e mandar ver a indenização, curtindo a vida adoidado. Infelizmente, o dinheiro acabou e me vi envolvido com pessoas que acabavam morrendo de forma trágica, pelo simples fato de usarem drogas e cometerem pequenos delitos.

No final do ano de 1990 (novembro), meu pai mandou meu irmão mais velho ir ao Rio pedir para eu voltar para São Paulo, pois lá existia trabalho, casa, comida e roupa lavada; consegui quebrar a barreira do orgulho e retornei para a casa de meus pais. Eu me identifico com a passagem do filho pródigo, que tem uma família a recebê-lo com todo amor e carinho, sem julgá-lo. No início, ainda continuava me envolvendo com colegas da antiga que frequentavam os barzinhos e as biqueiras.

No dia 08 de julho de 1991, acredito que tive meu despertar espiritual, ao tentar ultrapassar um ônibus e me ver de frente a um caminhão basculante. Naquele momento voltei para traz do ônibus e comecei a refletir sobre o que estava havendo comigo. Ao chegar em casa, fiz uma reflexão sobre minha maneira de viver e confesso que resolvi tomar a decisão de procurar a Irmandade de Alcoólicos Anônimos. 

Na segunda-feira pela manhã fui a uma instituição de recuperação me informar sobre grupos de Alcoólicos Anônimos na região de Santo Amaro e me foi fornecido o endereço do extinto Grupo Jardim das Imbuias, onde ingressei em 14 de Julho de 1991 e fui muito bem recebido pelos companheiros que lá se encontravam. 

Após três meses em recuperação fui convidado para ser o RI (antigo Representante Intergrupal) do Grupo e aceitei de pronto, pois havia escutado umas frases que me acompanham até os dias de hoje: “ Quem não vive para servir, não serve para viver”; “Dificilmente vemos recair quem se envolve com o serviço da Irmandade”. Com a gratidão que tenho por Alcoólicos Anônimos, venho praticando o legado do serviço até os dias atuais. Hoje moro na cidade de Resende, no Rio de Janeiro e sirvo no Grupo Reviver como coordenador da reunião de sábado. Aqueles que quiserem tomar um cafezinho conosco serão bem vindos.

Revista Vivência nº 146