DP - O despertar espiritual de um agnóstico

Quando voltei para A.A. em 1987, estava muito hostil. Já havia saído duas vezes. Estava convencido de que os Doze Passos, exceto o primeiro, não eram para mim Eu era muito intelectual, muito firme em meu agnosticismo, para qualquer experiência espiritual. Eu ainda não diferenciava “despertar espiritual” com “ torna-se religioso” e acreditava cegamente que eu preferiria morrer na sarjeta a ter uma religião. Meus dois encontros anteriores com A.A., o primeiro em 1976 e o segundo em 1983, tinham me dado o período de permanência de seis semanas no programa. Tinha ouvido tudo o que tinham a me dizer e pensei sobre a espiritualidade e o Poder Superior. Eu tinha lido o Capitulo IV  e o anexo II. Eu não estava impressionado. A observação de Herbert Spencer sobre desprezo antes da investigação foi, concordei, muito correta. Mas eu tinha investigado. Eu até tinha praticado um pouco diferentes religiões em momento ou outro, antes de decidir que nenhuma delas era para mim. Ainda assim, mantive um interesse intelectual no assunto. Eu buscava encontrar algo como tornar-me um cientista amador, e, neste sentido, o tema da evolução da humanidade estava entre meus interesses especiais. Obviamente, crenças religiosas e seu desenvolvimento ao longo dos tempos foram uma parte  importante da própria história da humanidade. Ainda assim, como muitos intelectuais, senti que era uma questão de tempo até que todos superassem tais ideias, caso apenas a nossa civilização de alta tecnologia sobrevivesse. Não importa quanto os teólogos vestissem a religião de uma linguagem moderna, para mim, a religião continuava sendo uma superstição. O que Bill W. tinha a dizer em “ nós, os agnósticos” não era novidade para mim. Eu havia encontrado os seus argumentos, e outros muito mais sofisticados, tentando defender a lógica de acreditar em um Poder Superior. Eu tinha pesado todos os argumentos, e encontrava-me ainda sem acreditar. Recuei e saí de A.A. nas duas primeiras vezes, porque não tinha sofrido o suficiente. Ainda assim, tive mais sorte do que a maioria. Mesmo o meu terceiro fundo de poço tendo sido bastante doloroso. Meu trabalho ainda era seguro. Nem mesmo tinha sido parado quando dirigia bêbado. Minha saúde física estava bem. Mas eu estava com dor emocional suficiente para ficar desesperado, e eu havia me convencido, finalmente, e totalmente que se continuasse bebendo iria piorar. Embora estivesse ainda mais convencido de que nunca poderia dar o Segundo Passo, ou qualquer outro, eu voltei para as reuniões, sabendo que se eu não ganhasse mais nada da Irmandade, pelo menos A.A. me ajudaria a ficar longe do
primeiro gole. Pensei que seria o suficiente, que se pudesse ficar sóbrio, eu poderia controlar a minha própria vida. Demorou cerca de um mês para perceber que eu não tinha acabado de dar  o Primeiro Passo; que mesmo sem beber minha vida ainda seria incontrolável, até que superei minha singularidade terminal e encontrei uma maneira de fazer
funcionar o programa. E, nessa fase, fase na qual comecei a adquirir um pouco de boa vontade, foi revelado um caminho: um caminho para acreditar em um poder maior do que eu sem prejudicar qualquer princípio fundamental no qual meu agnosticismo se baseava. Mesmo agora, após mais de dois anos de sobriedade feliz, não consigo explicar sobre o meu Poder Superior ou como funciona na minha vida em um artigo pequeno no Grapivine. Não é o Deus das igrejas ou dos teólogos. Ainda sou agnóstico e existem algumas partes do Capitulo Quatro que ainda reluto em incentivar um recém-chegado à leitura. Mas descobri que o programa funciona para quem se entrega. Eu não tinha que encontrar uma maneira de fazê-lo funcionar. Funcionará perfeitamente se eu permitir, desde que esteja disposto a fazer minha parte. A primeira coisa que eu tinha qu fazer era parar de debater. Isso não significa que comecei a concordar com tudo o que ouvia. Significa apenas que eu ouvia sem discutir, usava o que podia, e arquivava o resto para referência futura. A segunda coisa que fiz foi torna-me um membro ativo do meu grupo base, que era também o grupo do meu padrinho. (Já tinha escolhido um padrinho). Sabia que algo deveria ser feito o mais rápido possível. Vi que tudo aquilo em que a espiritualidade pode consistir, teve que incluir o ser de máxima utilidade para meus companheiros alcoólicos, pois eles ainda estavam sofrendo. Uma vez feitas essas duas coisas, todas as perguntas foram respondidas. Todas as promessas contídas no livro Alcoólicos Anônimos tornaram-se realidade em minha vida, especialmente aquela que diz que antes de chegarmos à metade do caminho já estaríamos surpresos com as mudanças. Pode ser que o meu
Poder Superior seja a mesma coisa que o resto de vocês chama de Deus. Não sei. Por essa razão que ainda me considero agnóstico. Durante uma discussão, às vezes vou  chama-lo de “ Deus”  em vez de “ Poder Superior”, apenas para manter a simplicidade. Seja o que for. Do que você ou eu o chamarmos., ele funciona, assim como o livro A.A. diz, se estamos de mente aberta. Não vejo outra forma de ter tido esse despertar espiritual se não tivesse sido conduzido
para os braços da Irmandade, por meio do alcoolismo. Sei que muitas pessoas que não são alcoólicas passaram por isso, mas não acredito que eu teria tido esta oportunidade se estivesse sido um bebedor normal. Então, sou grato, hoje, não só pela minha recuperação, mas pela doença da qual estou me recuperando. A descoberta do Poder Superior, com o qual posso contar na minha vida, valeu cada momento do inferno que passei para chegar na minha fase atual. ( Gostaria qu não houvesse a necessidade dos outros passarem esse inferno comigo, mas a única coisa que posso fazer agora é reparar sempre que for possível). Todas as vezes que entrei, vocês diziam que poderia vivenciar bênçãos que iriam muito além dos  meus sonhos mais ousados. Na época eu pensava: Essas pessoas não sabem o quanto eu sonho! Mas, assim como tudo que me disseram, era verdade. Apesar das bênçãos materiais serem menores do que eu desejasse, a minha vida de hoje, é certamente muito mais rica do que eu poderia ter sonhado. E realmente não demorou muito para acontecer. Apenas um pouco de honestidade, para terminar de dar o Primeiro Passo, então um pouco de mente aberta, para começar o Segundo Passo, e um pouco de boa vontade para seguir como resto do programa.

Flórida.