DP - O Fusca Azul

O Fusca azul

"Logo no primeiro dia, o da abordagem, entra em minha vida um fusca azul, o qual marcou muito minha recuperação em A.A."

Dizer a quantia que bebi e quanta desgraça causei a mim, a meus familiares e amigos, seria até desnecessário, mas não o que sucedeu após meu ingresso em 
Alcoólicos Anônimos.

Logo no primeiro dia, o da abordagem, entra em minha vida um fusca azul, o qual marcou muito minha recuperação em A.A. O fusca azul era de propriedade daquele que veio a ser o meu padrinho em A.A, que chamarei carinhosamente apenas pelas letras iniciais MG.

No inicio do inverno de 1983, estava dentro de minha casa, quando ouvi na rua um "bibi-bibi"; era a buzina de um carro, um fusca da cor azul e dentro dele estava MG. Atendi-o prontamente e ele foi logo me fazendo uma abordagem à sua maneira; me mostrando qual seria a grande vantagem em parar de beber, e também freqüentar um grupo de A.A. Aceitei o seu convite e fui conhecer a Irmandade, freqüentando por algumas semanas só para fazer média com minha família e meus patrões, pois minha idéia era que eles pensassem que eu estava mudando, ou seja, bebendo moderadamente.

Nesse tempo, na saída das reuniões, eu não aceitava carona de meu padrinho ou de outro companheiro que porventura se prontificasse a me levar para casa, pois no trajeto havia alguns bares. Participei de algumas reuniões e disse a MG que não me procurasse por algum tempo; tempo este o suficiente para que os patrões me vissem com literatura e cartões de A.A. E eu pensava: agora eu readquiro a confiança deles, pois pensam que realmente parei de beber.

Passaram-se algumas semanas até que a situação ficou insuportável e eu agora queria mesmo deixar a bebida de lado. Era 09 de agosto de 1983, à tarde. Minha esposa ligou para MG e disse: - Chegou a hora, venha nos ajudar, pois hoje ele jogou a toalha.

As reuniões tinham início às 20 horas e, aproximadamente às 19h30, ouço "bibi-bibi": era MG, com seu imponente fusca azul a me buscar para que definitivamente eu ingressasse em A.A. Foi realmente o que aconteceu, mas o mais interessante estava para acontecer. No dia seguinte às 11 horas, quando eu saía do serviço para o almoço, por incrível que pareça, ouço do outro lado da rua "bibi-bibi"; era novamente o fusca azul e seu parceiro inseparável me oferecendo uma carona. 

Dizia ele que tinha um negócio pelos lados da minha casa e por "mera coincidência" ele passou por ali. À tarde, quando saí do serviço novamente, uma fantástica coincidência: "bibi¬bibi", o MG tinha um outro serviço perto da minha casa e estava me oferecendo uma carona.

Claro que não eram coincidências! MG não queria que eu parasse no bar e todas as noites ele ligava: - Está pronto, companheiro? Já estou indo buscá-lo. Minha esposa dava todo apoio, e quando era noite de reunião de Al-Anon, ela também ia no já famoso fusca azul.

Quanto às coincidências, na saída do serviço elas diminuíram com o passar do tempo, mas as buscas para as reuniões continuaram por semanas, até que eu me firmei e admiti o primeiro passo, bem como passei a trabalhar por A.A.. Passados alguns anos, o fusca azul foi vendido e MG, como todo bom AA, logo apareceu com um carro mais novo, mas mesmo assim não me deixava "sossegado", continuava a me buscar todas as noites (agora sem o fusca azul), mas de carro novo, até que chegou o dia que eu consegui também comprar o meu carro. 

Aí, foi um prato cheio para MG para que eu não faltasse às reuniões: ele, com uma mentira construtiva, dizia: - Hoje estou sem carro, você me apanha para irmos à reunião? Uma bela desculpa quando ele não queria que eu faltasse à reunião.

Como na vida tudo é passageiro, depois de alguns anos de convivência com o meu padrinho, infelizmente chegou o dia do inevitável; já com a idade avançada e com a saúde debilitada, MG veio a falecer, levando consigo a humildade que DEUS lhe deu e deixando com todos nós da região uma inesquecível saudade.

Vez por outra nos encontramos, os afilhados de MG, que são muitos por sinal, e vem logo à nossa mente a extraordinária figura de MG, e também o sempre inesquecível fusca azul. Mesmo passado tanto tempo, quando vejo na rua um carro com as mesmas características do nosso valente fusca azul, logo me vem à mente muitas lembranças e sempre positivas, nas quais me apoio para que com a ajuda do Poder Superior continue a alimentar a minha sobriedade.

Todos os dias agradeço a ELE por haver colocado A.A. em minha vida e também o fusca azul com o seu saudoso e alegre condutor.


Vivência n° 96 -  Jul/Ago. 2005