Artigos - O Grupo - Mudança na Matriz > RV. 19

     DR. LAIS MARQUES DA SILVA, médico.

Presidente da Junta de Serviços Gerais de

Alcoólicos Anônimos do Brasil 

            Este é o tema da XVI Conferência a realizar-se em Brasília, de 12 a 16 de abril de 1992. Foi colocado para um ano de estudo e reflexão para cada um dos membros de Alcoólicos Anônimos. Digo cada um porque me refiro aos membros da Irmandade individualmente, de "per si". Um ano parece muito tempo mas, na realidade, não o é diante de tema tão forte e de tanta densidade.

            A mudança sugerida se dirige à Matriz, ao Grupo, a unidade mais importante porque formadora, fonte e origem de tudo o que ocorre na Irmandade de A.A., mas também repositório das nossas melhores expectativas na convicção da grandeza, da riqueza e do imenso potencial de crescimento humano contido no Programa de Recuperação de A.A.. Nisto está o fundamento para uma análise crítica, pois colocamos, lado a lado, tanto uma avaliação da realidade atual dos nossos grupos quanto o grande potencial de crescimento dos seus membros que eles, os grupos, encerram.

            Não se trata de reforma física do prédio onde se realizam as reuniões nem da aquisição de novo mobiliário. Falando em Matriz, referimo-nos ao grupo: a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação. A ideia de mudança no grupo conduz, necessariamente, à transformação de cada um dos seus membros. A mudança se dirige às pessoas e para elas está voltado o Programa de Recuperação e exatamente elas é que deverão ser exemplos vivos, verdadeiros modelos que, em consequência, induzirão nova forma de estruturar uma nova dinâmica de recuperação. Não se pretende mudar o A.A.. A Conferência apenas deseja o reencontro com o verdadeiro programa de A.A.. O A.A. não precisa ser mudado. O programa é que precisa ser feito. Quem precisa mudar somos nós e não o mundo que nos cerca. A recuperação se dirige ao alcoólico e a mudança a ocorrer à sua volta será decorrência da sua própria mudança. Este tema responde a uma necessidade e/ou uma expectativa de melhora, em face da riqueza do Programa de Recuperação, dos Princípios e das Tradições de A.A..

            Agimos por atração. Há considerável esforço em levar à sociedade e à comunidade profissional informações relativas à Irmandade e ao que ela oferece àqueles que sofrem no alcoolismo.

            Muitos dos que chegam ao grupo não permanecem nele porque, para eles, o grupo não é atraente, não está ao nível das suas necessidades ou expectativas ou se mostra pouco aderente. É válido indagar: como estão os nossos depoimentos? Como estamos fazendo o nosso Programa de Recuperação? O que se está passando nos grupos de A.A. nos dias de hoje?

            É frequente observar, especialmente entre os mais antigos, que vários deles estejam fazendo exatamente os mesmos depoimentos ao longo dos anos, centrados, ainda, no Primeiro Passo. Descobrindo serem impotentes diante do álcool, passaram a relatar o que faziam quando estavam alcoolizados. Não fazem o mesmo em relação ao que estão fazendo hoje, sem o álcool. Muitas vezes, apenas parando com o álcool e não progredindo no programa, o alcoólico permanece o mesmo prepotente, dono da verdade, pisando nos familiares e companheiros. Aí ficam as vaidades, os orgulhos e os narcisismos não tratados e tudo isso entra como elementos desencadeadores de comportamentos pouco sadios e geradores de tantos problemas. Não esperamos navegar em mar de calmaria. Entre nós se encontram pessoas em diferentes estágios de recuperação. Alguns ainda estão muito mal. Espera-se, sim, que haja progresso, que se evolua no Programa de Recuperação de A.A., que não precisa ser mudado porque é muito bom mas precisa ser feito por cada membro da Irmandade, por cada um de nós.

            Entende-se haver grande alegria quando, ao fazer o Primeiro Passo e parar de beber, o alcoólico fica maravilhado diante de si e do mundo que o cerca. Era tudo o que ele queria e por tanto tempo não conseguira. É um renascimento. Tudo isso é maravilhoso. Mas nascer é um ato singular; crescer é processo contínuo. O crescimento sucede ao nascimento. Muitas vezes, esses companheiros não estão dispostos a fazer os outros Passos e aí param de beber, mas não acrescentam nada de novo às suas vidas e, como consequência, não há crescimento e tudo se reduz em repetir e repetir os seus depoimentos. O lema para muitos companheiros é: aqui estou, aqui fico. Mas este lema pode ser para eles os seus epitáfios. Quanto à Recuperação e aos Passos, fazem depoimentos pobres e, se ficarem nesse estágio, o grupo se reduz a uma mesmice que não motiva as pessoas a permanecerem nele. Essas pessoas gostam e se beneficiam desses depoimentos a princípio, mas depois perdem, pela repetição e pela pobreza, o interesse.

            Esses depoimentos ligados ao Primeiro Passo são importantes, geram identificação para os recém-chegados. A verdade daquele que o faz contribui para a honestidade de cada membro do grupo e, também este, o grupo, auxilia o depoente na busca da própria honestidade e sanidade. O problema não está nisso, mas em ficar só nisso; está na inexistência de um trabalho de reformulação pessoal. A Irmandade distingue e enfatiza duas condições diferentes: sobriedade e serenidade. É preciso evitar o primeiro gole a cada 24 horas e estar sóbrio para ver a si mesmo e o mundo com olhos claros, límpidos, sem a névoa do álcool, mas é preciso, também, caminhar no Programa de Recuperação e alcançar a serenidade, a paz traduzida em nova condição de equilíbrio mental, na capacidade de estabelecer prioridades e no aprendizado da conceituação de valores, o que habilita o companheiro a viver sem esquentar fora da justa medida, sem correr o perigo das recaídas. A maioria se recupera com o programa de A..A., mas há outros, portadores de patologias concomitantes com o alcoolismo, necessitados de tratamento especializado e que a Irmandade de A.A. não oferece. Nessas casos, os cuidados dos profissionais da área da saúde deverão ser procurados.

            O depoimento ligado ao Primeiro Passo, muitas vezes, ao longo dos anos, vai sendo retocado e, aí, já não vale mais porque não é honesto e porque sendo incompleto, não atinge a finalidade do desabafo catártico. Depoimento indolor não acrescenta, não contribui para a recuperação e, depois de muito repetido, acaba decorado também pelos demais companheiros do grupo. Mas não é esse o único perigo. Se existirem muitos companheiros do grupo nessa situação, pode ocorrer que, movidos pela vaidade, se estabeleça um "campeonato de desgraças" e, com este campeonato, pode até ocorrer que os mais inibidos e os novatos não encontrem oportunidade de falar.

            O assunto é tanto delicado quanto complexo e há sempre novos ângulos a abordar. Relatar o que se fez há muitos anos é muito pouco. Daquele que ficou anos sem beber e ainda frequenta os grupos de A.A. espera-se um relato do que fez ultimamente em função do crescimento pessoal dentro do programa de A.A.. Importa apreciar o progresso alcançado ao fazer cada um dos Passos. Esse relato é importante. Pode constituir exemplo vivo de recuperação, com grande possibilidade de ser seguido porque não é preciso ser letrado para ver e entender o que é oferecido como exemplo. O programa precisa ser praticado para que sejamos o exemplo vivo. É preciso estudar o programa para aplicar em nós o que aprendemos, porque, se tudo isso for feito apenas para os outros, valerá, então a máxima de que "quem sabe faz e quem não sabe ensina".

            É muito frequente observar que o Primeiro e o Décimo Segundo Passos sejam feitos por todos os membros de A.A. e, deste último, apenas a primeira parte. Mas o programa é de 12 Passos, o tesouro está em todo o conjunto e o crescimento depende de se fazer todos os 12 e não em sobrevoar os 10 do meio.

            As recaídas são um fato observado com frequência. Ignoramos, na quase totalidade dos casos, as suas causas e mecanismos mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial à recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo.

            Voltar ao mesmo grupo, muitas vezes deficiente nos 12 Passos, nada vai acrescentar. Eles já estiveram lá antes, sem alcançar a sobriedade e a serenidade. As recaídas nos levam a pensar nos nossos grupos, em como está a nossa Matriz. Quais são os companheiros com tendência à recaída e quais as causas? Será que para eles não há alternativa, a não ser beber e beber? Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as habituais explicações: "não havia chegado ao fundo do posso", "não estava pronto", "não estava motivado", "não fez o que eu aconselhei", "recaiu porque não frequentava o grupo"? Será que o grupo se detém sobre o Programa de Recuperação de A.A.? Será que o grupo está bem estruturado e em condições de receber esse tipo de doente grave? Será que o grupo é realmente harmônico e composto de irmãos que veem nas diferenças não uma causa para conflito mas um estímulo ao crescimento?

            Os recaídos são doentes graves, envolvidos numa rede de equívocos. Eles se acham culpados e desamparados e esses sentimentos reforçam a recaída. Muitas vezes sentem não ter outra saída senão o colapso emocional, a loucura, o suicídio ou simplesmente voltar a beber e, aí, beber pode parecer até a escolha mais sensata. É preciso evitar também, em relação a esses doentes, que os grupos desenvolvem uma atitude preconceituosa, um  estigma.

            Os grupos devem compreender que a doença do alcoolismo tem um modo de agir sobre o alcoólico na ativa, e acerca disso todos os seus membros têm uma visão clara, mas também atentar para o fato, cada vez mais evidente, de que a doença do alcoolismo, também, tem um modo de atuar durante a sobriedade -ela é uma doença crônica e incurável- e esta ação é  tão potencialmente destrutiva quanto seu modo de atuar na fase ativa.

            A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle. É necessário ajuda imediata quando o companheiro percebe que a cabeça está esquentando. Os padrinhos devem estar atentos para o aparecimento das manifestações usualmente surgidas nos companheiros que recaem e aumentar os cuidados e atenções para evitar a recaída. Aqui também é necessário pensar no papel do padrinho e avaliar como ele vem sendo desempenhado.

            Graças ao trabalho e à dedicação dos pioneiros de A.A. do Brasil, e dos mais antigos, foi possível abrir e manter em funcionamento milhares de grupos com todos os benefícios daí resultantes para os alcoólicos, ainda que tenham ficado exatamente como tudo começou: um alcoólico conversando com outro. Dos veteranos, ouvi muitas vezes o relato entusiasmado de como o A.A. do Brasil progrediu com o advento da literatura e a criação do Claab. Esperamos que hoje fenômeno semelhante esteja ocorrendo em função da análise crítica acerca de como está sendo realizado o nosso Programa de Recuperação sugerida no tema adotado pela Conferência de 1991 e que, em função dela, se abra novo e amplo horizonte para os sofredores dessa doença em nosso País.

            Espero que todos se detenham e reflitam sobre o tema; que levem suas dúvidas e conclusões  aos Delegados de Área e que eles, representando a consciência coletiva dos grupos, possam contribuir para a grandeza, para uma dimensão maior a ser alcançada na XVI Conferência de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil.

Vivência nº19 Jan/fev/Mar 1992