DP - O inferno era o quarto e o banheiro

Mulheres alcoólicas às vezes bebem em casa e longe do olhar dos familiares. Felizmente, um despertar espiritual pode ocorrer em qualquer lugar!

Sou Salete, uma alcoólica em recuperação, uma ex-bêbada e só por hoje não bebi. Faz 16 anos que estou sem beber! Quando pedi ajuda a A.A., tinha 42 anos de idade.

Fui criada e educada para ser esposa e mãe, não para ser uma provedora do lar. Comecei a beber álcool no suco da dieta... era mais sutil!

Era muito respeitada pela família e amigos; Era um ícone familiar, por isso não podia chorar e ter sentimento de fraqueza. Tive que enfrentar preconceitos...

Na medida em que colocava a roupa do meu marido, também aumentava o teor alcoólico na minha vida! Primeiro botei a camisa, depois a gravata. As ceroulas, as calças, o cinto, as meias e, quando tive que, inevitavelmente, pôr os sapatos, eu já estava no auge alcoólico!

Bum! Virei uma provedora na marra: porque meu marido já era um alcoólico desde garoto! O alcoolismo do pai, meus filhos viram, mas o da mãe, não! Nessa época, meus filhos já tinham saído para a cidade a fim de estudar e trabalhar. Foi fácil eu esconder! O que me traía eram as minhas atitudes pós-porres.

Consegui beber no anonimato total. O álcool me manipulava e eu manipulava as pessoas. Trabalhava no verão e tirava férias no inverno! Fiz do meu quarto e do meu banheiro o meu verdadeiro inferno! Tomava bebida alcoólica com canudinho, não suportava o gosto... só o efeito!     

Meu quarto era um santuário cheio de rituais que só eu conhecia. Bebia, escutava música clássica e lia muitos livros de trás pra frente. Brigava muito com Deus! Tinha muitas latinhas e garrafas com canudinhos e muitos, muitos livros empilhados por cima de tudo, até no chão! Lia tudo ao contrário.

No banheiro fazia minhas refeições, pensava que cozinhava meus alimentos, mas eu os comia crus! Fazia minhas refeições sentada no vaso sanitário. No box do banheiro tinha latas e garrafas de bebida alcoólica, com canudinho. Eu bebia debaixo do chuveiro. O ato de usar canudinho era para neutralizar o gosto e acelerar, em pontos estratégicos do banheiro e do quarto.

Fiz do álcool a minha paixão, meu rei, meu deus, meu tudo! A sensação que o álcool me causava era de um êxtase pleno! Foram muitos anos caminhando para a insanidade. Quase sem volta. Bebia e vigiava para que ninguém desconfiasse.
    
Quando eu estava com a falada “ressaca“ ou abstinência era outra pessoa! Minhas atitudes comportamentais eram visíveis, como por exemplo: era extremamente fria; tolerância zero; soberba, orgulho, prepotência e arrogância, 100%; humildade nem pensar! Imagina, eu era uma profissional competente, respeitada por todos. Bebia com meu dinheiro, não pedia nada a ninguém e achava que podia parar quando quisesse.

Mas não foi assim que aconteceu. Estava perdendo totalmente o domínio da minha vida e das minhas atitudes! Tive um lapso de um despertar espiritual. Nesse dia acordei e ainda estava enrolada em toalhas de banho. Entrei no banheiro e vi claramente toda a situação real. Além da bagunça normal, pela primeira vez eu vi a louça na tampa do vaso sanitário com alimentos crus: carne, ovo cru com casca, arroz e outros. Para mim foi uma cena de horror. Me olhei no espelho, eu estava com o rosto inchado e manchado, fiquei em estado de choque e horrorizada. Nunca tinha notado que já estava neste nível!

Naquele momento, algo sobrenatural me deu esta clareza e me disse: — “Olha o que você está fazendo com a sua vida! É isso que você quer?” 

Tive uma crise de choro por 3 horas seguidas, parecia que ia morrer, não conseguia parar. Quando consegui controlar o choro, quis ajuda. Lembrei que em alguma ocasião, ao ver TV, vi uma divulgação de A.A. e um número de telefone. Passei duas vezes na frente do Grupo próximo, na terceira vez entrei, dei uma olhada e saí para voltar pra casa. Quando estava na calçada, alguém saiu lá de dentro e disse: — “Volte, você é a pessoa mais importante para nós!”

Pensei ... eu, importante? Eu sou o lixo da sociedade e estão dizendo que sou importante? Duas coisas me atraíram até a sala: Alcoólicos Anônimos e “você é a pessoa mais importante para nós”.

A partir daí, ao me tornar membro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos, onde o único requisito era querer parar de beber, passei a ter um espírito livre! Hoje, sem beber, tenho algum domínio da minha vida. Resgatei as rédeas das minhas atitudes e comportamentos.

Em A.A. e sem beber, posso até errar, mas com o direito de acertar sem ser julgada ou condenada. Tento trabalhar meus defeitos de caráter. O mais importante nestes resgates foi eu passar a acreditar em Deus, como O entendo. Hoje O trato com respeito e carinho, faço d’Ele meu melhor e único amigo.

Quando estou triste tenho os Doze Passos. Quando vejo a coisa feia, tenho as Doze Tradições. Quando tenho duvidas, tenho a literatura! Quando me sinto em perigo, tenho a Oração da Serenidade! Meu amor pelo Poder Superior, que para mim é Deus, se tornou incondicional!

Fiquei com algumas sequelas? Sim... fiquei: viver com uma agenda e ter um cronograma todos os dias para minhas atividades diárias! Mas, com a alegria da certeza de hoje ser uma pessoa bem melhor!
Hoje sei que o alcoolismo é doença sem cura. Mas também sei que posso estacioná-la, e evitar o primeiro gole. Este é A.A.

Revista Vivência nº 149