Artigos - Mistérios do livro azul

"Em todas as partes, o Livro Azul tem um acento de realidade, e está escrito com inteligência e técnicas inusitadas..." (Harry Emerson Fosdick)


 Alguns membros de A.A. expressam sua opinião de que o livro Alcoólicos Anônimos pode ser suficientemente compreendido com a primeira leitura, e que contém pouco ou nada digno de ser repassado posteriormente, quer para referências ou mesmo para estudos. Isso pode valer para pessoas com o dom de compreensão instantânea e a capacidade de lembrar-se totalmente.

 Contudo, existem advogados não-alcoólicos muito capazes, que sempre voltam aos livros básicos da sua profissão. O mesmo acontece com engenheiros, navegadores, editores e cirurgiões. Será possível que o cérebro do alcoólico, até há pouco tempo confuso e deteriorado pela desnutrição, pelo ressentimento, pela ansiedade e por convicções desastrosas, possa reter permanentemente os pontos essenciais de um volume que tem tantas páginas, com uma só leitura.

 Uma coisa é certa: Eu não tenho capacidade de aprendizagem tão poderosa. Freqüentemente, preciso reler pontos do nosso Livro Azul. E, tal como acontece com outros companheiros, geralmente tenho a impressão de que "foram feitas mudanças" no texto desde a minha última leitura e frases inteiras foram "acrescentadas", significados foram "alterados" e partes do texto que me lembro com clareza, "desapareceram" sem deixar rastro.

 Para isso, encontro duas possíveis explicações:

 1) Quando estou dormindo, duendes entram em minha casa e mudam o livro, usando pequeníssimos computadores e impressoras, chegando ao ponto de duplicar as anotações à mão que eu mesmo fiz três meses antes, nas margens das páginas.

 2) Ou então, minha memória é falível (se eu consegui adquirir a minha sanidade, como o Livro Azul promete no Segundo Passo, e se o programa está dando a mim algum progresso espiritual) e, na realidade, o que acontece é que eu vou percebendo significados novos que me escaparam na leitura anterior.

 A teoria dos duendes tem o seu atrativo, afinal, é mais "fácil" para o meu ego acreditar neles do que na possibilidade de que eu esteja errado. Nesse caso, além de brincalhões, esses duendes são também muito benevolentes, pois até agora todas as "mudanças" feita no livro foram úteis para mim. E "eles" parecem fazer mudanças idênticas nos livros dos demais companheiros, que também falam de novos significados que perceberam no texto dos seus livros...

 Na verdade, além da necessidade de corrigir a minha própria memória errática, existe outra razão pela qual devo reler ocasionalmente o Livro Azul: é que às vezes ouço afirmações de membros de A.A. que me confundem. Por exemplo, na nossa região, escutamos com freqüência que "não existem obrigações em A.A."

 Evidentemente, tais oradores têm uma cópia do Livro Azul que não foi revisada pelos duendes, porque, através de todo o meu exemplar do livro, eu encontro obrigações, às vezes três ou quatro numa só página. Aqui estão algumas delas, e os grífos são meus:

 - "Devemos buscar uma base espiritual da vida..."

 - Se estamos planejando deixar de beber, não deve haver reservas de nenhuma classe, nem a menor noção de que algum dia seremos imunes ao álcool."

 - "Sobretudo, nós os alcoólicos devemos nos libertar desse egoísmo. Devemos fazê-lo ou o egoísmo nos matará."

 - "Devemos estar dispostos a fazer reparos..."

 - "Esses sentimentos devem ser controlados..."

 - "Pedimos que nos dê força e orientação para fazer o mais correto, sem nos importar com as conseqüências pessoais que se derivam disso... Não devemos nos atemorizar por nada..."

 Essas são somente algumas amostras da grande quantidade de deveres contidos no Livro Azul. Além disso, existem nele centenas de frases que contém palavras como: "absolutamente"; "essencial"; "necessariamente"; "indispensável"; "completamente"; "conscientemente" e "sem falta". São palavras que significam obrigações para qualquer mente que não esteja procurando uma brecha para escapar.

 É verdade que essas obrigações não são forçadas para o recém-chegado e nem impostas pelos membros antigos de A.A., nem por nenhuma lei ou regulamento feitos pelo homem. Nesse sentido, não existe mesmo nenhuma obrigação; nós alcoólicos temos a liberdade de beber e a liberdade de descartar totalmente os Doze Passos. Se o fizermos, ninguém nos imporá multas e nem nos expulsará da Irmandade. O "máximo" que poderá nos acontecer, é chegar a enlouquecer ou morrer... 


(Revista Vivência 066 - Jul/Ago 2000)