Artigos - O Óbolo da Viúva > Rv.037

A Sétima Tradição encerra toda a sua beleza e grandiosidade ao constituir o momento em que o material e o espiritual se fundem, sob o manto da gratidão e da responsabilidade. 
         
       Venho  levantando  constantes  questionamentos sobre a maneira  de  como  tenho  posto  em  prática  a gratidão por Alcoólicos  Anônimos,  em  razão  de  haver  sido  salvo  da ruína   mais  fragorosa,  representada  pelo  falecimento  da aceitação  de  mim mesmo como pessoa. Revejo as tarefas que  tenho  executado  como  servidor  e,  principalmente, o apoio  financeiro   à  Irmandade,  em  atendimento  à  nossa Sétima Tradição.          
       Nesse  cogitar, reconheço, em  autocrítica,  que  venho contribuindo  financeiramente  com  o  meu  grupo e com os órgãos    de   serviço.    A    situação    está     muito    difícil, notadamente para  aqueles, como  eu, pertencente à classe dos assalariados. No  entanto, quando  me  recordo de uma passagem    bíblica,   vejo   não   estar   fazendo    qualquer sacrifício insuportável. Refiro-me à parábola sobre "O Óbolo da Viúva".          
       Quantas  vezes  eu não me teria negado a colaborar ou haveria  sido  mesquinho  em minha colaboração, seja para um  evento  específico  ou  para  a  sacola normal do grupo, pretextando  aperto  financeiro?  Ao   lado   disso,   quantas vezes,  fora  de  A.A.,  eu  não  gastei   dinheiro  em  coisas absolutamente   supérfluas   ou   não   investi   na  vaidade, doando boas somas em ocasiões  nas  quais  o  meu nome seria ressaltado como  um grande doador, mesmo que, em tais   circunstâncias,  eu   reconhecesse   a   inutilidade   da arrecadação    ou   duvidasse   dos   bons   propósitos   dos arrecadadores?          
       Ao  dizer  a  Bill:  “Mantenha  isso  simples”,  o  Dr. Bob certamente   não   estaria   fazendo   referência  a  aspectos econômicos e sim aos propósitos da Irmandade. Do mesmo modo, quando  o  Sr. Rockfeller  proclamou  que  Alcoólicos Anônimos  deveria  permanecer  pobre,  não  se   referia   a importâncias indispensáveis à sua digna  manutenção, mas sim a vultosas quantias de dinheiro, capazes  de corromper os nossos princípios.  Procuro  lembrar-me  sempre de tudo isso. Todavia, vezes   há  em  que  eu me surpreendo como protagonista   daquele   episódio,  em  que  Bill  doou  cinco dólares  a  um  companheiro  recaído, mesmo sabendo que ele iria beber para, no mesmo dia, escolher a menor moeda e colocá-la na sacola do grupo.          
       Em  outras  oportunidades,  recrimino  silenciosamente alguns companheiros que põem  centavos  na  sacola, sem querer   me   recordar  de  sua  condição  de  trabalhadores pagos     com     o    salário    mínimo.    Consigo    conviver pacificamente com companheiros, aos quais a recuperação trouxe  de  volta  a  abastança  financeira, mas a esses sou muito agradecido  por  colocarem  poucos reais na sacola e por  se   eximirem  de   colaborar  individualmente  com   os órgãos  de  serviço,  sem   perceber  que  os   centavos   de alguns, doados de coração, constituem o óbolo da viúva, ao mesmo  tempo  em  que os reais daqueles outros são filhos da  mesquinhez  e  da  ingratidão,  no invólucro da bondade farisaica.     
       Pergunto-me ainda se tenho contribuído com o coração amoroso ou se o  faço  simplesmente porque me pedem ou, ainda,   porque   quero   aparecer   diante   dos   olhos   dos companheiros  como  portador  de  generosidade   material, quando espiritualmente não  a  tenho. Digo  espiritualmente porque  a  Sétima Tradição  encerra  toda  a  sua  beleza  e grandiosidade ao constituir o momento em que o material e o   espiritual  se  fundem,  sob  o  manto  da  gratidão  e  da responsabilidade.  Cada  moeda  colocada  na  sacola  não mais pertence ao doador, mas não lhe diminui o patrimônio. O prazer de servir a  quem  foi  nosso  servidor  resgata em cada  um  de  nós  a  dignidade. Destarte,  na contabilidade qualitativa da vida, a receita foi bem superior à despesa.          
       Essas  e  outras  reflexões  me  fazem muito bem e, se assim  as  considero,  seria   egoísmo  calar-me  e  sentir  o bálsamo da recuperação  sem  dividi-lo com outrem. Fazem parte  do  inventário  permanente,  aconselhado  no Décimo
Passo,  e  são  atitudes  preparatórias  para  que,  à  luz  do Décimo Primeiro  Passo,  eu   possa   melhorar   o   contato consciente com Deus, em gesto genuflexo da alma.          
       Por tudo  isso, resolvi  transformar  essas  experiências em      palavras,     agradecido     a     todos     vocês     que, eventualmente, tiverem a tolerância para ler este texto até o fim. Que o Poder Superior  nunca nos negue Seu amparo e, mais ainda, proteja àqueles que  dão  de si sem se sentirem subtraídos, qual a viúva da parábola o fez.