Artigos - O Pântano da auto-piedade

Oque fazer quando o "coitadinho de mim" se instala?
 
Quando ingressamos em Alcoólicos Anônimos, um dos fatos que mais nos chamou a atenção foi a eqüidade de reações,
emoções e sentimentos que marcaram nossas vidas durante a atividade alcoólica. Alguns de nós até rimos, ao observar como eram parecidas as atitudes que tomávamos quando nos embriagávamos ou quando curtíamos uma ressaca. Logo
percebemos porque uma dessas emoções comuns aos alcoólicos é a auto-piedade. 
 
Pode-se dizer que a auto-piedade tem o sabor do álcool, pois mantém uma semelhança íntima com a obsessão pela
bebida no que tange à sensação de conforto que provocam. Estamos sempre nos lembrando das incontáveis ocasiões em que procurávamos o consolo de um copo de bebida, logo após uma discussão mais inflamada, ou como lenitivo para uma negociação que não prosperou, ou ainda, para aliviar a dor de uma decepção amorosa. 

O abismo do "pobre de mim" costuma aparecer justamente sob essas condições, trazendo consigo um conforto agradável, parecido com aquele que o álcool nos proporcionava, através de uma mórbida sensação de alívio que nos faz acomodar ao invés de partir efetivamente para a ação, encarando os problemas com maturidade e procurando resolvê-los pelos métodos convencionais.

Vale lembrar que o afogamento, tanto no copo, quanto no lamaçal da auto-indulgência, é um mecanismo artificial criado por nossas mentes alcoólicas na tentativa de superar os problemas. Devemos atentar sempre para o fato de que
essa sensação familiar de sofrimento pode nos perseguir após o ingresso na Irmandade, até mesmo depois de atingirmos um bom tempo de sobriedade.  Isto costuma acontecer pelo fato de procurarmos na lamentação um
substituto à altura do álcool. Julgando-nos injustiçados por não podermos beber como as outras pessoas e isso nos torna impotentes perante decepções e acaba por nos converter em seres amargos, desprezados, solitários e infelizes, apesar de abstêmios. O Programa de Recuperação da Irmandade nos adverte para os perigos que essa sensação de pena para consigo mesmo pode representar. Da mesma forma que o ressentimento, o medo e a solidão são emoções autodestrutivas, também o atoleiro da auto=piedade pode significar um convite irresistível para que retornemos a militância alcoólica. Devemos estar conscientes de que pouco importa, agora que estamos sóbrios, as causas do
nosso alcoolismo. 
 
Será que vale 
a pena continuarmos remoendo isto pelo resto da vida, sentindo compaixão de nós mesmos indefinidamente. Não será melhor desfrutarmos  a felicidade e o equilíbrio que a sobriedade tem para nos oferecer? Quando ocorrer uma crise de auto-piedade, devemos em primeiro  lugar admitir sua existência, ao invés de tentar esconder a reação de nós mesmos. A ocultação só agrava a situação. 

A partir do exame honesto e criterioso do fato, podemos resolver o problema, seja através da conversa sincera com um companheiro um com um amigo, seja por meio da lembrança das conquistas alcançadas com a sobriedade, que nos trouxe alegria de viver e pela qual vale a pena seguir em frente.

(Vivência nº 36)