Artigos - O Pequeno príncipe e o alcoolismo "Rv.051"

A literatura de Alcoólicos Anônimos é a chave da sobriedade.

O livro "Viver Sóbrio", minha primeira leitura de A.A., é um estímulo para iniciar meu programa, jóia rara a me acompanhar e a orientar sempre, nas situações do dia-a-dia. Quando o releio, o sub-capítulo "Entrar em Atividade" me chama a atenção para o lazer a ser praticado a fim de ocupar o tempo: passeios, leitura, passatempos, exercícios físicos.

Mais adiante, no mesmo livro,destaco:

“O que podemos fazer para nos animarmos? Qualquer coisa que seja não beber. Cada capítulo deste livro apresenta sugestões válidas.

Talvez haja outras. Estamos desfrutando da vida ultimamente? Ou temos estado tão preocupados em melhorar, mantendo o nariz tão perto do esmeril do auto-aperfeiçoamento, que deixamos de apreciar devidamente um pôr-do-sol, uma noite de luar, uma boa comida, a afeição?”

Esse ensinamento é muito bom para minha recuperação. Procuro na boa leitura a maneira mais eficiente de me afastar do copo.

Relendo o livro "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry, encontrei o episódio da visita do personagem ao terceiro planeta. Parece infantil, mas seu conteúdo é digno de atenção.

“O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.

- Que fazes aí? - perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

- Eu bebo - responde o bêbado, com ar lúgubre.

- Por que é que bebes? ­perguntou-lhe o principezinho.

- Para esquecer – respondeu o beberrão.

- Esquecer o quê? - indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.

- Esquecer que eu tenho vergonha - confessou o bêbado, baixando a cabeça.

- Vergonha de quê? - investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.

- Vergonha de beber! - concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente em seu silêncio.

E o principezinho foi-se embora, perplexo.

As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem."

Assim fui encapsulado no meu sofrimento e no meu remorso de bêbado. Encontrei um Poder Superior que havia perdido no meu famigerado planeta. Senti o apoio dos companheiros do Grupo de A.A. e tive vontade de sair daquela situação. Não bebi ontem nem hoje e, provavelmente, não beberei nas próximas vinte e quatro horas.

(Guido R.)

VIVÊNCIA N.° 51 – JAN/FEV. DE 1998