DP - O poço de cada um

O poço de cada um

Quando   me   convidaram   para   ir   a   uma   reunião   de  A.A.,  eu   fui   por curiosidade, pois achava que meus problemas com a bebida não eram muito sérios. Ao chegar  ao grupo, fui muito bem recebido  e  durante a  reunião  as  pessoas  falaram   de  seus   problemas  e  do  programa  dos  Doze Passos de forma bem esclarecedora.


Os  Passos   chamaram  minha   atenção,  pois   tenho   muitos  problemas  de convivência com as pessoas.  Achei   que  esse programa seria de muita ajuda para mim e passei a frequentar as reuniões.


Com  o  passar  do  tempo, percebi que muitos companheiros  afirmavam que  "quem   não   chegasse   ao   fundo   do   poço  não  ficaria  em  A.A. por muito  tempo".  Ouvia,  através  dos  depoimentos,  as  desgraças pelas quais  muitas  pessoas  haviam  passado, e pelas quais eu nunca havia passado e nem queria passar -   por   isso   é   que   eu   estava   participando   de   um   programa  tão importante.  E pensava:  "O que estou fazendo aqui? Tenho de passar por tudo isso para ser A.A.?"


Continuei   participando  das  reuniões  e  não  bebi  mais.  Passei a estudar os   Passos    e   vi    que    eram    realmente    o     que     eu     estava    precisando.
Quando ouvia  os  companheiros afirmarem que "quem não chegou ao fundo  do  poço   não   se   firma   no  programa",   pensava  que "fundo de poço"  era   ter  passado   por  muito   sofrimento  e   desgraça,  era  ter chegado à situação humilhante e deplorável de não ter mais para onde ir.


Tive  então  a  oportunidade  de  participar de uma reunião de Distrito. Gostei  de  conhecer  outros  companheiros  e  aprender  mais algumas coisas  -  uma  delas  sobre  o  tal "fundo do poço":   depois da   reunião  fomos   almoçar  na  casa  de  um  companheiro  e  pude  ouvir pessoas experientes. Conversei com alguém que me disse: "Você é um felizardo por  ter  encontrado  A.A.  em  seu caminho, estando ainda tão jovem e 'inteiro'.  Cada  um  sabe  a profundidade do  seu  'poço'.  Alguns  aguentam  mais   sofrimentos   e   outros,  como você, procuram uma saída antes  de as coisas tomarem um rumo no qual o retorno fica  difícil.  Eu conheço pessoas cujo 'fundo de poço' foi um porre."


Depois  dessa  conversa  eu  me  senti  à  vontade,  sabendo  que  não  era um intruso   que   quisesse    tirar   proveito   de    algo   que   não   era  seu.  Estou completando dois anos em A.A. e graças  a um Poder  Superior até hoje estou  sóbrio,   procurando  ter   serenidade,   coragem  e  sabedoria para viver  uma vida   de   acordo  com   a   vontade   de  Deus.  Só  por  hoje  estou   tentando  melhorar  em  todos   os   sentidos.   Agradeço    a   Alcoólicos  Anônimos  por tudo  de  bom  que   estou  aprendendo e tentando pôr em prática em minha vida.


Eu   tinha   me   inclinado   e   despencado.   Senti   a  vertigem   da  queda  e  o impacto com o chão duro  e frio  do  fundo  do   poço.  Por  sorte  minha,  esse poço não era tão profundo e eu pude ver a  saída, embora achasse que estava bem.   Algumas   vezes   tentei   sair,   mas   não  achei  a   borda   e   continuei acomodado naquela situação. Até que, sem que  eu esperasse,  vi   a  mão  de  A.A.  estendida,   oferecendo-me   ajuda   e   me  fazendo perceber  que  se  eu  não saísse  de  onde estava,  poderia  despencar num outro poço,  muito mais profundo  e  mais  difícil  de sair.   Então  agarrei essa mão estendida e a estou segurando até hoje.


Gostaria  de  agradecer   a  todos   os  companheiros   do   Grupo  Castelo  dos Sonhos. Vocês  são  meus irmãos  e  eu torço por vocês  nessa caminhada que  não  é   muito   fácil,   mas   que,   com a ajuda de um Poder Superior e de A.A., conseguimos percorrer.   Infinitas   vinte   e    quatro    horas   de  serenidade e sobriedade a todos os irmãos de A.A                                                                            

(Vivência 63 - Jan/Fev 2000)