O Primeiro Passo

Superar o Orgulho

Eduardo Mascarenhas
Médico – Psicanalista no Rio de Janeiro/RJ – 1991

Durante 56 anos de experiência na recuperação de alcoólicos, os Alcoólicos Anônimos ganharam a convicção de que só é capaz de se libertar solidamente do álcool quem fizer profunda reformulação de sua personalidade.
Para alcançar essa reformulação cumpre percorrer aquilo que, no programa de recuperação adotado pelos AAs ficou conhecido como os Doze Passos. Esses Doze Passos constituem um guia, uma meta ideal. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente, mas tentar segui-los é uma forma de se esforçar permanentemente por um aperfeiçoamento pessoa.
Com todo o respeito pela literatura dos AAs vou me permitir descreve-lo com as minhas palavras, tal como eu o entendi.
O Primeiro Passo é a pessoa superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer. Não é mais sua mão que preocupa o copo, mas o copo que a atrai. Ela não tem mais controle sobre o álcool, está dominada por ele.
O Primeiro Passo é a pessoa se dizer: "Basta de empulhação! Chega de desculpas esfarrapadas! Não posso mais continuar dizendo que o dia que eu quiser eu paro de beber. Até paro, mas só por uns dias, um mês por um ano. Depois volto à bebida com apetite redobrado.
Por incrível que pareça, dar esse passo é dificílimo. Primeiro porque é angustiante mesmo admitir que está perdendo o controlo sobre algo que gera tão sérias conseqüências para a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas teimam em considerar o alcoolismo não como uma doença, mas como fraqueza de caráter ou falta de força de vontade. Se muita gente já se sente humilhada em ter uma doença indiscutivelmente física, imagina o que significa admitir doença que é considerada como falta de vergonha na cara.
Pau-d'água, degenerado, cachaceiro, bêbado, porrista e pé-de-cana são expressões que adquiriram colorido insultuoso e que só servem para reforça o estigma que paira sobre o alcoolismo. É importante acredita que existe tratamento para o alcoolismo, mas não apenas tratamento químico e impessoal. Ás vezes, é mais fácil tomar injeção na veia, entregar o coração para uma ponte safena ou a cabeça para um Valium do que exige certo grau de entrega pessoal.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passe na frente ou é profundamente cientificista. Médicos, cirurgião e neurologista não são visto como pessoas, mas como sacerdotes da técnica. Os seres humanos com seus poderes pessoais ficam excluídos tanto pela fé infantil nos milagreiros quanto pela fé igualmente infantil na parafernália dos laboratórios, cheios de tubos de ensaios. O difícil mesmo é ver gente confiando em gente. 
As resistências aos Alcoólicos Anônimos passam por aí. Já houve resistências idênticas em relação à psicanálise. Aos trancos e barrancos, a psicanálise conseguiu infiltrar-se na cultura e hoje é até chique recorrer a um psicanalista. Mas os AAs oferecem ajuda gratuita; suas reuniões não são coordenadas por "doutores", portanto têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Além disso, o anonimato de seus membros impossibilita que se tornem célebres, dando entrevistas ao Fantástico.
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Às reuniões dos grupos comparecem pessoas das mais diversas camadas sociais. Ora, quem tem grana não gosta de "se misturar". Tem medo de que pobreza pegue. E como não sabem o que vão encontrar lá, temem ficar diante de mendigos cachaceiros e de pés-inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classes sociais menos favorecidas também tendem a se intimidar com esse tipo de encontro, pois não estão acostumadas conviver democraticamente com endinheirados.
Mas que vale a pena, isso vale!

Vivência n° 16 de abril/maio/junho/1991

Vivência nº
111 – Janeiro/Fevereiro/2008. 

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