Artigos - O que aconteceu ?

O que aconteceu?

Esta pergunta está sendo feita por muitos alcoólicos ultimamente. O que aconteceu com a nossa taxa de sucesso? 30 a 40 anos atrás, estávamos segurando 75% ou mais dos alcoólicos que vinham buscar ajuda conosco. Hoje, não estamos retendo nem 5%. O que aconteceu?
O que aconteceu com aquele Grupo de A.A. maravilhoso de 20, 30 ou 40 anos atrás? Normalmente havia 50, 75, 100 ou mais pessoas em cada reunião. Agora é só história; desapareceu! Cada vez mais grupos estão fechando as portas todo dia. O que está acontecendo?
Ouvem-se muitas idéias, opiniões e justificativas quanto ao que está acontecendo, mas as coisas não estão melhorando. Pelo contrário, continuam a piorar. O que está acontecendo?

Bill W. escreveu:

“Nos anos que se seguirão, A.A. certamente cometerá erros. A experiência nos ensinou que não devemos ter medo de fazê-los, desde que continuemos dispostos a admitir nossas falhas e a corrigi-las prontamente. Nosso crescimento como indivíduos tem dependido deste salutar processo de tentativas e erros. Também acontecerá ao nosso crescimento como Irmandade.
Lembremo-nos sempre que qualquer sociedade de homens e mulheres que não puder corrigir seus próprios erros certamente entrará em declínio senão em colapso. Tal é o preço universal pelo fracasso de continuar a crescer. Assim como cada membro de A.A. deve continuar a fazer seu inventário moral e a se corrigir, também desse modo deve a sociedade, se é que queremos sobreviver e se pretendemos servir bem e com eficiência.” (A.A. Atinge a Maioridade)
Com tão pouca sobriedade e o contínuo fechamento de grupos de A.A., torna-se evidente que nós não temos estado dispostos a admitir nossas falhas e a corrigi-las prontamente.
Parece-me que o Delegado da Área do Nordeste do Ohio. Bob Bacon, identificou nossas falhas e erros quando falou a um grupo de AAs em 1976. Disse ele, em síntese, que não estamos mais mostrando ao recém-chegado que temos uma solução para o alcoolismo. Não estamos falando para eles do Livro Azul e o quão importante ele é para a nossa recuperação a longo prazo. Não estamos falando para eles sobre as nossas Tradições e o quanto elas são importantes para cada um dos grupos e para Alcoólicos Anônimos como um todo. Pelo contrário, estamos usando nossas reuniões para contar mazelas da ativa, discussão de problemas pessoais, idéias e opiniões sobre o “meu dia”, ou o “nosso modo”.
Tenho estado aqui a já alguns anos, e refletindo sobre o que Bob Bacon falou, parece que nós deixamos os recém-chegados convencerem os antigões de que eles novatos tinham uma idéia melhor. Eles vieram de 30 ou mais dias passados em centros de tratamento onde lhes tinha sido ressaltada a necessidade que tinham de falar dos problemas deles nas Sessões de Terapia em Grupo. Foi-lhes dito que não fazia diferença saber qual era o verdadeiro problema deles, pois A.A. tinha o “melhor programa”. Foi-lhes dito que eles deveriam ir a uma reunião de A.A. todo dia durante os primeiros 90 dias do tratamento. Foi-lhes dito que não deveriam tomar quaisquer decisões importantes durante o primeiro ano de sobriedade. E o que mais lhes foi dito vai mais adiante, a maior parte nada tendo a ver com o programa de Alcoólicos Anônimos.
Aparentemente, o que lhes foi dito pareceu suficiente para os membros de A.A. que já estavam aqui quando os pacientes de Centros de Tratamento começaram a aparecer nas reuniões. E muitos membros de A.A. gostaram das idéias desses centros porque eles proporcionavam um lugar onde podiam descarregar um bebedor com problemas principalmente se ele tivesse como pagar. Isso eliminava algumas das inconveniências com que já havíamos sido incomodados antes e que nos fazia despejar suco de laranja e mel ou até uma dose de bebida na garganta de um alcoólico em delírio para ajudá-lo a desintoxicar-se.
Quando o A.A. se tornou bem sucedido, as pessoas que falavam nas reuniões eram alcoólicos em recuperação. Os alcoólicos que ainda não estavam em recuperação e sofredores apenas escutavam. Após ouvir o que era preciso fazer para entrarem em recuperação, o recém-chegado tinha que tomar uma decisão: “Você vai por em prática os Passos para se recuperar ou vai voltar lá e continuar a beber?”
Se eles dissessem que estavam dispostos a “fazer o que fosse necessário”, recebiam apadrinhamento, um Livro Azul, e começavam um processo de recuperação pela prática dos Passos e experimentando as Promessas que resultam desse modo de ação.
Este processo mantinha o recém-chegado ocupado em trabalhar o programa com os outros e continuar o crescimento da Irmandade. Nossa taxa de crescimento era de aproximadamente 70% e o número de membros sóbrios de Alcoólicos Anônimos dobrava a cada 10 anos.
Com o crescimento rápido da Indústria do Tratamento, a aceitação do nosso êxito com alcoólicos pelo sistema judicial e endosso dele pelos médicos, psiquiatras, psicólogos etc., todo tipo de gente vinha para o A.A. em número que jamais imagináramos possível. Até sem compreendermos o que estava acontecendo, nossas reuniões começaram a mudar daquelas que se focavam na recuperação do alcoolismo para as de “discussão ou partilha” que convidavam a todos para dizerem o que lhes viesse à cabeça. As reuniões evoluíram de um programa de crescimento espiritual para as do tipo de terapia em grupo, em que passamos a ouvir cada vez mais a respeito dos “nossos problemas” e cada vez menos sobre o Programa de Recuperação do Livro Azul e da preservação da Irmandade por adesão às nossas Tradições.
E o que resultou disso tudo? Bom, nunca tivemos tantos virem a nós pedindo ajuda. Mas também nunca tivemos uma taxa de crescimento tão baixa e que agora vai baixando cada vez mais. Pela primeira vez em nossa história, Alcoólicos Anônimos está perdendo membros mais rápido do que chegam recém-chegados, e nossa taxa de sucesso está no incrível mínimo. (Estatísticas dos Escritórios Intergrupais de algumas das maiores cidades indicam que menos de 5% daqueles que manifestam o desejo de parar de beber conseguem fazê-lo por mais que 5 anos; muito longe mesmo dos 75% constatados por Bill W no Prefácio da Segunda Edição.) A mudança no conteúdo de nossas reuniões está se provando uma armadilha fatal para o recém-chegado e também, para os grupos que passam a depender desse tipo de reuniões de “discussão e participação”.
Porque isso? A resposta é muito simples. Quando as reuniões eram abertas para os alcoólicos que precisavam de ajuda e para os não-alcoólicos, dava-se-lhes oportunidade para expressar suas idéias, opiniões, arejar seus problemas e contar como lhes tinha sido dito para fazer nos lugares de que vinham, e o recém-chegado confuso ficava ainda mais confuso com a diversidade de informação que lhe era apresentado. Cada vez maior número era encorajado a “somente participar de reuniões e não beber”, ou pior ainda, “ir a 90 reuniões durante 90 dias”. Não se falou mais ao recém-chegado para seguir os Passos ou então voltar a beber para ver onde ia dar. Na verdade, passamos a dizer: “Não se apressem a trabalhar os Passos. Deixem que eles entrem em você.” Os alcoólicos que participaram da compilação do Livro Azul não esperaram. Eles começaram a trabalhar os Passos desde os primeiros dias após seu último gole.
Agradeçamos a Deus que há aqueles em nossa Irmandade, como o Joe, o Wally ou o Charlie etc., que reconheceram o problema e começaram logo a fazer algo a respeito. Eles estão redirecionando o foco de volta ao Livros Azul. Sempre ficaram alguns grupos que não se deixaram levar pela tendência do tipo terapia em grupo e se mantiveram firmes no seu comprometimento de levar uma única mensagem ao alcoólico que sofre. Esta é dizer ao recém-chegado que “nós tivemos um despertar espiritual como resultado da prática destes Passos e se você quiser se recuperar, lhe designaremos um padrinho que já se recuperou e que o guiará pelo caminho que os primeiros 100 primeiros membros abriram para nós.”
Alcoólicos em recuperação começaram a fundar grupos que tem um único propósito e informam ao recém-chegado que até que ele tenha adotado os Passos e entrado em recuperação, não poderá dizer nada nas reuniões. Irão ouvir os alcoólicos em recuperação, praticarão os Passos, irão se recuperar e então tentarão passar suas experiências e conhecimento a outros que estejam procurando o tipo de ajuda que Alcoólicos Anônimos proporciona.
À medida que esse movimento se expande, como está fazendo, Alcoólicos Anônimos voltará a ter êxito em fazer a única coisa que Deus determinou para nós, e que é ajudar o alcoólico que ainda sofre a se recuperar, se já se decidiu que quer o que nós temos e para conseguir isso, está disposto ao que for necessário, aderir e praticar os Doze Passos em suas vidas e proteger nossa Irmandade honrando e respeitando nossas Doze Tradições.
Existe uma tendência para colocar a culpa por nossas dificuldades no colo da industria do tratamento e nos profissionais. Eles fazem o que fazem e isso não tem nada a ver com o que nós em Alcoólicos Anônimos fazemos. Isso é assunto deles. Não é lá que se deve colocar a culpa ou a transgressão da nossa Décima Segunda Tradição.
O verdadeiro problema é de que os membros de Alcoólicos Anônimos que estavam aqui quando esses pacientes de fora começaram a vir à nossa Irmandade, não os ajudaram a entender que o nosso programa já estava firmemente comprovado desde Abril de 1939.
E que as linhas guia para a preservação e crescimento de nossa Irmandade foram adotadas em 1950. Que esses novatos precisavam começar a praticar o Programa de Doze Passos de Alcoólicos Anônimos tal e qual nos foi dado. Que até que o tivessem feito e se recuperado, eles não tinham nada para dizer que precisasse ser ouvido por qualquer outro além do seu padrinho. Mas isso não aconteceu.
Pelo contrário, os antigões falharam em sua responsabilidade para com o recém-chegado, não o informando da verdade vital: “Raramente vimos fracassar a pessoa que nos tenha seguido nesse caminho. Aqueles que não se recuperam são pessoas incapazes de fazê-lo ou que não se dispõe a se entregarem inteiramente a este programa simples.”
Temos permitido a alcoólicos e a não alcoólicos sentarem em nossas reuniões e falarem de seus proble-mas, suas idéias e opiniões. Estamos saindo do “Raramente vimos fracassar” para o “Raramente vemos uma pessoa se recuperar”.
E é onde estamos hoje. Tivemos 30 anos de inacreditável êxito por seguirmos os ditames do Livro Azul. E estamos tendo 30 anos de fracasso desalentador por nos dispormos a ouvir todos falarem de seus problemas. Pelo menos agora temos algo a comparar.
Agora sabemos qual é o problema e sabemos qual é a solução. Infelizmente, não fomos capazes de prontamente corrigir as falhas que foram geradas pelo que pode parecer a ingestão de grandes doses de apatia e complacência. O problema que estamos vivenciando é o de desnecessariamente matar alcoólicos. A solução? O Poder maior que nós mesmos, que nós encontramos através das promessas de recuperação dos Doze Passos para aqueles que se dispõe a praticá-los conforme as guias claras e objetivas do Livro Azul.
Você quer ser uma parte do problema ou parte da solução? Simples, mas não fácil. Vai ser preciso pagar um preço.